Nesta ensolarada sexta feira de abril do ano do vírus de 2021, lá fui eu tomar vacina contra a COVID 19. Só fui porque me levaram. Eu ia na frente e a vigilante ia atrás. Era a EMEF Celso Leite, no coração do Bixiga. 3 horas da tarde, temperatura agradável, 30 pessoas na fila, 1 hora e meia de espera. O povo que saía vinha até torto de dor, eu via claramente. Eu mostrava, minha acompanhante desmentia. De vez em quando, um véio saía mancando, eu dizia Olha lá! ela dizia Não tem nada a ver. Perguntei se eu, que era sexagenário, não tinha direito a tomar vacina na frente dos outros, aí me contaram que todo mundo ali era sexagenário. Vira e mexe uma véia mais véia do que os outros véios chegava pra moça que controlava a fila com cara de estar passando mal e cortava a fila. Eu falei pra minha vigilante que ia lá falar com a moça pra passar na frente, ela não deixou. Você com essa aparência saudável… Aí eu: as aparências enganam… digo pra ela que acabei de ter um AVC, é fácil entortar a boca. Aí lembrei que estava com a boca escondida e desisti. Mas a máscara também tem vantaji. Ela esconde seu sorriso irônico, suas dobrinhas na bochecha. Enfim entramos na área reservada. Falei Agora vai. Que esperança! Tinha mais cinco no corredorzinho. Na minha frente havia um negão, levado por sua filha. Lá dentro da sala de aula, que agora não serve mais para aula, mas para vacinação, havia um vacinador e uma vacinadora. Manjei a fila, fiz os cálculos e deu o hómi. O vacinador era um jovem sarado duns 120 quilos. Pensei, Tô lascadu. Lamentei, Ô azar! Os cinco na minha frente foram andando e cada vez mais meus cálculos eram confirmados. Ô vida! Quando chegou a vez do negão, era pra Luana que ele ia, esse o nome da vacinadora. Então ele virou pra mim e mandou eu ir, que sua filha estava tirando retrato da véia da frente, ele precisava esperar, porque não tomava vacina sem foto. Aí eu comecei a ver vantaji e até esqueci a futura dor. A véia que me antecedia, logo após ser vacinada, correu pra lousa e escreveu bem grande: VIVA O SUS!!. Nós todos batemos palma. Pensei, Acho que minha sorte mudou mesmo. A Luana era um doce de vacinadora, me perguntou se eu havia tido febre, se fazia algum tratamento, se tinha alergia e eu nada, nada, me perguntou se eu tava sentindo alguma coisa e eu Medo e ela riu e quando alguém ri na nossa frente o mundo melhora, mas eu não caí na armadilha e mantive e foco, que era a iminente agulhada. Luana me mostrou o vidrinho, contendo 5 doses, que ela ia inaugurar, o que gostei. Ela mostrava pra mim, mas quem conferia era minha acompanhante. Era a vacina inglesa, que aportuguesaram para fiocruz. Municiou a seringa com o meio centímetro cúbico de lei e me mostrou, perguntando-me se eu estava vendo. Eu disse que estava vendo a agulha. Não sei se precisava duma agulha tão grande para aquele pingo de líquido, devia ser coisa de cinco pra meio a desproporção. Luana puxou uma cadeira e perguntou se eu queria sentado ou em pé. Eu dei uma de macho e falei que do jeito que fosse melhor para ela. Falei e me arrependi na hora, que sei que esse povo sacaneia os corajosos. Quando ela veio pro meu lado com aquele maçarico, falei que ia sentar, porque podia ter um troço. Ela recuou e me olhou como se fosse minha mãe, enquanto eu ciciava pra dentro um ufa! sem vento por ter consertado a tempo aquela impostada coragem de há pouco. Ela veio e enfiou tudo e eu não senti nada, graças ao meu relaxado e musculoso braço esquerdo. Ela disse então Tá vendo, não há motivo pra medo, eu disse Enganei vocês duas!, porque a cara das duas era e foi de prazer o tempo todo diante do meu suplício. Aí saí de lá segurando o local da picada com o indicador direito, com cara de dor, mancando e torto dum lado, que era pra enganar também o povo que aguardava na fila enquanto eu e minha inconsolável acompanhante íamos saindo. A desvantaji é que não poderei voltar lá daqui a 60 dias, para a segunda dose, senão recebo o troco.
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