ENTRE MIM E A ONÇA.
Pretendo narrar um hipotético duelo de morte entre eu e a onça. Mas antes deixa eu falar de outra fera, uma amiga minha que sabe tudo de regras gramaticais. Dia desses tava conversando com ela. A certa altura, comecei a dizer, com aquela pose de sabedoria e profundidade (é que eu ia realmente dizer algo profundo): “Sabe, entre eu e você há...”. Ela me interrompeu, incontinenti: Não, esse incontinenti não basta; peremptória: “Entre mim e você”. Claro que esqueci completamente do que ia dizer, perdi o rumo. Pense num chute no saco, em algo broxante.
É incrível o poder demolidor de um pronome depois de uma preposição num cidadão maior de idade. Claro que não respondi nada, aliás, parei de falar. Parei, perdi, não tinha nada mais a dizer. Respondo agora, por escrito: quer apostar que daqui a 100 anos ninguém mais vai dizer “entre mim e ela”, mas “entre eu e ela”? Ainda bem que não fiz a aposta ao vivo, porque, além de ter de ouvir bem uma meia hora de aula, ao final ainda seria desmoralizado com a observação de que daqui a 100 anos nenhum de nós dois estará aqui para ver quem ganhou, eis que a moça é racional e detalhista.
Quanto à onça, quanto a mim, resta saber quem está no topo da cadeia alimentar. Quem estiver, vence a parada. Quanto a mim, sim! Esse mim ao final da frase vai bem. Para mim, essas interrupções são estraga-prazeres. Afinal, e essa onça?
(tenho muito mais medo de jararaca do que de onça).
Vamos supor que eu e a onça nos encontrássemos. Numa clareira de desmatamento perto da transamazônica. A onça na clareira, no meio do redemoinho. Eu, o diabo, à sua espreita. Aí então eu gritaria bem alto para ela: tô sabendo que toda essa pose é para mim sair correndo. A onça então enfiaria o rabo entre as pernas e retornaria para a floresta. E o duelo estaria resolvido, comigo vencedor, porque não tem onça que resiste a esse mim antes do verbo. Em compensação, ambos sobreviveríamos.
(mas tem certos vexames que é melhor morrer… )
Entretanto, a hipótese proposta é que o duelo seria de morte. Agora estou numa enrascada. Armei a arapuca e estou preso nela. Não quero morrer nem matar a onça.
Nenhum comentário:
Postar um comentário