Então, se você é daquelas pessoas que acham que o sofá da sala é coisa de deus ou da natureza, saiba que isso não é verdade. Considerando que até os antepassados dos Safra e dos Ermírio de Moraes viveram nas cavernas, o sofá foi introduzido na sala de todo mundo. Portanto, todo mundo teve, um dia, uma sala sem sofá. No meu mundo, eu me lembro do tempo em que não havia sofá nas casas. Aliás, não havia sofá nem geladeira nem fogão a gás. Nem armário nem estante. TV, nem pensar, não havia nem rádio.
Nem chuveiro!
Isso! Agora te peguei! Você achava que ao menos o chuveiro era coisa de deus, existisse desde Eva e Adão.
Enfim, não havia sofá nem chuveiro, me lembro, mas havia guarda-comida e guarda-louça e guarda-roupa. E cristaleira. E enxuga-prato. Sim, o guardanapo se chamava enxuga-prato. Era um tempo em que nossa língua doméstica era mais adequada e literal, como ainda remanesce na Argentina, por exemplo, onde barbearia mantém o mais apropriado e literal nome de cabelaria (já traduzido, claro) e os bombeiros são chamados de vigilantes do fogo.
(É um caso típico de lógica portuguesa, de tomar a casca pelo cerne: o cidadão vai ao salão cortar o cabelo; aproveita para também cortar a barba; aí o nome do estabelecimento fica sendo barbearia! Há pessoas que trabalham apagando fogo; para tanto, precisam de jatos d'água, o que requer uma bomba, que precisa ser operada por alguém que conhece bombas: bombeiro!)
Sim, não havia estantes nem livros, com a vantagem de que a inexistência destes implicava na automática inexistência dos dicionários e das enciclopédias. Aliás, você sabia que as bibliotecas domésticas começaram pelas enciclopédias? Outra obra portuguesa, como se fora começar a construção de um prédio pelo telhado. De repente, começaram a pipocar nas salas das casas umas lindíssimas fileiras de uniformes lombadas: Barsa, Delta Larousse… Com tantos e pesados livros, foram introduzidas as estantes. E subtraídas as mesas, substituídas pelas inúteis mesinhas de centro.
Em muitas casas não há mais mesas, este sim, um móvel de deus. Entretanto, não havia cadeiras, mas caixotes. Elas foram introduzidas paulatinamente: primeiro, uma única cadeira, para o chefe do domicílio. Sim, havia chefe do domicílio, este sim, desde Adão e seu criador. Quando o chefe do domicílio sentiu a pressão para comprar mais uma cadeira, a da mulher, aboliu-as momentaneamente, preferindo um banco. Um banco de madeira, grande, em que cabia toda a família.
Os móveis eram todos … móveis! Minha mãe mudava-os de lugar periodicamente, um modo barato de renovar o ambiente sem precisar de arquiteto e sem enriquecer as Casas André Luiz e o Exército de Salvação. Uma prosaica e ecológica prática que degenerou nessa nossa mania de descartar o supérfluo para manter o essencial.
Com o sofá, não tem coluna vertebral que aguenta. Agora tô em dúvida se a poltrona individual e reclinável veio antes ou depois do sofá.
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