Estou
no meio da Praça Padre Bento, no Pari. Creio haver uma praça
bonita, debaixo da sujeira. Numa lateral, a Igreja Santo Antônio do
Pari recebe os fiéis para a missa dominical das 10 horas. Quase
ninguém, praça vazia, está muito fresco para fins de dezembro, não
bastasse o tempo fechado ameaçando chover.
Nada
indica que ali, após a lateral da igreja, começa o Mercadão. Faço
que vou à missa, mas escapo pela Rua Hannemann, onde deverei entrar
em um dos inúmeros templos: por exemplo, no Shopping da Galeria
Pagé, que é uma galeria que se duplicou em shopping, como seria uma
mercearia que se duplicasse em armazém, caso típico de pleonasmo
comercial.
Posso
entrar também num feirão ou num outlet; ou num mall. Posso entrar à
direita, à esquerda, posso quebrar na Rua Tiers ou seguir até a Av.
Vautier. Posso escolher o barracão ou o lojão ou o saldão que me
aprouver, há vários; posso escolher galerias de todos os tipos e
tamanhos, shoppings diversos ou centros de compra. Posso fuçar em
diversas feirinhas da madrugada, que essa é uma história à parte,
a ser contada em outra oportunidade.
Seja
centro, shopping, mall, galeria, outlet, feira, feirão ou feirinha,
lá dentro é sempre dividido em box de 2x3 metros: é o mundo dos
empreendedores individuais, gente que não morre com nenhum imposto
nem conta com nenhum direito. Em geral, funcionam das 6 às 14 horas,
mas há portas abertas desde as 2 horas da manhã até as 6 da tarde.
Creio
que vem gente de todo o planeta comprar aqui, a julgar pelo tanto a
pulular fora e dentro dos prédios. Não sei se o centro dos
sacoleiros do mundo é aqui ou em Ciudad del Leste ou em outra biboca
pós moderna que desconheço nesta Sulamérica.
É
muito provável que aquela blusinha bacana que você comprou por 50
na Butique Central em Aripuanã, Amazônia matogrossense, saiu de
dentro de um destes MALLs aqui, pelo preço de 15.
Enfim,
chega de ver sonsos vendendo e comprando e carregando sacolas e
carrinhos e carros atravancados nas ruas e tudo muito calmo dentro da
correria geral. Volto pela Monsenhor Andrade, leve e livre de todos
os pecados. Eis que me deparo com um templo islâmico.
As
imponentes torres da mesquita me acalmam, pela beleza, mas não o
suficiente. Ainda quero fugir: Rua Oriente, Rua Maria Marcolina…
aqui tem turco, tem judeu, tem árabe, tem nordestino, tem português,
só não tem chinês, nos nomes das ruas. Chinês, por enquanto, só
dentro de cada célula em cada galpão.
Saio
na Rangel Pestana, corro para a esquerda. Logo vejo o Santuário
Reino dos Céus; a avenida é a mesma, com outro nome: Celso Garcia.
Vou andando: Igreja Jesus Fonte de Vida (direita); Igreja Reviver
Tenda dos Milagres (direita); Comunidade Cristã Amor e Graça
(esquerda); Igreja Apostólica Plenitude do Trono(direita); Igreja
Universal do Reino de Deus (esquerda); Templo Central da Assembleia
de Deus (direita). Em menos de 200 metros, só isso.
Mas,
ufa!, uma pracinha com bancos e banca, a Senador Moraes Barros; no
centro dela a igrejinha de São João Batista…
Sento
sob a sombra de uma sibipiruna. Ergo os olhos e vejo, do outro lado
da avenida, uma construção de proporções salomônicas, não sei
se é um megatemplo ou um mega-shopping. De repente, constato a
sinergia do ajuntamento de tantos e diversos templos, como se fora
várias barracas de pastel ao lado de outras tantas de caldo de cana.
Umas vendendo camisas, outras, salvações. Dou um salto, assustado,
e chamo o helicóptero, pra me tirar dali rapidamente.
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