E o cronista que escreve prosélito. Ah, se juntar esses dois numa canga(1)!
Mas foi. Na Praça da Sé, na Primavera de 2021. Ia
passando de bicicleta, passo bem no meio dela toda semana, de bicicleta, assim
como quem sobrevoa um antigo território seu conquistado pelo inimigo.
Há lá na praça,
debaixo de uma tipuana que faz sombra na hora mais quente do dia, um espaço
que, desconfio, deve ser vendido ou alugado para proselitismo religioso. É que
esse espaço, além de sombreado, fica na rota entre a saída do metrô e os
inícios das ruas Direita e 15 de novembro. Não exatamente na rota, mas do lado
dela. O prosélito proselitiza para as pessoas que passam. E sempre algum gato
pingado daquele rio de gente se enrosca naquela arenga.
Pena que sou meio surdo, senão teria escutado a frase
inteira. Mas escutei porventura e
todavia. E já foram suficientes para me deixarem escandalizado. Até cogitei retornar
e ouvir mais, parar lá um pouco, obter a ficha completa. Mas não retornei não,
confiei em meu poder de dedução; é fácil deduzir, convenhamos, o tipo de personalidade
de um prosélito que fala todavia e porventura aos mendigos da Praça da Sé na
Primavera de 2021.
Contudo, assim, abro brecha para a perspicaz leitora discordar
das minhas deduções. É que achei a todavia do moço tão inusitada — e ainda
temperada com uma porventura —, que nem quis saber do resto. De mais a mais, eu
sabia que o resto era recheio e que, novisfora, nada se aproveitava daquela
ladainha.
O prosélito vestia terno e tinha o cabelo cortado ao modo
escovinha, raspado dos lados e uma escovinha de cabelos na parte superior. Era
um sujeito de estatura mediana, meio atarracado, de uns 40 anos de idade. O
terno era bege... Mais lá na frente, ainda distingui outro porventura. Para
quem nada tem a dizer, há uma técnica de redação em que algumas palavras-chave
sustentam todo um texto sonoro e sem sentido. Aquelas todavias e porventuras
certamente impressionavam boa parte da plateia, não pelo conteúdo, mas pelo
som, como uma música bonita de letra pobre. Não tem uma expressão popular que
diz que “fulano fala bonito”?
Mas, eis porque minha admiração: nenhum prosélito
avisado usa todavia ou porventura. Se usar, é safado ou desavisado. No mundo
das certezas e das predeterminações, que é o mundo religioso, não cabe as
adversativas e os acasos e sortes. Porque Deus é certeza e predeterminação. Uma
todavia é adversa à certeza de Deus. Uma porventura desmoraliza a atemporal e
imutável predeterminação de Deus. Ora, Deus não admite explicações nem sorte,
azar ou acaso.
Eu, se fosse adepto de uma seita qualquer, e ouvisse
meu guia rechear sua cantilena com uma todavia, me retirava na hora. Deus não
admite senões, porque Deus é tudo. E todavia abre um vasto campo de
possibilidades. Todavia abre o diabólico palácio da dúvida...
Como certos bobos da corte, acho que aquele prosélito
era um papagaio confuso disfarçado de homem.
(1) Canga:
peça de madeira que junta dois bois para puxar o mesmo carro ou arado.
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