Em meu prédio mora um cidadão, meu xará, uns 10 anos mais velho do que eu. Também tem um biotipo magrelo, como eu, só que é sedentário; isso faz com que pareça doente. Anda lentamente, sempre com cuidado; tem-se a impressão de que vai cair a qualquer momento. Mas, que eu saiba, não tem nenhuma doença grave ou degenerativa. Creio que sua lentidão e aparência doentia se devem mais ao seu estilo de vida, sua visão de mundo.
Mora só, há mais de 20 anos no prédio, nem sei em qual apartamento. Vejo-o com frequência lá embaixo, no saguão, e também nas ruas imediatas. Almoça nos botecos próximos. Nunca o vi com um amigo ou parente visitante. Não sei o que fazia na vida antes de se aposentar.
A única vez que troquei algumas palavras com ele além das protocolares bom dia boa tarde quê calor! vai chover foi há uns 3 anos, quando minha vida ciclística ficou notória no prédio. Me disse que iria comprar uma bicicleta. “Elétrica”, me disse, “já fui ver, tá quase tudo acertado”. Não, ele não comprou bicicleta nenhuma não, claro.
Ontem, ele estava sentado no sofá do térreo, parei para conversar. Os assuntos, vacina, COVID 19, a recessão, a situação social, ele estava particularmente preocupado com o desemprego, que “está muito alto e vai aumentar”. Após uns 15 minutos de conversa, ele emendou uma fala longa, lamentando que o atual presidente pegou uma “bomba”, que tinha tudo para dar certo, mas veio a pandemia… que ele fala umas besteiras, mas é honesto, não é como o Lula, que roubou tanto dinheiro que pode ficar sem trabalhar vivendo luxuosamente pelo resto da vida.
Sorte que eu estava com máscara, porque devo ter ficado pálido. Até então, nossa conversa era neutra. Eu não sabia das suas preferências partidárias nem ele sabia das minhas, porque, em termos de discrição, estamos empatados. Enquanto ele falava, eu pensava: respondo ou não respondo?
Eu poderia ironizar com a notícia fresca das 208 mil latinhas de leite moça consumidas num mês pelo presidente honesto, mas ele retrucaria que era notícia falsa ou intriga da oposição e ficaria minha palavra contra a dele, eis que faz tempo que a letra de forma dos jornais ou a palavra do locutor da TV valem tanto quanto uma nota de 3 reais.
Além do mais, os fatos são secundários e servem apenas para corroborar as opiniões: usa-se se convenientes; desconsidera-se, se inconvenientes. Claro que isso não é normal. Claro que isso é sintoma de doença coletiva. E eu, sinceramente, não sei aonde vamos parar, ou melhor, eu acho que essa tranqueira ainda vira em guerra*.
Mas eu poderia responder como meu conterrâneo, o médico virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de S.J.do Rio Preto: Teu Cu!
(Tô preocupado que a palavra Cu apareceu em duas crônicas quase seguidas, não sei o que tá acontecendo comigo… )
*“eu vou m'imbora pra minha terra/ essa porquêra inda vira em guerra/ esse povo inda sobe a serra/ pra mór de a Light que os dentes ferra/ nus passagêro que grita e berra” (Bonde Camarão, de Cornélio Pires/ Mariano da Silva, interpretado por Caçula e Mariano, 1930).
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