segunda-feira, 1 de julho de 2019

BREGUEÇOS.


O jovem aproveita o penúltimo segundo da porta aberta para entrar no vagão, num salto. No meio de nós, só para de saltitar quando a corda acaba. O sincronismo perfeito entre os pés e a garganta faz com que o jovem comece a pregar no exato instante em que para de saltitar.
Pregar de pregão, anúncio, venda em vagão.
Proclama um bregueço para smartphone, diferente de um carregador de bateria. É uma haste flexível para segurar o aparelho em frente aos olhos do usuário, envolvida em seu pescoço.
Déis real!
Essa parte do pescoço pode virar gancho e o aparelho ser pendurado. Barbada. Um pedido aqui, outro ali, dois acolá, sucesso de vendas.
Bregueços para celular, que não sejam carregadores de baterias, são sucessos garantidos.
Em outra viagem, o bregueço consistia em um porta-smartphone ligado por uma haste flexível a um imã. O aparelho podia ser fixado em qualquer superfície metálica. Unzinho comprou, parecia não entusiasmar a patuleia, para contrariar minha teoria. Mas quando o pregador fixou seu demonstrativo na tela de um dos monitores de TV do vagão, a indiaiada se rendeu. E eu gostei, por causa da confirmação da minha teoria e por causa da felicidade do vendedor.
Sempre torço para o vendedor, mas, contraditoriamente, menosprezo o comprador.
Numa terceira viagem, o bregueço consistia em um suporte de mesa para smartphone, como se fosse um porta-retrato. Teve um que levou dois. Mais uma vez, eu e o empreendedor ficamos satisfeitos.
Sendo que o carregador de bateria não é bregueço: tem nome. Alguns inexperientes ainda o oferecem, de vez em quando. Raramente alguém compra. Mais que útil, é necessário, todos têm.
O que vende é a novidade aparentemente genial, essencialmente inútil. Uma síndrome que acomete a plebe e a nobreza. Vide o sucesso das capinhas e películas para celulares.
Escolhemos no grito, pelo entusiasmo, na inocência da ignorância, vítimas da má-formação escolar e da manipulação televisiva.
Basicamente, mantemos o padrão de troca estabelecido por Cabral no litoral da Bahia há cinco séculos: meia dúzia de espelhos por um navio de pau-brasil.


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