Disinfiliz.
Rosto magro-cadáver, pele basso-amarelada, olhos fundo-opacos,
orelhas grandes, manchas no nariz e na testa. Pelos saindo pela
orelha e pelo nariz e sobre uma verruga no centro da face esquerda.
Papada flácida, pescoço fino de veias salientes e esparsos pelos
brancos sobre o enorme pomo-de-adão. Careca, os cabelos restantes
ralos e cinzentos, barba raspada. Um homem velho, triste, imóvel,
sentado atrás de uma escrivaninha pobre e desarrumada. Peito cavado,
barriga saliente, um sujeito magro e barrigudo, adivinhava-se ainda
que estivesse sentado. Senhor do estabelecimento, reservara um
cantinho à guisa de escritório, com divisórias baixas e precárias.
Desse canto, ao lado da única entrada, controlava a freguesia que
entrava e saía e os empregados, jovens e mal pagos. Trata-se de
estabelecimento tradicional, no ramo há mais de 50 anos, o homem se
enterrou ali ainda jovem e deixou-se consumir. O corpo e o humor. É
provável que tenha se tornado cético ali dentro, em contado com o
produto que comercializa. É provável que tenha arruinado os pulmões
ali dentro, inalando o ar saturado do pó e dos fungos típicos do
produto que comercializa. É provável que tenha se tornado
pessimista por causa do desprezo cada vez maior despertado pelo
produto que comercializa. E o fato de comercializar produto usado
deve ter exacerbado nele o atávico sentimento de inferioridade
típico da sua gente. Entretanto, não deixou de desenvolver e
praticar a malícia típica dos comerciantes da zona central da
megalópole: nenhum entusiasmo com a clientela fora-do-padrão.
Antes, a frieza calculada num dissimulado interesse, visando levar
todas as vantagens e nenhuma sarna para se coçar: “deixa aí em
cima, que a gente encaminha para uma instituição”, me falou, sem
se levantar, lá de dentro do fundo da penumbra do seu cercado. Eu
era um freguês que não comprava, mas doava dois exemplares para seu
comércio. Melhor não facilitar comigo, porque eu poderia querer
crescer para cima do seu estoque, transformando uma doação em troca
ou, no mínimo, sair com o saldo credor de ter ajudado o comerciante
decrépito. Nenhuma alegria, nenhuma graça, todo desinteresse, menos
as pupilas, a saltarem luminosas lá do fundo do olhar mortiço. Um
mundo e um negócio e uma vida desinteressante. Um homem
desinteressado. Disinfiliz.
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