Começo
da linha, entro no metrô vazio. Sentada no banco ao lado do meu,
está uma revista. Bato o olho, já sei do que se trata. Alguém a
“esqueceu”, para que o próximo viajante a recolha e leia. Já
fiz isso com livros.
Trata-se
do proselitismo mais tímido que existe: alguém, desejando propagar
uma ideia, a deixa — por escrito — no banco do cinema, na mesinha
da sala de espera, no balcão da repartição. Tímido, limpo e
isento. O militante não se expõe, não se suja, não se compromete.
Mas o destino da sua ideia é o cesto do lixo.
De
bater o olho, não dava para saber se a revista era de um grupo
político ou religioso, de uma organização ambiental ou
assistencial. Comecei a temer que fosse um simples anúncio
comercial.
Ela
estava em envelope transparente lacrado. Entre a capa e o plástico,
havia um panfleto anexo escondendo três quartos dela, de modo que
não dava para ler nem seu título. Mas o panfleto trazia, como
primeira frase, “Toda Oração Sincera é Atendida”.
Peguei
a revista e coloquei na mochila. E o resultado é essa crônica.
Trata-se
do nº 1351 da Revista Adventista, de novembro/19, o proselitismo é
da protestante Igreja Adventista do Sétimo Dia — Adventist World
—, uma multinacional, como a Igreja Católica, a Universal do Reino
de Deus, etc.
A
diferença é que os católicos e os adeptos do Edir Macedo propagam
sua fé através da televisão, não dessa forma tacanha deixando
revista em banco de metrô. Desconfio, entretanto, que lá nos United
States a Adventist também mostre suas garras na TV.
E
para coroar o anacronismo da coisa, esse texto anexo, tapando a capa
da revista, vinha todo dirigido à segunda pessoa: “...pedi,
portanto; pedi, e recebereis. Pedi humildade, sabedoria, ânimo,
...”.
Deduzi
que é um militante mais realista do que o rei, querendo ajudar, mas
metendo os pés pelas mãos. Quem, atualmente, suporta ser abordado
na via escrita por um verbo na segunda pessoa? Mais realista porque,
certamente, a revista deve ter uma linguagem mais moderna (não me
aprofundei…).
Eu
estava acostumado com o proselitismo dos partidos políticos de
esquerda (em linguagem tão anacrônica quanto…). Agora a coisa
mudou de figura. A Direitona primeiro arrebanha o grosso para dentro
da Igreja e só lá dentro faz o trabalho político-partidário.
Resta-nos
orar. “As orações que em solidão dirigis, em cansaço, em
provação, Deus responde...”. Orar e vigiar.
Quer
dizer, orar e vigiar e se misturar e se mesclar e estudar e entender
a religiosidade do povo, aos que pretendem disputar o espaço público
e mudar o mundo. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo(o que
não exclui o fato de que eu ache que o mundo é um moinho de moer
merda). Que se danem os imbecis!
Que
o mundo me leve e que os imbecis se danem, o que não me isenta de
deixar de fazer a minha parte.
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