segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

HOMEM DE BEM

No trem da EFA, eu só andava na 2ª classe. Ninguém se interessava pelo vagão da Primeira. O desinteresse era tanto, que nem sei se havia esse vagão. Nunca procurei constatar visualmente a existência do tal vagão. E menos ainda ver quem ia nele. Não que a gente não gostasse daquelas pessoas; é que eram inexpressivas, de outro mundo; não contavam, não nos interessavam. Portanto, não havia a ambição de passar para o vagão de 1ª classe.

Éramos todos homens de bem. Homens e meninos. As mulheres eram honestas. Não cabia nem precisava que as mulheres fossem de bem. As mulheres não eram proprietárias nem faziam negócios.

Nada se sabia de racismo, ecologia e patriarcado.
Na igreja, havia muitos homens de boa vontade. Às mulheres, bastava que fossem honestas. Porque Deus conversava e negociava com os homens (prova disso é que Deus só passava procuração para homens, jamais para mulheres).

Havia roupa de missa. Era pecado ir de chinelo à cidade (não havia código penal, havia catecismo). Homem de bem não andava de bermudas. Mulher honesta não andava de calças. Éramos todos gente boa, de boas famílias. Ninguém era da classe A, classe C, classe média. Éramos pobres, mas limpinhos.

Éramos de 2ª classe, mas — que bom! — ignorávamos a existência da 1ª classe. Sabíamos, vagamente, da existência de alguns tubarões. Nenhuma mercadoria ou pessoa era classificada por faixa de poder aquisitivo (somente por supostos morais).

Para ser exato, não admitíamos — nem passava pela nossa cabeça — que houvesse diversas classes. Parecia-nos esdrúxula a ideia de que não fôssemos todos iguais (e hoje, cá distante no espaço e no tempo, devo reconhecer que éramos coerentes).

Não, não havia nada de 1º mundo; nenhum objeto, nenhum serviço. Nada top de linha; etiqueta era palavra desconhecida, tanto a das marcas quanto a das boas maneiras. Todas as maneiras eram boas. Ninguém fazia turismo. Metade da população era bilingue.

Tudo era autêntico, direto do norteamérica ou do artesão da esquina. Não havia produto pirata, falso, imitado. Não havia produto paraguaio, chinês, nem chig-lig, nem feirinha no Brás. Não havia nada de 1ª linha, pela simploriedade de haver apenas uma e única linha. No máximo, a coisa prestava ou não prestava.

Nossos cachorros e gatos não tinham raça nem pedigree; tampouco as vacas e cavalos e mulas e galinhas. Não se levava animal ao médico; nem homem. Ninguém precisava de remédio caro ou tratamento especial nem morria de doença grave, só de repente.

Não havia hospital ou restaurante de luxo. Não havia escola particular. O trabalho não era dividido entre braçal e intelectual. Não havia pobre de direita (nem de esquerda).

Não havia vinho fino nem cachaça certificada. Não havia controle de origem ou produção; nem produto especial, selecionado ou exclusivo. Não havia modelo de entrada ou avançado, de amador, de profissional. Havia coisas e produtos sem classes.

Mas, sim, havia gente granfina. Para as quais torcíamos o nariz mas, sorrateiramente, queríamos imitar. Ainda, havia pessoas chiques, que gostavam de coisa boa. Já havia nuances a considerar.

Pensando bem, o mal já estava inoculado em nós...




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