O
MEDO E O BERRO.
Fernão
Dias Paes Leme, em 1661, tinha pouco mais de 50 anos de idade e era
um dos homens mais ricos e poderosos de São Paulo. Possuía um feudo
com mais de 5 mil arcos, ali onde hoje fica Santana do Parnaíba.
O
arco era o berro do tempo. Havia também o arcabuz, mas o arco era
muito mais eficaz, como berro. Nas guerras daquele tempo, o
berro-arco disparava 10 flechas enquanto o berro-arcabuz disparava
apenas 1 bola de chumbo. Sendo que a flecha penetrava melhor no
cipoal da mata densa e não fazia barulho.
O
berro-arco era leve e fabricado ali mesmo no local da batalha com
matéria-prima colhida na mata; idem para sua munição, que custava
apenas a escrava mão de obra do próprio guerreiro; pesava pouco e
não acabava nunca.
O
berro-arcabuz pesava o equivalente a uns 5 arcos, e tanto ele quanto
sua munição — pólvora e chumbo — vinham de Portugal e eram
custosos para comprar e transportar e de impossível reposição no
sertão. Então, lá para o final da expedição, só se dava tiro
raramente, para lembrar aos ignorantes locais (no bom sentido) o
poder do deus do fogo europeu.
A
artilharia real e frequente era pela silenciosa e mortal troca de
flechas. Porque os 5 mil arcos do Fernão eram devidamente empunhados
por 5 mil “índios” escravos.
Os
europeus morriam de medo dos “índios”, em suas expedições pelo
território desconhecido. Em segundo lugar, na escala de medo dos
portugueses, vinham as onças e em terceiro, as cobras(sendo que as
cobras eram mais mortais do que as onças). Os “índios” morriam
de medo dos portugueses, apenas.
Por
isso, os portugueses-bandeirantes entravam no território armados
para a guerra. Cada bandeira levava mais de 200 “índios” como
soldados-escravos para matar (ou caçar/aprisionar) quem lhes
amedrontava. Mas os comandantes eram brancos(alguns mamelucos), que a
hierarquia existe e é muito eficaz para a minoria controlar a
maioria. Esses comandantes portavam arcabuz, uma arma inútil perante
as flechas, mas que aterrorizava os “índios”, porque reproduzia
o raio/trovão(ignorância tecnológica e misticismo religioso dos
locais).
O
medo é amigo do berro. E da repressão. Nossa reação imediata
(impensada) é matar ou prender quem (pensamos que) ameaça nossa
vida. Medo, berro, ignorância e antipatia é um quarteto
inseparável. As pessoas mais medrosas e ignorantes são as que mais
desejam matar/prender “bandidos”. E por não entenderem as
motivações da violência, ouso afirmar que são as maiores vítimas
dos bandidos de verdade.
De
fato, um bobão-inocente que saísse pela mata no tempo do Fernão
Dias, morrendo de medo dos “índios”, das onças e das cobras e,
ao mesmo tempo, ignorando a natureza e o modo e condições de vida
desses três “inimigos”, corria muito mais risco de ser morto do
que outro, em iguais condições, mas com mais empatia para com
aquelas “feras”.
Substitua
“índio”, onça e cobra por pretos e pobres periféricos e
relacione-os com os babões ignorantes defensores do porte de armas,
da pena de morte e da prisão em massa. É a mesma equação de 4
séculos atrás; na variável “mameluco/índio guerreiro”,
encontre seu correspondente atual. Temos a quem puxar. (dia desses,
conto o que fizeram com o cadáver do Fernão Dias).
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