terça-feira, 5 de janeiro de 2021

NAMORADEIRA.

 A NAMORADEIRA.

Mas gente!, falando da saudável literalidade da língua, ainda presente nos argentinos, ao menos para cabelaria (ao invés da nossa barbearia) e vigilantes do fogo (ao invés de bombeiro), esculachei o sofá e esqueci a namoradeira. Sim, não havia sofá, mas havia namoradeira! Péra aí, oh mentes santas e céleres e sujas. Não era isso que estão pensando não, mas vão vendo. Ou melhor, lendo:

Bem, começa que sou absolutamente contrário a essa puritana tendência de usar o verbo namorar para o ato sexual (mas confesso que o meu “trepar” é inadequado e insatisfatório, lexicalmente falando, bem entendido). A prova de tal inadequação é que ao invés de namoradeira, seria trepadeira. E trepadeira era, é e será eternamente inaceitável.

Mas a namoradeira era um inocente banco para dois. As provas de que era inocente eram, primeiro, ter a dureza da legítima madeira maciça; segundo, ter encosto lateral para os braços, que delimitava o espaço deitável a no máximo 1 metro, eis que era para duas pessoas pequenas e magras, mas claro que muito mais compridas do que 1 metro…

Claro, depois, muito depois, passaram a fabricar namoradeiras para mais de dois, mas aí a vaca já tinha ido para o brejo e a pôca-vergonha já havia adquirido literalidade. Mas, para quem sabia ler nas entrelinhas, já havia naquele tempo claros indícios de onde a namoradeira ia nos levar: começaram a pipocar nas lojas algumas namoradeiras com o encosto dividido: metade de um lado, metade do outro, o que obrigava os ocupantes a ficarem de frente um para o outro, o que, como sabemos, é meio caminho andado (a menos que mudassem o nome para conversadeira, o que não fizeram). Em seguida, tiraram os encostos laterais e aí 1 metro de longitude era mais do que suficiente para qualquer casal se aviar, por mais longilíneo que fosse.

Mas o divisor de águas foi a namoradeira para mais de dois: a má intenção era clara, mas ninguém protestou, deu no que deu: o sofá!

Pessoas!, ainda, quero dizer que havia um móvel específico para as mulheres pentearem o cabelo, chamado penteadeira, naturalmente. Consistia numa escrivaninha cheia de gavetinhas e escaninhos com um espelhão atrás, sempre acompanhada de um banquinho. Tenho muito o que dizer sobre ela e o ato de pentear os cabelos, de mulheres e homens. Como se sabe, todo homem usava cabelo muito curto, mas levava um pente de osso no bolso traseiro da calça e penteava os cabelos escrupulosamente várias vezes por dia, andando às vezes, nas calçadas, no metrô, na fila do banco, na sala do médico… Por enquanto, digo apenas que essa diferença entre homem e mulher é mais uma prova de que elas são mais evoluídas do que nós.

Pra finalizar, digo que havia o urinol e a cômoda. O urinol virou penico, depois desapareceu, obrigando-nos a cagar e mijar em local impróprio e inominado. Sobre a cômoda, digo apenas que era uma peça incômoda ao exercício da literalidade.




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