segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O RABECÃO

     Na Praça 14 bis, aqui no Bixiga, a moça empurrava um rabecão. Um rabecão é uma rabeca grande. Grande não, enorme. Todo tocador de rabecão deveria ser grande e forte. Porque o instrumento é imenso. Assim como não se imagina um sujeito magrelo de peito pequeno a tocar bombardão, não se entende alguém pequeno, de braços pequenos, a envolver aquele instrumento. Sou totalmente ignorante sobre bombardões e rabecões, mas tenho noções razoáveis de peso, distância e força. Fazer um bombardão ronronar deve exigir muito vento, além do peso de se segurar aquela quantidade de metais, assim como atingir as cordas do rabecão por trás deve exigir braços muito compridos, imagino.

     Só que a moça da 14 bis era normal, quase pequena, quase magrela. E ela ensaiava atravessar o cruzamento na diagonal, mirando direto a escada que leva ao ponto de ônibus elevado ali da praça. Ela vinha lá de cima, da região da Paulista, ciceroneando aquele estojão enorme com uma única rodinha. Como se fosse uma dessas malas mala que a gente vê os viajantes puxando sobre rodinhas;  só que, com apenas uma rodinha, aquilo não para em pé...

     Estava parada do lado oposto ao meu, aguardando o farol abrir pra nós. Ao lado da coisa ela parecia menor ainda e eu, curioso, querendo lembrar o nome do instrumento e preocupado com a evolução da moça. É que a 14 bis é muito popular. Ali não é lugar de instrumento erudito. E o rabecão é instrumento erudito, só dá em orquestras... O rabecão que tem vez ali naquela praça é o outro, aquele carro que recolhe cadáveres. Há muita gente em situação de rua ali, crianças abandonadas, jovens usuários de drogas, velhos...todos maldormidos, mal alimentados; dormem ao relento ou em barracas, vivem ali, morrem ali... como moscas, o outro rabecão sim, deve ser familiar, passa, recolhe, tá limpo.

     Ela vinha no sentido contrário ao meu. Quando cruzamos, não resisti e puxei conversa:

     - Como é o nome desse instrumento?
     - Contrabaixo.
     - É você que toca?
     - Sim.

     Nisso o estojão quase caiu, quando a rodinha tropeçou num calombo do asfalto, e quase levou a moça junto, mas ela, após visível esforço, evitou o vexame. Então eu, meio zombeteiro, mas já correndo pra ajudar, não resisti:

     - Bem feito! Quem mandou você não aprender cavaquinho?!

     Ela estava preocupada demais com sua carga e com o farol prestes a abrir para os carros e seguiu seu caminho, sem me dar confiança. Quase agradeci a urgência, já meio arrependido da grosseira provocação. Não ousei acompanhá-la com o olhar para ver se ficou ofendida; e me apertava o coração saber que ela ia subir as escadarias para pegar o ônibus;  como será que se entra num ônibus com aquele trambolho? Não queria assistir àquela ginástica. Além de que a moça era fina, erudita. Evitou me destemperar na via pública. Não, quem faz aquele sacrifício com seu instrumento é mais que erudito: é devoto.  Erudito é o tocador de violino. Erudito e esperto.

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