AS BARRACAS
AUTOPORTANTES E A CIDADANIA PAULISTANA
Nunca pensei que BARRACA pudesse
desempenhar papel tão destacado na cidadania desta megacidade. Na Paulista,
barracas pedem intervenção militar, a volta da ditadura de direita - liderada
por militares de direita. No viaduto do chá, barracas pedem que quem passou no
concurso para ser guarda civil seja admitido pela prefeitura. Isso num giro
rápido que fiz nesta semana. Se andasse mais, se xeretasse mais, barracas
encontraria que pedem mais moradia. E gente dentro de barraca há por todo lado –
gente que antes não tinha teto e agora tem: o teto da barraca.
Mas isso só foi possível com a Revolução
das Barracas. Quer dizer, revolução na fabricação de barracas: com a invenção
das barracas autoportantes. São esses igluzinhos que vemos por aí. Ficam
armadas sem qualquer fixação ao solo. Então, é possível armá-las sobre o
cimentado, a calçada, o asfalto. Quando comecei a acampar, 40 anos atrás, só
havia barraca do tipo canadense e do tipo bangalô: ferragens enormes e pesadas
e as lonas só ficavam esticadas se fixadas ao chão. Agora inventaram varetas
flexíveis e levíssimas, que se embainham na lona – que agora não é mais lona e
sim sintéticos leves e resistentes – e, quando curvadas, “inflam” tal tecido,
ou seja, armam a barraca, sem qualquer fixação.
Pois bem: tô pensando em organizar um
movimento, um protesto qualquer, cuja causa ainda vou pensar. Será um protesto
enorme, terá grande repercussão. Isso porque comprarei 50 (cincoenta ou
cinquenta) barracas – poucos protestos têm essa quantidade de barracas. Não
será preciso muito dinheiro, acho que uns 2 mil reais dá, são baratíssimas.
Contratarei 2 desempregados desqualificados, pagando uma merreca de diária,
para ficarem do lado de fora, montando guarda, disfarçados de colhedores de
assinaturas de um abaixo-assinado condizente com a minha causa. Ainda estou
pensando em como recuperarei o dinheiro investido. Mas o essencial já tenho: a
consciência de que é possível pôr as barracas na rua. Quer dizer, fazer um
protesto popular sem povo.
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