Ia saindo do Parque Ibirapuera quando vi, lá longe, na Av. Pedro Alvares Cabral, alguém que vinha correndo na direção contrária. Era um homem de meia idade, vestido normalmente com indumentária de corredor e vi que ele, ao cruzar comigo, segurava um rosário. Mais que isso, manipulava o rosário.
Rosário, para quem não sabe, é uma espécie de colar de
contas vendido aos turistas da Aparecida do Norte, ops, aos turistas do
Vaticano, ops... é um colar com 150 continhas entremeadas com cerca de 15
contonas e o Terço é um terço dessas 150 continhas, ou seja, 50 continhas. Após
rezar o terço, serve-se café, bolinho e chá de chocolate (isso era nos terços
da minha infância, que a gente rezava terço adoidado, sempre em comunidade).
A gente rezava não, a gente acompanhava, respondia.
Quem rezava era a rezadeira, aquela que puxava as ave-marias (50) e os
pai-nossos (1 para cada dezena de ave-marias). Em nossa comunidade havia
algumas rezadeiras e um rezador. Sim, um homem-macho-casado-rezador, de voz
grave.
Aliás, agora não é mais terço, é Quarto. Fico sabendo
pelo google. O São João Paulo II, quando ainda era muito vivo, acrescentou mais
50 ave-marias ao rosário, perfazendo um total de 200. Portanto, agora, quem
reza as tradicionais 50 ave-marias está rezando o Quarto. Ele acrescentou por
conta dos Mistérios Luminosos. Antes, havia apenas três mistérios: os
dolorosos, os gloriosos e os gozosos (nada a ver com a peça do Zé Celso, hem
gente!). O São João Paulo II, quando ainda era muito vivo, acrescentou os
Mistérios Luminosos e, consequentemente, o Terço virou Quarto.
O fato concreto e importante é que os turistas podem
comprar o rosário completo ou o Terço, que agora é Quarto (mas, óh turistas
distraídos, essa nomenclatura ainda não foi atualizada lá não, na ponta do mercado.
Daqui a uns 900 anos eles mudam a plaquinha). Claro que só os santos de verdade
compram (e rezam) o rosário. Nosotros, apressados e não tão santos, compramos e
rezamos o terço, que temos mais o que fazer na vida.
Aliás, pra falar a verdade, acho que nunca vi um
rosário. O que sempre vi foi terço, que agora é quarto. Um rosário, entre
outras inconveniências, não cabe na mão, a menos que o sujeito tenha uma
mãozorra, coisa que nenhuma rezadeira tem, nem o Desidério, nosso rezador de
mão máscula. Ao contrário, as rezadeiras costumam ter as menores mãozinhas da
turma, o povão nunca gostou de rezadeira de mão grande.
Mas, enfim, o sujeito passou por mim correndo e
rezando. Ou melhor: rezando e correndo. Já disse, estava manipulando as contas,
vi quando ele mudou os dedos, sou escolado, ficava eu menino vidrado nos
dedinhos da rezadeira torcendo para aquilo acabar logo, torcendo para ela pular
duas continhas numa ave-maria só, ele estava rezando. Já li ou ouvi que tem
gente que reza e ama, reza e come, reza e trás, reza e torce, reza e chora,
reza e ri, reza e cobra, reza e planeja, reza e pragueja, reza e conta, reza e
adora, reza e viaja, reza e vigia... Mas rezar e correr, é a primeira vez.
E enquanto o cidadão se alongava pra dentro do parque,
fiquei olhando, parado e pensando: eis um cabra eclético, precavido e pragmático,
acendendo uma vela pra Deus outra pro Diabo: cuida do corpo e da alma numa só
tacada, da maneira mais simples e direta. Pragmático e simplório, se é que isso
não é pleonasmo.