Só quando a balconista perguntou, parecendo indignada, cadê os pires? foi que notei o cliente ao meu lado, no balcão da Ferragens Campeão. Lembrei então que o havia encontrado num dos corredores do armazém, instantes atrás, levando três xícaras em cada mão, enfiadas nos dedos como se fossem dedais.
Era um senhor assim, meu contemporâneo, quero dizer, da minha idade e tão matuto quanto eu, a julgar pelo vexame que estava passando diante da balconista estupefata. É que ele pretendia levar meia dúzia de xícaras de louça para café, brancas, clássicas sem os pires, porém; e isso a balconista não admitia.
(um parêntese para questionar o seguinte: por que nunca compramos 1 ou 2 ou 3 ou 4 ou 7 ou 9 xícaras, mas sempre 6 ou 12?)
A balconista não admitia menos por causa da regra da loja do que por causa da etiqueta própria, que não admitia tomar café numa xícara sem o respectivo pires por baixo. Porque, de fato, era regra da loja vender o conjunto, ou seja, xícara e pires. Mas o homem queria só as xícaras.
Eu, do meu canto, assistindo à cena de esguelha, não sabia se ria ou se chorava, com a caipirisse insistente do meu conterrâneo; só podia ser meu conterrâneo, aquela lá, ter saído do mesmo fundo de mundo que eu, aquele cidadão que, apesar de viver há tanto tempo na cidade — pelo jeitão —, ainda não aprendera que, na hora de tomar café, o pires é tão importante quanto a xícara.
Da minha parte, aquele início de admiração pela sensibilidade de comprar xícaras numa casa de ferragens se esvaíra por completo. No lugar do homem, daria uma de desentendido, mandaria baixar também os fatídicos e imprescindíveis pires, e ainda diria, para sossegar a moça: oh, meu deus, mas claro! Os pires!
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