quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

LARGO DA CONCÓRDIA.

Pego o metrô na S.Joaquim, com destino ao Largo da Concórdia. Quem conhece o Largo da Concórdia? Acho que meus filhos, nascidos no centro da cidade, não conhecem. E o largo é logo ali, pertinho… Trata-se do coração do Brás, aquele onde morava o Arnesto, do Adoniram, tempo em que os cristos eram os imigrantes italianos e não os nordestinos.
Desço na Sé, pego o trem em direção ao Corinthians, desço no Brás, ando e ando e ando dentro da estação, como se mudasse de continente, até desembocar no largo (mas se eu quisesse, dali eu poderia ir pra Mogi, Rio Grande da Serra, Francisco Morato, era só escolher o trem). Lá adiante vejo uma “Casa do Norte”. Há várias. Vendem iguarias do norte(o Nordeste ainda não chegou no Largo da Concórdia). Recomendo o requeijão. O requeijão da Bahia é fabricado no triângulo mineiro(aliás, minha avó fabricava o requeijão da Bahia). Vendem carne de sol, queijo coalho, feijão de corda…
No Largo da Concórdia você pode despachar um pacote pro norte, ou até ir você mesmo, nos ônibus extraoficiais estacionados por ali. No interior da estação já anunciam as lojas do Brás. Você pode escolher a linha rubi ou a coral ou a safira ou as lojas do Brás. Dos camelôs do Brás nada informam. Porque a informalidade do pedaço está nas lojas, nas vitrinas, no chão das calçadas e, sobretudo, na mentalidade dos frequentadores.
A mulher esgoela aos quatro ventos que vende água gelada, enquanto seu filho esgoela em seu colo de sede, quem sabe. A informalidade tem a vantagem de escancarar a essência das coisas. Assim como a pobreza. Ali não tem frescura. Tudo vale quanto pesa. E se você não quiser se igualar por baixo, não pise no Largo da Concórdia. Acho que é por isso que aquele pedaço me atrai.
No Largo da Concórdia, todos estão atônitos. Ou perplexos. Ou apopléticos. O ar transpira desassossego. Nas ruas e vielas e largos não se vê paredes nem fachadas nem portas. Só buracos negros moldados por mercadorias pingentes em todas as direções. Da pobreza dos edifícios só se desconfia. Os comerciantes não se conformam com os vendedores, que não se conformam com a freguesia em geral, que nunca se pergunta por que, afinal, se submete àquele corre-corre atrás de miúdos, miçangas e pechinchas.

O Largo da Concórdia representa a cidade, em quantidade e qualidade. Ali, todo mundo está ocupado demais, para questionar ou assuntar qualquer coisa, quanto mais o sentido de qualquer coisa. Porque ali tudo é direto e imediato. Principalmente a sobrevivência.

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