quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O PROSÉLITO QUE FALAVA TODAVIA.

E o cronista que escreve prosélito. Ah, se juntar esses dois numa canga(1)!

Mas foi. Na Praça da Sé, na Primavera de 2021. Ia passando de bicicleta, passo bem no meio dela toda semana, de bicicleta, assim como quem sobrevoa um antigo território seu conquistado pelo inimigo.

 Há lá na praça, debaixo de uma tipuana que faz sombra na hora mais quente do dia, um espaço que, desconfio, deve ser vendido ou alugado para proselitismo religioso. É que esse espaço, além de sombreado, fica na rota entre a saída do metrô e os inícios das ruas Direita e 15 de novembro. Não exatamente na rota, mas do lado dela. O prosélito proselitiza para as pessoas que passam. E sempre algum gato pingado daquele rio de gente se enrosca naquela arenga.

Pena que sou meio surdo, senão teria escutado a frase inteira. Mas escutei porventura  e todavia. E já foram suficientes para me deixarem escandalizado. Até cogitei retornar e ouvir mais, parar lá um pouco, obter a ficha completa. Mas não retornei não, confiei em meu poder de dedução; é fácil deduzir, convenhamos, o tipo de personalidade de um prosélito que fala todavia e porventura aos mendigos da Praça da Sé na Primavera de 2021.

Contudo, assim, abro brecha para a perspicaz leitora discordar das minhas deduções. É que achei a todavia do moço tão inusitada — e ainda temperada com uma porventura —, que nem quis saber do resto. De mais a mais, eu sabia que o resto era recheio e que, novisfora, nada se aproveitava daquela ladainha.

O prosélito vestia terno e tinha o cabelo cortado ao modo escovinha, raspado dos lados e uma escovinha de cabelos na parte superior. Era um sujeito de estatura mediana, meio atarracado, de uns 40 anos de idade. O terno era bege... Mais lá na frente, ainda distingui outro porventura. Para quem nada tem a dizer, há uma técnica de redação em que algumas palavras-chave sustentam todo um texto sonoro e sem sentido. Aquelas todavias e porventuras certamente impressionavam boa parte da plateia, não pelo conteúdo, mas pelo som, como uma música bonita de letra pobre. Não tem uma expressão popular que diz que “fulano fala bonito”?

Mas, eis porque minha admiração: nenhum prosélito avisado usa todavia ou porventura. Se usar, é safado ou desavisado. No mundo das certezas e das predeterminações, que é o mundo religioso, não cabe as adversativas e os acasos e sortes. Porque Deus é certeza e predeterminação. Uma todavia é adversa à certeza de Deus. Uma porventura desmoraliza a atemporal e imutável predeterminação de Deus. Ora, Deus não admite explicações nem sorte, azar ou acaso.

Eu, se fosse adepto de uma seita qualquer, e ouvisse meu guia rechear sua cantilena com uma todavia, me retirava na hora. Deus não admite senões, porque Deus é tudo. E todavia abre um vasto campo de possibilidades. Todavia abre o diabólico palácio da dúvida...

Como certos bobos da corte, acho que aquele prosélito era um papagaio confuso disfarçado de homem.

(1)  Canga: peça de madeira que junta dois bois para puxar o mesmo carro ou arado.

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