Há meia hora um helicóptero paira sobre o prédio em que trabalho, na avenida Paulista. Na calçada em frente, o rio de pedestres escorre com dificuldades entre inúmeras viaturas da polícia estacionadas. Há suspeita de bomba na agência bancária ao lado.
Antes-de-ontem, no xig-lig da esquina, seguranças do estabelecimento entraram em confronto com guardas municipais, para impedir duvidosa fiscalização.
Outro dia, um pedestre foi executado por dois motoqueiros, enquanto caminhava na calçada em frente.
O esmoler profissional que faz ponto ali perto da banca de jornal recolhe a moeda ou a nota tão logo é depositada em sua caixa de papelão, para evitar sócios mãozudos.
Quase em frente, as revistas e jornais pendurados desinformam, para confundir o inimigo.
Em cada quadra da avenida, caminhando na hora do almoço, encontro duas ou três duplas de policiais militares.Os policiais portam pistolas ponto quarenta, algemas, cacetetes, sprays venenosos, vários aparelhos de comunicação, e estão vestidos com coletes à prova de bala.
Nas esquinas há sentinelas postados em guaritas elevadas.
A todo momento passam viaturas abrindo caminho no grito, levando feridos ou acudindo ataques.
A avenida está completamente tomada por batalhões de pedestres em marcha em ambas as calçadas e por veículos nas faixas de rodagem. Entre os caminhantes, ninguém se arrisca a usar joias e quase todos portam aparelhos de comunicação móvel.
Dentro dos carros não se vê ninguém, por causa dos vidros escuros. O entrevero propaga-se pelas paralelas e transversais. Os carros, cada vez maiores, se trancam blindados, autosuficientes em seus sistemas de ar condicionado, contra abordagens especializadas nos faróis.
As casas cada vez menores, se amontoam em prédios de apartamentos, para facilitar a defesa, isolados por grades encimadas por fios energizados ou por muros com rolos cortantes em cima.
Vigilantes tristes espreitam o entorno, de dentro de cabines com vidros escuros, nas portarias. Se é noite, fachos de potentes luminárias disparam na frente de cada prédio à medida que o pedestre vai passando, comandados por células de presença.
Câmaras filmadoras estão penduradas nos beirais, nos postes, nos portões, nos satélites, profusamente instaladas pelo poder público e pelos particulares, cobrindo completamente exteriores e interiores domésticos e comerciais.
Monitores remotos complementam a vigilância presencial pública e privada. As motocicletas são consideradas eficientes veículos táticos e por isso é proibido levar alguém na garupa.
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