segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CONVERSA SOBRE A LOUCURA

Conversa de bar, com pouca discordância e algumas tequilas.

     - Não, o cara usa drogas porque não suporta a ideia da certeza de que nunca vai poder contratar um mordomo, nunca vai poder viajar pra Orlando, nunca vai conseguir comprar um toiota...
     - É;  ainda assim, muita gente não usa drogas porque vai chutando a utopia para a semana seguinte, graças às loterias da Caixa.
     - O que leva ao surto é o desespero. Ninguém consegue viver por muito tempo sem adoecer, em estado de desesperança.
     - Quando todas as portas se fecham, que ficamos sem saída, que a coisa fica feia, a solução mais popular é Deus. Quê que cê acha?
     - Concordo. A literatura costuma resolver nossos mais insolúveis perrengues.E a narrativa religiosa é a obra prima da humanidade. Deus é um genial personagem.
     - Sim;  a grande maioria vivia desesperada, que é a lógica. Então criaram Deus: literatura da salvação.
     - Não há melhor remédio para a crise psicológica que uma possibilidade concreta, uma nova pespectiva, um vislumbre.
     - Ora, se fosse assim, ninguém ficava doido. O mundo é infindo e sempre se nos depararíamos com um remédio.
     - Em tese. O mundo é realmente infindo, com variáveis infindas, mas o diabo é que os indivíduos criam e se prendem em seus próprios mundos limitadíssimos.
     - A psicanálise não é também uma criação literária genial, na medida em que ajuda a alargar tais limites pessoais?
     - Talvez. O diabo é o consultório, o valor da consulta e a transferência de todas as fichas para a banca do psicanalista.
     -Volto às drogas. No início do mundo a cerveja era amarga. Mas a tomávamos porque queríamos parecer adultos.
     - É a velha história das muletas. As pessoas lançam mão de artifícios para realizarem aquilo que não conseguem pelas próprias pernas.
     - Isso me lembra a parábola da grama do quintal do vizinho.
     - Isso tá na Bíblia?
     - Sei lá. Não que não tenha lido do Gênesis ao Apocalipse, mas acho que essa história da grama do quintal do vizinho é coisa nossa mesmo, da sabedoria popular.
     - A solidão leva à loucura?
     - Nunca pensei nisso, mas eu, quando me sinto só, fico doida.
     - Em quais situações você se se sente só?
     - Me sinto só quando me tranco em minha casa, mantenho as janelas fechadas, desligo o telefone, não ligo a TV e não sou importunada nem por um parente, nem por um amigo, nem por um vizinho.
     -Olhaí a importância da grama, do quintal, e do vizinho...
     - Isso quer dizer que quem mora em favela ou cortiço tem menores chances de ficar maluco?
     - Sim, porque então você está a toda hora interagindo com as circunstâncias, querendo ou não querendo. As casas são coladas, as paredes são frágeis, as vielas são estreitas, as urgências pipocam a todo instante.
     -Faz sentido. Isso explica o alto índice de suicídios no Japão e nos países nórdicos - países sem favelas. No entanto, fico confusa, porque na favela não tem quintal nem grama.
     - Acho que na favela, a grama e o quintal são substituídos pelo desespero. O desespero faz parte da natureza das coisas, da paisagem. O cara parte do princípio de que tudo que vier é lucro. E enrola um baseado com naturalidade, por prazer.  E, sem culpa, morre, ou fica louco, ou mantém a lucidez.

2 comentários:

  1. Muito bom, Buzzo! Como diria Shakespeare, toda loucura é bem vinda só é preciso apresentar ao mundo com método.

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    1. ou seja: é recomendável fazer loucuras, mas não podemos esquecer de escovar os dentes...

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