terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O DUODENO.

Tem gente que pensa que o duodeno está na mesma matéria do seno e do cosseno. Faltou na aula nesse dia, não aprendeu. Nem desconfia que tem um duodeno na barriga. Na pesquisa do Instituto Datarob, deu traço o percentual de gente que já ouviu falar do duodeno. Já, entre os médicos, estamos bem: dois por cento o conhecem. Sendo que um e meio por cento desses dois por cento conhecem sim o duodeno, claro!, aquele talentoso duo que canta ao som de violões… Ou seja, o duodeno é um ilustre desconhecido, ao contrário do coração e do fígado.
O coração tem até time e sofredor e alusão. Multidões tem time do coração. Outros tantos sofrem do coração. Estes são os deficientes cardíacos. É, o coração liga dezenas de palavras a ele alusivas, adjetivos, advérbios, assim como o fígado que, nos indivíduos iracundos, esparge a bile não somente no próprio dono, como nos amigos e quem chega perto. São os chamados figadais.

 Enquanto o coração é tão conhecido e poderoso, a ponto de matar pessoas(morrer do coração) e influenciar a criação de bandas e tribos (os emos, os hard…) ...
... e o fígado é capaz de tornar pessoas amargas ou mandar suas almas para o inferno (quem comete o pecado da ira)...
... o duodeno não emociona ninguém, não ofende ninguém; dele não deriva nenhuma palavra, ele não mata ninguém, sequer uma metáfora ele sugere.

 Ou você, por acaso, já teve conhecimento de alguém que morreu do duodeno?
Ninguém sofre do duodeno. Quando é acometido de úlceras, seu dono simplesmente tem úlcera no estômago. Essa é a vantagem de ser discreto desconhecido: não leva a culpa de nada, não é arrolado nem nos menores delitos (em descompensação, nunca é promovido). Porque o duodeno é uma espécie de auxiliar do mordomo. Vive na parte nobre da casa — o intestino delgado — mas passa despercebido, como certos assessores informais que, naturalmente, não constam nos organogramas das empresas. 
Mas é um sujeito, ou melhor, um órgão de vital importância. Experimenta encher a cara sobre uma boa feijoada numa tarde de verão, enquanto vê o faustão sentado no sofá, sob cervejas e salgadinhos e cremosos gelados ou não na sobremesa, após passar a semana se alimentando no mékidônaldes. Aí você vai explodir seu duodeno e entupir e entender os mínimos detalhes do seu sistema digestório.

Aliás, aos velhos e desinformados (pleonasmo?), saibam que o sistema digestivo não mais existe. Agora o que digere é digestório. Também desapareceram todos os alcoólatras do mundo. Quem enche a cara costumeiramente agora é chamado de alcoolista. Tem cabimento? 
Sendo que o duodeno é discreto, mas não perdoa. Ele e sua pálida gangue, o íleo, o jejuno, o baço, o pâncreas. O pâncreas! Não, o pâncreas ainda não é o mordomo. O mordomo é o fígado. 

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