Vi
no jornal que proibiram o Dória de usar o slogan “Cidade Linda”.
Pensando bem, acho que foi uma jogada dele, uma desculpa pra parar de
falar no assunto. Porque, quanto mais se fala, AGORA, em cidade
linda, mais salta aos olhos que a cidade está mais feia do que
nunca.
Não
que eu dê muita importância pra esse negócio de cidade bonita,
limpinha, pintadinha, tudo no lugar, nenhunzinho lixo no passeio,
calçadas impecáveis, fachadas impecáveis. Procuro gastar minhas
energias com coisas menos palpáveis e mais substanciosas. Mas é que
o Dória chegou chegando, se vestindo de gari, falando em zeladoria…
(uma palavra que eu nunca tinha visto aplicada à administração
pública); espalhando o slogan aos quatro ventos. Então martelo o
assunto, pra certos eleitores deixarem de ser bestas.
E,
claro, porque não quero de jeito nenhum que esse cara se eleja
governador. Mas, continuando, me lembro que, na eleição municipal
de 1988, um dos meus bordões, na boca-de-urna (naquele tempo era
permitida e acirrada), era: “se a Erundina for eleita, ela não vai
ficar aí pintando meio-fio...”. E, então, emendava a cantilena de
que ela ia cuidar das creches, escolas, postos de saúde, transporte
e só lá pelas secundárias tabelas ia se preocupar com asfalto
lisinho, sarjetas branquinhas, jardins... Naquele tempo, nem plantar
árvores eu considerava importante.
Aí
Erundina ganhou. E as equipes de manutenção continuaram pintando o
meio-fio, acho que vários daqueles trabalhadores nem tinham se
tocado que havia mudado o prefeito. Algum tempo depois me contaram
que pintar meio-fio não é pura frescura não, é medida de
segurança, recomendada pela engenharia de trânsito. Mas, de duas
uma: ou eu era ignorante e fanático ou o bordão era adequado para a
época…
Aliás,
me lembro que, na fiscalização da apuração dos votos, no Ginásio
do Ibirapuera, lá pelas duas da manhã (não havia urna eletrônica,
os votos eram contados papelzinho por papelzinho, sob os olhos dos
fiscais dos vários candidatos), fui entrevistado por um repórter
com microfone: “Por que você apoia a Erundina?” E eu, seco e
curto: “Por que sou favorável ao Socialismo”. Entrevista
sumariamente encerrada.
Aí
me aparece, em 2016, um tal João Dória, em cuja casa, no Jardim
Europa, tem até campo de futebol no quintal, se dizendo
“trabalhador” e “não político”. E eu, passados tantos anos
e tantas eleições, continuei com minha ingenuidade, pensando que
ele não ia nem pro segundo turno, que o povo não era besta…
Tudo
bem, trabalhador ele era, sem dúvida, porque alguém que acumula
tanto dinheiro como ele acumulou só pode ser um cara bem dinâmico,
digamos. Sobre dinamismo, tenho pra mim que poucos cargos executivos
exigem tanto quanto o de gerente do PCC. Um bandido mole e preguiçoso
não vai longe. Mas “trabalhador”, no sentido social do termo,
ele não era não, tava na cara, todo mundo tava vendo… ele era um
hábil intermediário de interesses privados, com acesso privilegiado
aos altos meandros privados e públicos, daí seu sucesso de juntar
dinheiro com rastelo.
Mas
não-político? Ora, como é que alguém iria acreditar que o sujeito
que disputa o cargo de prefeito da maior cidade do continente, por um
dos principais partidos, poderia ser não-político? Eu mesmo, que
nunca disputei um cargo, se me candidatar, não poderei dizer que sou
não-político. Aliás, seria temerário entregar a administração
pública duma cidade como S.Paulo a um real não-político, pelo
simples fato de que se trata de um alienado.
Mas
o eleitorado acreditou nessa conversa e eu, mais uma vez, fiquei com
minha brilhante cara de tacho. Quem sabe não teria sido por causa do
“administrador”? Digo, “gestor”. O cara devia ser bom mesmo,
pra ganhar tanto dinheiro. Há, no populacho, a crença de que alguém
fica rico porque trabalha muito e é bom gestor. Ora, ao populacho só
resta acreditar na pureza e na inocência…
Só
que eu achava que, quem sabe, por algum tempo, num setor restrito e
bem visível como a “beleza da cidade”, ele poderia empregar de
maneira bem-sucedida sua esperteza gestora e continuar sua ladainha
então vencedora, na disputa por cargos subsequentes. Mas não. Nem
isso ele conseguiu. A cidade está visivelmente mais feia do que há
dois anos.
Está
claro, portanto, que não precisou mais que meio mandato pra
comprovar que Dória não era não-político, nem trabalhador (passou
o tempo viajando, lembram?), nem gestor. Aliás, acho que é por isso
que os políticos do PSDB falam tanto em privatização/concessão: é
porque aí não precisa gerir, ou melhor, precisa gerir apenas os
gestores privados – aí sim são especialistas. Será incompetência
dos adversários, se esse cara for eleito governador.
Nenhum comentário:
Postar um comentário