O
jovem aproveita o penúltimo segundo da porta aberta para entrar no
vagão, num salto. No meio de nós, só para de saltitar quando a
corda acaba. O sincronismo perfeito entre os pés e a garganta faz
com que o jovem comece a pregar no exato instante em que para de
saltitar.
Pregar
de pregão, anúncio, venda em vagão.
Proclama
um bregueço para smartphone, diferente de um carregador de bateria.
É uma haste flexível para segurar o aparelho em frente aos olhos do
usuário, envolvida em seu pescoço.
Déis
real!
Essa
parte do pescoço pode virar gancho e o aparelho ser pendurado.
Barbada. Um pedido aqui, outro ali, dois acolá, sucesso de vendas.
Bregueços
para celular, que não sejam carregadores de baterias, são sucessos
garantidos.
Em
outra viagem, o bregueço consistia em um porta-smartphone ligado por
uma haste flexível a um imã. O aparelho podia ser fixado em
qualquer superfície metálica. Unzinho comprou, parecia não
entusiasmar a patuleia, para contrariar minha teoria. Mas quando o
pregador fixou seu demonstrativo na tela de um dos monitores de TV do
vagão, a indiaiada se rendeu. E eu gostei, por causa da confirmação
da minha teoria e por causa da felicidade do vendedor.
Sempre
torço para o vendedor, mas, contraditoriamente, menosprezo o
comprador.
Numa
terceira viagem, o bregueço consistia em um suporte de mesa para
smartphone, como se fosse um porta-retrato. Teve um que levou dois.
Mais uma vez, eu e o empreendedor ficamos satisfeitos.
Sendo
que o carregador de bateria não é bregueço: tem nome. Alguns
inexperientes ainda o oferecem, de vez em quando. Raramente alguém
compra. Mais que útil, é necessário, todos têm.
O
que vende é a novidade aparentemente genial, essencialmente inútil.
Uma síndrome que acomete a plebe e a nobreza. Vide o sucesso das
capinhas e películas para celulares.
Escolhemos
no grito, pelo entusiasmo, na inocência da ignorância, vítimas da
má-formação escolar e da manipulação televisiva.
Basicamente,
mantemos o padrão de troca estabelecido por Cabral no litoral da
Bahia há cinco séculos: meia dúzia de espelhos por um navio de
pau-brasil.
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