Pego
o metrô na S.Joaquim, com destino ao Largo da Concórdia. Quem
conhece o Largo da Concórdia? Acho que meus filhos, nascidos no
centro da cidade, não conhecem. E o largo é logo ali, pertinho…
Trata-se do coração do Brás, aquele onde morava o Arnesto, do
Adoniram, tempo em que os cristos eram os imigrantes italianos e não
os nordestinos.
Desço
na Sé, pego o trem em direção ao Corinthians, desço no Brás,
ando e ando e ando dentro da estação, como se mudasse de
continente, até desembocar no largo (mas se eu quisesse, dali eu
poderia ir pra Mogi, Rio Grande da Serra, Francisco Morato, era só
escolher o trem). Lá adiante vejo uma “Casa do Norte”. Há
várias. Vendem iguarias do norte(o Nordeste ainda não chegou no
Largo da Concórdia). Recomendo o requeijão. O requeijão da Bahia é
fabricado no triângulo mineiro(aliás, minha avó fabricava o requeijão da Bahia). Vendem carne de sol, queijo coalho,
feijão de corda…
No
Largo da Concórdia você pode despachar um pacote pro norte, ou até
ir você mesmo, nos ônibus extraoficiais estacionados por ali. No
interior da estação já anunciam as lojas do Brás. Você pode
escolher a linha rubi ou a coral ou a safira ou as lojas do Brás.
Dos camelôs do Brás nada informam. Porque a informalidade do pedaço
está nas lojas, nas vitrinas, no chão das calçadas e, sobretudo,
na mentalidade dos frequentadores.
A
mulher esgoela aos quatro ventos que vende água gelada, enquanto seu
filho esgoela em seu colo de sede, quem sabe. A informalidade tem a
vantagem de escancarar a essência das coisas. Assim como a pobreza.
Ali não tem frescura. Tudo vale quanto pesa. E se você não quiser
se igualar por baixo, não pise no Largo da Concórdia. Acho que é
por isso que aquele pedaço me atrai.
No
Largo da Concórdia, todos estão atônitos. Ou perplexos. Ou
apopléticos. O ar transpira desassossego. Nas ruas e vielas e largos
não se vê paredes nem fachadas nem portas. Só buracos negros
moldados por mercadorias pingentes em todas as direções. Da pobreza
dos edifícios só se desconfia. Os comerciantes não se conformam
com os vendedores, que não se conformam com a freguesia em geral,
que nunca se pergunta por que, afinal, se submete àquele corre-corre
atrás de miúdos, miçangas e pechinchas.
O
Largo da Concórdia representa a cidade, em quantidade e qualidade.
Ali, todo mundo está ocupado demais, para questionar ou assuntar
qualquer coisa, quanto mais o sentido de qualquer coisa. Porque ali
tudo é direto e imediato. Principalmente a sobrevivência.
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