sábado, 16 de julho de 2016

AS BARRACAS E OS PROTESTOS

AS BARRACAS AUTOPORTANTES E A CIDADANIA PAULISTANA

     Nunca pensei que BARRACA pudesse desempenhar papel tão destacado na cidadania desta megacidade. Na Paulista, barracas pedem intervenção militar, a volta da ditadura de direita - liderada por militares de direita. No viaduto do chá, barracas pedem que quem passou no concurso para ser guarda civil seja admitido pela prefeitura. Isso num giro rápido que fiz nesta semana. Se andasse mais, se xeretasse mais, barracas encontraria que pedem mais moradia. E gente dentro de barraca há por todo lado – gente que antes não tinha teto e agora tem: o teto da barraca.

     Mas isso só foi possível com a Revolução das Barracas. Quer dizer, revolução na fabricação de barracas: com a invenção das barracas autoportantes. São esses igluzinhos que vemos por aí. Ficam armadas sem qualquer fixação ao solo. Então, é possível armá-las sobre o cimentado, a calçada, o asfalto. Quando comecei a acampar, 40 anos atrás, só havia barraca do tipo canadense e do tipo bangalô: ferragens enormes e pesadas e as lonas só ficavam esticadas se fixadas ao chão. Agora inventaram varetas flexíveis e levíssimas, que se embainham na lona – que agora não é mais lona e sim sintéticos leves e resistentes – e, quando curvadas, “inflam” tal tecido, ou seja, armam a barraca, sem qualquer fixação.


     Pois bem: tô pensando em organizar um movimento, um protesto qualquer, cuja causa ainda vou pensar. Será um protesto enorme, terá grande repercussão. Isso porque comprarei 50 (cincoenta ou cinquenta) barracas – poucos protestos têm essa quantidade de barracas. Não será preciso muito dinheiro, acho que uns 2 mil reais dá, são baratíssimas. Contratarei 2 desempregados desqualificados, pagando uma merreca de diária, para ficarem do lado de fora, montando guarda, disfarçados de colhedores de assinaturas de um abaixo-assinado condizente com a minha causa. Ainda estou pensando em como recuperarei o dinheiro investido. Mas o essencial já tenho: a consciência de que é possível pôr as barracas na rua. Quer dizer, fazer um protesto popular sem povo.

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