TRISTEZA NA BARRIGA. O acontecido me deixou triste e com medo. Estava eu na loja da VIVO no interior do Xópi Paulista. Em geral, tristeza e medo não caminham juntos. Uma mocinha me atendia na entrada da loja, a 150 centímetros do limite entre o privado do Xópi e o privado da Vivo. E nunca, ou quase, medo e tristeza acontecem na barriga. Smartphones em exposição para todos os lados e todos os bolsos. A tristeza acontece no coração. Quase no mesmo nível dos 150 cm do meu adentramento, na parede lateral, vi uma gavetona vertical destinada ao descarte de lixo eletrônico. O medo acontece na cabeça. A freguesia era pouca, na rua interna. Eu voltava à loja, seis anos depois, para a mocinha me ajudar a configurar o novo aparelho, que o destino do velho era aquela gavetona. Mas daqui a pouco você vai ver que senti tristeza e medo na barriga, provocado pelo fato que vou contar. É fácil fazer a migração do aparelho velho para o novo, é só trocar o xip e seguir as instruções do manual, que está lá na página da fabricante. Quando a tristeza e/ou o medo começam na barriga, damos a eles o adjetivo de visceral. Ou figadal. Mas eu sou um sexagenário empedernido e não tenho paciência para certos detalhes tecnológicos e entrei 150 cm adentro a mesma loja da Vivo que entrara seis anos atrás, levando ambos os aparelhos para a mocinha, como um cachorro abandonado e faminto e ignorante em busca de salvação. Às vezes, medo e tristeza ocorrem após a dor de um soco no estômago. Mas só a dor acontece no estômago, o medo e a tristeza acontecem diretamente no cérebro. Não neste caso. Se eu mesmo tivesse feito a migração, gastaria a tarde toda, mas aprenderia certos recursos manêros e bisonhos oferecidos pelo aparelho, que ignoro como um asno. Se não pratico, não aprendo. O medo ou a tristeza cerebral são quase fingidos, de tão limpos. Eu olhava para a gavetona do lixo e pensava se devia deixar meu aparelho velho ali ou levá-lo para o fundo do meu armário, como peça de museu, enquanto a mocinha não o dispensava para sempre. Já aquilo que a gente sente na barriga provoca, no mínimo, suor. Afinal, meu aparelho novo entrou em operação, meu aparelho velho em decomposição, mas ambos ainda em minhas mãos; e claro que decidi levar o velho para casa... Foi a minha salvação. Vai vendo. De repente, senti um vento e um movimento estranho em minha volta. Olhei e vi, já lá fora, no espaço privado, mas público, do Xópi, um adolescente esculhambado saindo ligeiro, enquanto a mocinha falava para a outra mocinha: “Ele pegou um!”. Olhei para a prateleira acima da gavetona e vi que os dois foscos mas cobiçados smartphones continuavam lá. Falei então pra mocinha que não, que os aparelhos continuavam lá. Ela me respondeu: “Do lixo”.
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