quarta-feira, 21 de março de 2018

"CIDADE FEIA"


Vi no jornal que proibiram o Dória de usar o slogan “Cidade Linda”. Pensando bem, acho que foi uma jogada dele, uma desculpa pra parar de falar no assunto. Porque, quanto mais se fala, AGORA, em cidade linda, mais salta aos olhos que a cidade está mais feia do que nunca.
Não que eu dê muita importância pra esse negócio de cidade bonita, limpinha, pintadinha, tudo no lugar, nenhunzinho lixo no passeio, calçadas impecáveis, fachadas impecáveis. Procuro gastar minhas energias com coisas menos palpáveis e mais substanciosas. Mas é que o Dória chegou chegando, se vestindo de gari, falando em zeladoria… (uma palavra que eu nunca tinha visto aplicada à administração pública); espalhando o slogan aos quatro ventos. Então martelo o assunto, pra certos eleitores deixarem de ser bestas.
E, claro, porque não quero de jeito nenhum que esse cara se eleja governador. Mas, continuando, me lembro que, na eleição municipal de 1988, um dos meus bordões, na boca-de-urna (naquele tempo era permitida e acirrada), era: “se a Erundina for eleita, ela não vai ficar aí pintando meio-fio...”. E, então, emendava a cantilena de que ela ia cuidar das creches, escolas, postos de saúde, transporte e só lá pelas secundárias tabelas ia se preocupar com asfalto lisinho, sarjetas branquinhas, jardins... Naquele tempo, nem plantar árvores eu considerava importante.
Aí Erundina ganhou. E as equipes de manutenção continuaram pintando o meio-fio, acho que vários daqueles trabalhadores nem tinham se tocado que havia mudado o prefeito. Algum tempo depois me contaram que pintar meio-fio não é pura frescura não, é medida de segurança, recomendada pela engenharia de trânsito. Mas, de duas uma: ou eu era ignorante e fanático ou o bordão era adequado para a época…
Aliás, me lembro que, na fiscalização da apuração dos votos, no Ginásio do Ibirapuera, lá pelas duas da manhã (não havia urna eletrônica, os votos eram contados papelzinho por papelzinho, sob os olhos dos fiscais dos vários candidatos), fui entrevistado por um repórter com microfone: “Por que você apoia a Erundina?” E eu, seco e curto: “Por que sou favorável ao Socialismo”. Entrevista sumariamente encerrada.
Aí me aparece, em 2016, um tal João Dória, em cuja casa, no Jardim Europa, tem até campo de futebol no quintal, se dizendo “trabalhador” e “não político”. E eu, passados tantos anos e tantas eleições, continuei com minha ingenuidade, pensando que ele não ia nem pro segundo turno, que o povo não era besta…
Tudo bem, trabalhador ele era, sem dúvida, porque alguém que acumula tanto dinheiro como ele acumulou só pode ser um cara bem dinâmico, digamos. Sobre dinamismo, tenho pra mim que poucos cargos executivos exigem tanto quanto o de gerente do PCC. Um bandido mole e preguiçoso não vai longe. Mas “trabalhador”, no sentido social do termo, ele não era não, tava na cara, todo mundo tava vendo… ele era um hábil intermediário de interesses privados, com acesso privilegiado aos altos meandros privados e públicos, daí seu sucesso de juntar dinheiro com rastelo.
Mas não-político? Ora, como é que alguém iria acreditar que o sujeito que disputa o cargo de prefeito da maior cidade do continente, por um dos principais partidos, poderia ser não-político? Eu mesmo, que nunca disputei um cargo, se me candidatar, não poderei dizer que sou não-político. Aliás, seria temerário entregar a administração pública duma cidade como S.Paulo a um real não-político, pelo simples fato de que se trata de um alienado.
Mas o eleitorado acreditou nessa conversa e eu, mais uma vez, fiquei com minha brilhante cara de tacho. Quem sabe não teria sido por causa do “administrador”? Digo, “gestor”. O cara devia ser bom mesmo, pra ganhar tanto dinheiro. Há, no populacho, a crença de que alguém fica rico porque trabalha muito e é bom gestor. Ora, ao populacho só resta acreditar na pureza e na inocência…
Só que eu achava que, quem sabe, por algum tempo, num setor restrito e bem visível como a “beleza da cidade”, ele poderia empregar de maneira bem-sucedida sua esperteza gestora e continuar sua ladainha então vencedora, na disputa por cargos subsequentes. Mas não. Nem isso ele conseguiu. A cidade está visivelmente mais feia do que há dois anos.
Está claro, portanto, que não precisou mais que meio mandato pra comprovar que Dória não era não-político, nem trabalhador (passou o tempo viajando, lembram?), nem gestor. Aliás, acho que é por isso que os políticos do PSDB falam tanto em privatização/concessão: é porque aí não precisa gerir, ou melhor, precisa gerir apenas os gestores privados – aí sim são especialistas. Será incompetência dos adversários, se esse cara for eleito governador.


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