domingo, 10 de julho de 2016

JIRIMIA

O SORRISO DO JIRIMIA

     Bem, está claro que, para o pedinte Jirimia, era ponto de honra não chamar o dono da casa, bater palma, campainha nem pensar. Enfim, não se anunciar de qualquer forma. Ele se considerava tão insignificante que sequer admitia comandar, com seu chamado, a alteração da rotina da casa.

     Por isso, quando o dono – a dona, na maioria das vezes, pois o dono quase sempre estava fora – o atendia, encontrava-o com um leve sorriso nos lábios – sim, o Jirimia sorria! Um sorriso incompleto e mal conservado, cheio de dobras nos cantos da boca – tantas dobras e tão incompleto que parecia verde, tirado à força do fundo do fígado -, mas um sorriso. Que devia ser por causa do atendimento, pela vitória de ser notado, de ser contado, de comprovar mais uma vez a própria existência.

     Dependendo do que dissesse o atendedor, chegava a rir. Uma risada truncada, aos solavancos, misturada aos resmungos. Uma risada contida, não reconhecida pelos pessimistas. Mas eu digo que ele ria, porque seus olhos brilhavam. Um brilho intenso, que ainda hoje não sei se era de felicidade ou de febre. Olhos perdidos nos infinitos laterais ou nos próprios pés, mas brilhantes, ardentes, todo ouvidos aos reclamos ou sugestões dos atendentes – só pela consideração do humano oposto, porque tinha a certeza de que não modificaria seu procedimento.


     Jirimia preferia o atendimento feminino. Os homens lhe eram mais trabalhosos – ridículos -, com suas tiradas inoportunas ou absurdas sugestões. Alguns chegavam ao ponto de esgotar a paciência do Jirimia – sim, o Jirimia tinha impaciência! -, embora a manifestasse muito discretamente, apoiando-se numa única perna, alternadamente, sem, contudo, mover os pés de onde os havia plantado quando chegara.


     Às mulheres, o Jirimia apenas sorria, esse sim um sorriso nervoso de pressa. Sentia nos olhos delas o incômodo que seu saco único provocava – aquele saco de algodão onde todos os grãos se misturavam. Sentia nelas a silenciosa reprovação, a mesma das suas quatro irmãs, tão desgastante... Não se identificava com as mulheres, guardava delas a distância da diferença, do perfume, do asseio, do sexo... Com os homens, ria – pequeno, mas ria -, identificando neles a própria rusticidade. Diria que chegava a ser-lhes solidário...


Enfim, o Jirimia ria. E estou convicto de que nem sempre era para não chorar. Admito até a felicidade naquele riso.

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