No
trem da EFA, eu só andava na 2ª classe. Ninguém se interessava
pelo vagão da Primeira. O desinteresse era tanto, que nem sei se
havia esse vagão. Nunca procurei constatar visualmente a existência
do tal vagão. E menos ainda ver quem ia nele. Não que a gente não
gostasse daquelas pessoas; é que eram inexpressivas, de outro mundo;
não contavam, não nos interessavam. Portanto, não havia a ambição
de passar para o vagão de 1ª classe.
Éramos
todos homens de bem. Homens e meninos. As mulheres eram honestas. Não
cabia nem precisava que as mulheres fossem de bem. As mulheres não
eram proprietárias nem faziam negócios.
Nada
se sabia de racismo, ecologia e patriarcado.
Na
igreja, havia muitos homens de boa vontade. Às mulheres, bastava que
fossem honestas. Porque Deus conversava e negociava com os homens
(prova disso é que Deus só passava procuração para homens, jamais
para mulheres).
Havia
roupa de missa. Era pecado ir de chinelo à cidade (não havia código
penal, havia catecismo). Homem de bem não andava de bermudas. Mulher
honesta não andava de calças. Éramos todos gente boa, de boas
famílias. Ninguém era da classe A, classe C, classe média. Éramos
pobres, mas limpinhos.
Éramos
de 2ª classe, mas — que bom! — ignorávamos a existência da 1ª
classe. Sabíamos, vagamente, da existência de alguns tubarões.
Nenhuma mercadoria ou pessoa era classificada por faixa de poder
aquisitivo (somente por supostos morais).
Para
ser exato, não admitíamos — nem passava pela nossa cabeça —
que houvesse diversas classes. Parecia-nos esdrúxula a ideia de que
não fôssemos todos iguais (e hoje, cá distante no espaço e no
tempo, devo reconhecer que éramos coerentes).
Não,
não havia nada de 1º mundo; nenhum objeto, nenhum serviço. Nada
top de linha; etiqueta era palavra desconhecida, tanto a das marcas
quanto a das boas maneiras. Todas as maneiras eram boas. Ninguém
fazia turismo. Metade da população era bilingue.
Tudo
era autêntico, direto do norteamérica ou do artesão da esquina.
Não havia produto pirata, falso, imitado. Não havia produto
paraguaio, chinês, nem chig-lig, nem feirinha no Brás. Não havia
nada de 1ª linha, pela simploriedade de haver apenas uma e única
linha. No máximo, a coisa prestava ou não prestava.
Nossos
cachorros e gatos não tinham raça nem pedigree; tampouco as vacas e
cavalos e mulas e galinhas. Não se levava animal ao médico; nem
homem. Ninguém precisava de remédio caro ou tratamento especial nem
morria de doença grave, só de repente.
Não
havia hospital ou restaurante de luxo. Não havia escola particular.
O trabalho não era dividido entre braçal e intelectual. Não havia
pobre de direita (nem de esquerda).
Não
havia vinho fino nem cachaça certificada. Não havia controle de
origem ou produção; nem produto especial, selecionado ou exclusivo.
Não havia modelo de entrada ou avançado, de amador, de
profissional. Havia coisas e produtos sem classes.
Mas,
sim, havia gente granfina. Para as quais torcíamos o nariz mas,
sorrateiramente, queríamos imitar. Ainda, havia pessoas chiques, que
gostavam de coisa boa. Já havia nuances a considerar.
Pensando
bem, o mal já estava inoculado em nós...
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