sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O MEDO E O BERRO.

O MEDO E O BERRO.
Fernão Dias Paes Leme, em 1661, tinha pouco mais de 50 anos de idade e era um dos homens mais ricos e poderosos de São Paulo. Possuía um feudo com mais de 5 mil arcos, ali onde hoje fica Santana do Parnaíba.
O arco era o berro do tempo. Havia também o arcabuz, mas o arco era muito mais eficaz, como berro. Nas guerras daquele tempo, o berro-arco disparava 10 flechas enquanto o berro-arcabuz disparava apenas 1 bola de chumbo. Sendo que a flecha penetrava melhor no cipoal da mata densa e não fazia barulho.
O berro-arco era leve e fabricado ali mesmo no local da batalha com matéria-prima colhida na mata; idem para sua munição, que custava apenas a escrava mão de obra do próprio guerreiro; pesava pouco e não acabava nunca.
O berro-arcabuz pesava o equivalente a uns 5 arcos, e tanto ele quanto sua munição — pólvora e chumbo — vinham de Portugal e eram custosos para comprar e transportar e de impossível reposição no sertão. Então, lá para o final da expedição, só se dava tiro raramente, para lembrar aos ignorantes locais (no bom sentido) o poder do deus do fogo europeu.
A artilharia real e frequente era pela silenciosa e mortal troca de flechas. Porque os 5 mil arcos do Fernão eram devidamente empunhados por 5 mil “índios” escravos.
Os europeus morriam de medo dos “índios”, em suas expedições pelo território desconhecido. Em segundo lugar, na escala de medo dos portugueses, vinham as onças e em terceiro, as cobras(sendo que as cobras eram mais mortais do que as onças). Os “índios” morriam de medo dos portugueses, apenas.
Por isso, os portugueses-bandeirantes entravam no território armados para a guerra. Cada bandeira levava mais de 200 “índios” como soldados-escravos para matar (ou caçar/aprisionar) quem lhes amedrontava. Mas os comandantes eram brancos(alguns mamelucos), que a hierarquia existe e é muito eficaz para a minoria controlar a maioria. Esses comandantes portavam arcabuz, uma arma inútil perante as flechas, mas que aterrorizava os “índios”, porque reproduzia o raio/trovão(ignorância tecnológica e misticismo religioso dos locais).
O medo é amigo do berro. E da repressão. Nossa reação imediata (impensada) é matar ou prender quem (pensamos que) ameaça nossa vida. Medo, berro, ignorância e antipatia é um quarteto inseparável. As pessoas mais medrosas e ignorantes são as que mais desejam matar/prender “bandidos”. E por não entenderem as motivações da violência, ouso afirmar que são as maiores vítimas dos bandidos de verdade.
De fato, um bobão-inocente que saísse pela mata no tempo do Fernão Dias, morrendo de medo dos “índios”, das onças e das cobras e, ao mesmo tempo, ignorando a natureza e o modo e condições de vida desses três “inimigos”, corria muito mais risco de ser morto do que outro, em iguais condições, mas com mais empatia para com aquelas “feras”.
Substitua “índio”, onça e cobra por pretos e pobres periféricos e relacione-os com os babões ignorantes defensores do porte de armas, da pena de morte e da prisão em massa. É a mesma equação de 4 séculos atrás; na variável “mameluco/índio guerreiro”, encontre seu correspondente atual. Temos a quem puxar. (dia desses, conto o que fizeram com o cadáver do Fernão Dias).


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