quarta-feira, 28 de abril de 2021

LIVRO LENTO.

 Hoje acordei com uma vontade doida de ler um livro lento. Claro, todos os livros são lentos, diante do atual frenesi instantâneo e virtual, mas um desses mixurucos livros de 90 páginas muito em voga não basta. Tem de ser um de 900 páginas bem fornidas. O tamanho da letra não precisa ser igual ao da bíblia, mas se passar do ponto, eu posso refugar. Não estou com pressa, não sou analfabeto e enxergo bem de perto. Umas 33 linhas de 60 caracteres seriam suficientes para uma página. Poderia ter ilustrações e até fotografias, mas, mais uma vez, o editor não pode exagerar na dose, porque no livro o que conta são as palavras. E frases e ideias e linhas e mais linhas e… entrelinhas. O autor tem de tomar cuidado comigo, porque sou perigoso. Não que eu vá abandoná-lo no meio do caminho, basta que ele tome cuidado para me engambelar até a página quatro. Um dos meus princípios é ler até o fim um livro que li até a página quatro. Leio praguejando, quando não gosto, mais leio até o fim. Depois, desço o cacete, mas leio até o final. Em muitos casos, esse maldito livro fica martelando em minha cabeça e enquanto eu não o releio de cabo a rabo, não fico sossegado. Já aquele um que desceu redondo… em geral, nunca mais me lembro dele. Regra geral, o livro segue a mesma lei dos salgadinhos e refrigerantes: quando é gostoso, não presta.

Esse livro pesado cuja necessidade chegou hoje pela manhã deve ser daqueles bem divididos, em que você sente a vontade do autor não só no texto, mas na disposição dos parágrafos e das ideias. Não digo que deve ter muitos ou poucos capítulos, títulos e subtítulos, deve ter o suficiente. Por exemplo, em Grande Sertão, Veredas, é um pau reto, sem divisão nenhuma (se não me falha a memória) e está de acordo, porque a narrativa é tão densa e envolvente que seria um sofrimento virar uma página em branco em busca do próximo capítulo. Já Em busca do tempo perdido, com seus sete romances, também está de acordo, porque o leitor precisar se desintoxicar a cada 300 páginas.

Sim, o livro, além de lento, deve ser pesado. Não tem coisa mais broxante do que um livro leve. Não digo no assunto, mas na substância concreta da celulose. Um livro precisa pesar e cheirar. Um livro precisa parar de pé, metafórica e literalmente; ter grossura suficiente para ser notada na estante. Ele não precisa, necessariamente, resistir ao vento lateral quando de pé, mas esse livro desejado esta manhã precisa sim. Precisa ser parrudo, em todos os sentidos. Quanto à sua idade, não estou bem lembrado, poderia até ser novo, mas, sendo novo, enfrentaria mais resistências da minha parte. Constar no cânone não é importante, mas não pode ser um joão ninguém. O livro precisa ser, no mínimo, registrado, batizado e crismado.

E precisa ser um livro com algumas notas de rodapé, além de prefácio. Posfácio não é necessário, mas desejável. Mas, sendo de ficção, somente o editor teria direito às tais notas. Eu prezo muito as notas do editor. Falar em editor, esse livrão deve ser bem editado. Se gosto de arroz e feijão no ponto e bem temperado, gosto também de um livro bem editado, desses que você sente o tesão do artesão. A capa não precisa ser dura, aliás, prefiro as moles, mas precisa fazer parte do conteúdo do livro. Não vou encapá-lo, como se fazia antigamente, vou deixar a capa à mostra, especialmente quando estiver lendo no metrô…; se você, editor, fizer uma capa imbecil, azar o seu.

Finalmente, um último e múltiplo recado ao autor. Não mastigue muito nem seja direto demais, senão enjoo. E não se esqueça de se referir a todos seus(do livro) parentes, mas cuidado: sempre em citações sutis. Nessas 900 páginas, se você citar literalmente mais do que meia dúzia de outros livros, eu te desanco. Bom, acho que todo mundo entendeu que quero um livro de ficção, gênero em que não é possível enrolar nem ser breve. Outra coisa: não escreva algo manifestamente útil ou edificante, posso romper a amizade. Mas cuidado, sou violento, já te avisei. Se você me escrever um panfleto, te mato.

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