terça-feira, 28 de setembro de 2021

REZAR E... CORRER!

Ia saindo do Parque Ibirapuera quando vi, lá longe, na Av. Pedro Alvares Cabral, alguém que vinha correndo na direção contrária. Era um homem de meia idade, vestido normalmente com indumentária de corredor e vi que ele, ao cruzar comigo, segurava um rosário. Mais que isso, manipulava o rosário.

Rosário, para quem não sabe, é uma espécie de colar de contas vendido aos turistas da Aparecida do Norte, ops, aos turistas do Vaticano, ops... é um colar com 150 continhas entremeadas com cerca de 15 contonas e o Terço é um terço dessas 150 continhas, ou seja, 50 continhas. Após rezar o terço, serve-se café, bolinho e chá de chocolate (isso era nos terços da minha infância, que a gente rezava terço adoidado, sempre em comunidade).

A gente rezava não, a gente acompanhava, respondia. Quem rezava era a rezadeira, aquela que puxava as ave-marias (50) e os pai-nossos (1 para cada dezena de ave-marias). Em nossa comunidade havia algumas rezadeiras e um rezador. Sim, um homem-macho-casado-rezador, de voz grave.

Aliás, agora não é mais terço, é Quarto. Fico sabendo pelo google. O São João Paulo II, quando ainda era muito vivo, acrescentou mais 50 ave-marias ao rosário, perfazendo um total de 200. Portanto, agora, quem reza as tradicionais 50 ave-marias está rezando o Quarto. Ele acrescentou por conta dos Mistérios Luminosos. Antes, havia apenas três mistérios: os dolorosos, os gloriosos e os gozosos (nada a ver com a peça do Zé Celso, hem gente!). O São João Paulo II, quando ainda era muito vivo, acrescentou os Mistérios Luminosos e, consequentemente, o Terço virou Quarto.

O fato concreto e importante é que os turistas podem comprar o rosário completo ou o Terço, que agora é Quarto (mas, óh turistas distraídos, essa nomenclatura ainda não foi atualizada lá não, na ponta do mercado. Daqui a uns 900 anos eles mudam a plaquinha). Claro que só os santos de verdade compram (e rezam) o rosário. Nosotros, apressados e não tão santos, compramos e rezamos o terço, que temos mais o que fazer na vida.

Aliás, pra falar a verdade, acho que nunca vi um rosário. O que sempre vi foi terço, que agora é quarto. Um rosário, entre outras inconveniências, não cabe na mão, a menos que o sujeito tenha uma mãozorra, coisa que nenhuma rezadeira tem, nem o Desidério, nosso rezador de mão máscula. Ao contrário, as rezadeiras costumam ter as menores mãozinhas da turma, o povão nunca gostou de rezadeira de mão grande.

Mas, enfim, o sujeito passou por mim correndo e rezando. Ou melhor: rezando e correndo. Já disse, estava manipulando as contas, vi quando ele mudou os dedos, sou escolado, ficava eu menino vidrado nos dedinhos da rezadeira torcendo para aquilo acabar logo, torcendo para ela pular duas continhas numa ave-maria só, ele estava rezando. Já li ou ouvi que tem gente que reza e ama, reza e come, reza e trás, reza e torce, reza e chora, reza e ri, reza e cobra, reza e planeja, reza e pragueja, reza e conta, reza e adora, reza e viaja, reza e vigia... Mas rezar e correr, é a primeira vez.

E enquanto o cidadão se alongava pra dentro do parque, fiquei olhando, parado e pensando: eis um cabra eclético, precavido e pragmático, acendendo uma vela pra Deus outra pro Diabo: cuida do corpo e da alma numa só tacada, da maneira mais simples e direta. Pragmático e simplório, se é que isso não é pleonasmo.   

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O PROSÉLITO QUE FALAVA TODAVIA.

E o cronista que escreve prosélito. Ah, se juntar esses dois numa canga(1)!

Mas foi. Na Praça da Sé, na Primavera de 2021. Ia passando de bicicleta, passo bem no meio dela toda semana, de bicicleta, assim como quem sobrevoa um antigo território seu conquistado pelo inimigo.

 Há lá na praça, debaixo de uma tipuana que faz sombra na hora mais quente do dia, um espaço que, desconfio, deve ser vendido ou alugado para proselitismo religioso. É que esse espaço, além de sombreado, fica na rota entre a saída do metrô e os inícios das ruas Direita e 15 de novembro. Não exatamente na rota, mas do lado dela. O prosélito proselitiza para as pessoas que passam. E sempre algum gato pingado daquele rio de gente se enrosca naquela arenga.

Pena que sou meio surdo, senão teria escutado a frase inteira. Mas escutei porventura  e todavia. E já foram suficientes para me deixarem escandalizado. Até cogitei retornar e ouvir mais, parar lá um pouco, obter a ficha completa. Mas não retornei não, confiei em meu poder de dedução; é fácil deduzir, convenhamos, o tipo de personalidade de um prosélito que fala todavia e porventura aos mendigos da Praça da Sé na Primavera de 2021.

Contudo, assim, abro brecha para a perspicaz leitora discordar das minhas deduções. É que achei a todavia do moço tão inusitada — e ainda temperada com uma porventura —, que nem quis saber do resto. De mais a mais, eu sabia que o resto era recheio e que, novisfora, nada se aproveitava daquela ladainha.

O prosélito vestia terno e tinha o cabelo cortado ao modo escovinha, raspado dos lados e uma escovinha de cabelos na parte superior. Era um sujeito de estatura mediana, meio atarracado, de uns 40 anos de idade. O terno era bege... Mais lá na frente, ainda distingui outro porventura. Para quem nada tem a dizer, há uma técnica de redação em que algumas palavras-chave sustentam todo um texto sonoro e sem sentido. Aquelas todavias e porventuras certamente impressionavam boa parte da plateia, não pelo conteúdo, mas pelo som, como uma música bonita de letra pobre. Não tem uma expressão popular que diz que “fulano fala bonito”?

Mas, eis porque minha admiração: nenhum prosélito avisado usa todavia ou porventura. Se usar, é safado ou desavisado. No mundo das certezas e das predeterminações, que é o mundo religioso, não cabe as adversativas e os acasos e sortes. Porque Deus é certeza e predeterminação. Uma todavia é adversa à certeza de Deus. Uma porventura desmoraliza a atemporal e imutável predeterminação de Deus. Ora, Deus não admite explicações nem sorte, azar ou acaso.

Eu, se fosse adepto de uma seita qualquer, e ouvisse meu guia rechear sua cantilena com uma todavia, me retirava na hora. Deus não admite senões, porque Deus é tudo. E todavia abre um vasto campo de possibilidades. Todavia abre o diabólico palácio da dúvida...

Como certos bobos da corte, acho que aquele prosélito era um papagaio confuso disfarçado de homem.

(1)  Canga: peça de madeira que junta dois bois para puxar o mesmo carro ou arado.