quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ESCATOLOGIA.

 ESCAPANDO PELA TANGENTE DA ESCATOLOGIA.

Parei um instante em frente a prefeitura, para admirar o aparato de segurança da guarda municipal. Logo vi, uns 50 metros Viaduto do Chá adentro, uma roda compacta de pessoas, com um sujeito grandão no meio — lá de longe eu via sua enorme cabeça se destacando dos circunstantes. Caminhei, então, naquela direção, deixando a prefeitura e sua segurança de lado.


Fui chegando, o gigante falava. À medida que me aproximava — e começava a entender suas palavras —, concluí que ele atraía mais pela palavra do que pelo tamanho. De fato, o gigante ameaçava seus ouvintes com a segunda e próxima vinda de Cristo. Convenhamos que ouvir, na via pública, um cidadão enorme tonitroar o retorno de Cristo, agora soberbo, amedronta qualquer cristão.


Cheguei, parei a uns 10 metros para avaliar o cenário, que sou desconfiado de nascença. E o grandão, lá: Homens, convertei-vos! Como, de onde estava, eu via o conjunto da plateia do pregador, nem deu tempo de eu me indignar com o suposto machismo “homens” da invocação do homem, porque vi que entre os quinze que lá estavam só havia homens; nenhuma mulher. Então, compreensivo, considerei sensato aquele “Homens”, porque tenho o costume de me ater aos fatos.


Mas, para minha desorientação, vi, ao mesmo tempo, que era um falso gigante. O homem estava sobre uma base elevada, que não era um caixote nem um banquinho, mas uma escadinha, dessas que temos na cozinha, para pegar coisas na prateleira de cima do armário. Sobre o segundo degrau, ele se equilibrava com uma das mãos na estrutura da escada e, com a outra, gesticulava com o indicador em riste, ora na direção do céu, ora na direção do cidadão médio em sua frente.


Confesso que havia acreditado na desproporcional altura do sujeito, a julgar pelo tamanho da sua cabeça. De fato, era um sujeito cabeçudo. E pescoçudo, no sentido de grosso, não de longo. E linguarudo, mas aí já é maledicência minha, por causa da sua escatológica e flatulenta fluência.


Cristo vem aí, e dessa vez é pra fudê!


Não pensem que o verbo foder é invenção minha, não. Apenas transcrevo as palavras do cara: … dessa vez é pra fudê! Foi aí que entendi que eram as palavras que prendiam a plateia, e não o porte do sujeito, até porque era um porte claramente artificial. A gente tende a desprezar o poder da palavra, em detrimento do poder da imagem. Mas uma palavra bem-posta, dessas que o povo entende, tem tanto poder quanto a melhor imagem.


Nisso, dois ouvintes abandonaram a pregação e olharam para mim, sem se moverem, entretanto. Foi o bastante para eu entender que devia dar o fora. Vocês acham normal um crente desviar o olhar para um arredio cidadão enquanto ouve a boa nova do emissário de Cristo? Se Cristo vai botá pra fudê, imagina seus precursores!




Nenhum comentário:

Postar um comentário