terça-feira, 10 de dezembro de 2019

VAI DEUS AÍ?

Começo da linha, entro no metrô vazio. Sentada no banco ao lado do meu, está uma revista. Bato o olho, já sei do que se trata. Alguém a “esqueceu”, para que o próximo viajante a recolha e leia. Já fiz isso com livros.

Trata-se do proselitismo mais tímido que existe: alguém, desejando propagar uma ideia, a deixa — por escrito — no banco do cinema, na mesinha da sala de espera, no balcão da repartição. Tímido, limpo e isento. O militante não se expõe, não se suja, não se compromete. Mas o destino da sua ideia é o cesto do lixo.

De bater o olho, não dava para saber se a revista era de um grupo político ou religioso, de uma organização ambiental ou assistencial. Comecei a temer que fosse um simples anúncio comercial.

Ela estava em envelope transparente lacrado. Entre a capa e o plástico, havia um panfleto anexo escondendo três quartos dela, de modo que não dava para ler nem seu título. Mas o panfleto trazia, como primeira frase, “Toda Oração Sincera é Atendida”.

Peguei a revista e coloquei na mochila. E o resultado é essa crônica.

Trata-se do nº 1351 da Revista Adventista, de novembro/19, o proselitismo é da protestante Igreja Adventista do Sétimo Dia — Adventist World —, uma multinacional, como a Igreja Católica, a Universal do Reino de Deus, etc.

A diferença é que os católicos e os adeptos do Edir Macedo propagam sua fé através da televisão, não dessa forma tacanha deixando revista em banco de metrô. Desconfio, entretanto, que lá nos United States a Adventist também mostre suas garras na TV.
E para coroar o anacronismo da coisa, esse texto anexo, tapando a capa da revista, vinha todo dirigido à segunda pessoa: “...pedi, portanto; pedi, e recebereis. Pedi humildade, sabedoria, ânimo, ...”.

Deduzi que é um militante mais realista do que o rei, querendo ajudar, mas metendo os pés pelas mãos. Quem, atualmente, suporta ser abordado na via escrita por um verbo na segunda pessoa? Mais realista porque, certamente, a revista deve ter uma linguagem mais moderna (não me aprofundei…).

Eu estava acostumado com o proselitismo dos partidos políticos de esquerda (em linguagem tão anacrônica quanto…). Agora a coisa mudou de figura. A Direitona primeiro arrebanha o grosso para dentro da Igreja e só lá dentro faz o trabalho político-partidário.

Resta-nos orar. “As orações que em solidão dirigis, em cansaço, em provação, Deus responde...”. Orar e vigiar.
Quer dizer, orar e vigiar e se misturar e se mesclar e estudar e entender a religiosidade do povo, aos que pretendem disputar o espaço público e mudar o mundo. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo(o que não exclui o fato de que eu ache que o mundo é um moinho de moer merda). Que se danem os imbecis!

Que o mundo me leve e que os imbecis se danem, o que não me isenta de deixar de fazer a minha parte.


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