segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sete anos de pastor Jacó servia Labão, pai de Raquel...

Jacó & Raquel e Lia

Labão era o pai de duas moças muito bonitas, Raquel e Lia; ou melhor, Lia e Raquel, pois Lia era mais velha que Raquel e a ordem pela idade é muito importante, como veremos. As duas eram muito bonitas sim, porém Raquel tinha algo mais... pelo menos para Jacó. Raquel tinha a beleza do corpo, a saúde da pele, o feitiço do cheiro e um olhar morteiro de derreter terra. Enfim, Raquel tinha um arsenal capaz de derrubar macaco do galho, quero dizer, Jacó. Tanto que o Jacó trabalhava de graça para o pai de Raquel, o Labão, só pra ficar perto dela. Quero dizer, de graça é força de expressão: trabalhava por uma ninharia. No entanto, trabalhava contente, sempre alegre, cantando, e pesado, de sol a sol. Pronto, já vai você, preconceituoso, pensar que Jacó era mais um dos milhões de alienados voluntários escravos felizes. Ou que era mais um dos milhões de engambelados por bons argumentos femininos. Vai pensando... quando eu e você íamos indo, Jacó já vinha voltando. Na verdade, o seu trabalho era condição de um acordo, acho que secreto, com Labão, em troca da filha. Após sete anos de trabalho servil, Labão daria Raquel em casamento a Jacó. Naturalmente, o acordo era verbal, por dois motivos, basicamente: porque ambos não conheciam o alfabeto e porque, mesmo que conhecessem, esse tipo de acordo não se escreve. Na hora da conversa, chovia forte e ventava, e também trovoava, e “filha” se confundia com “Lia” ou “Raquel” com “tropel”. Enfim, Jacó servia feliz; não a Labão, aquele velho escroto, mas a Raquel, aquela coisinha pálida e luminosa ao mesmo tempo, entidade ambulante com poderes indizíveis de mobilizar suas energias. De mais a mais, Jacó estava com a mente concentrada sete anos à frente e as dores de então nem contavam; além do mais, trabalhava ao lado da musa, servia a ela, e ao lado da irmã também, por que não? Enfim, passados os sete anos, Jacó recebeu a mulher prometida: Lia, a mais velha. Me parece que a coisa se deu de forma meio sacana da parte do Labão, essa passagem não tenho muita certeza, porque nessas questões de alcova nenhum humano merece inabalável crédito, mas o fato é que o Jacó só foi perceber a troca no outro dia, após consumar o casamento; consumo este cujo produto, registre-se, foi digno de Raquel. O fato é que, no dia seguinte, na hora de preparar o café, de arrumar a cama, de lavar os pratos, o Jacó ficou uma fera: com Raquel ele faria isto e muito mais, ele consertaria o telhado, lavaria o chão, cavocaria a horta, alimentaria os porcos, descartaria o lixo do banheiro..., tudo com o maior prazer; mas com Lia... era dose aguentar aquela mulher andando pela casa e dando ordens e apontando defeitos e informando tarefas. Questionado, Labão garantiu ter cumprido a promessa. Jacó ameaçou protestar, mas Labão lembrou-lhe aquela noite barulhenta de sete anos atrás, quando prometeu sua filha, a Lia, durante aquele tropel de trovões lá fora... o homem afoito antecipa por sua própria conta certas palavras do interlocutor que, às vezes, nunca são pronunciadas por este, Jacó não era lá muito detalhista, via antes a floresta para depois ver a árvore – só na Raquel é que via mínimos detalhes. E, para encerrar a contenda, Labão lembrou a Jacó o costume milenar de casar primeiro a filha mais velha... Jacó se rendeu, mas não totalmente, até porque estava pouco se lixando para aquele costume milenar;  não se conformava em ter de lavar pratos para a rabugenta da Lia a vida inteira. Compreendendo o impasse, Labão, um sujeito muito prático – pragmático -, conformou o Jacó a outro acordo de sete anos, mediante Raquel. Mas, dessa vez o trato foi muito bem alinhavado, tanto que, ao final, o Jacó saiu com essa:  “E mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida!”. É claro que isso era retórica pura do Jacó, na verdade ele negociou com o Labão as duas filhas; continuava com a Lia, enquanto esperava a Raquel; isso formalmente e para consumo externo, porque, na prática, a dupla putaria começou bem antes...

A bênção, Luís Vaz de Camões.

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