quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

NOVENTA GRAMAS DE MARIJUANA…

e uma ridícula Ana. Ana, a promotora que pediu que Jéssica fosse pra cadeia. Anta Ana. Anta e grávida! (é um caso típico de empatia zero, aliás, como pode haver empatia entre seres de diferentes mundos?). É claro que o filho que dela vai nascer não tem nada com isso, pelamordedeus (embora se saiba que, provavelmente, quando crescer, será tão anta gônico quanto sua mãe e o juiz). Jéssica portava 90 gramas de maconha. Jéssica estava grávida. O filho nasceu um ou dois dias depois que ela foi presa, e continua lá, ambos presos. O juiz acatou o pedido da Ana e mandou a Jéssica para a cadeia. Afinal, Jéssica portava 90 gramas de canábis. Perigosíssima!
Então me assola uma curiosidade: quantos baseados se pode fazer com 90 gramas de marijuana? Prezada leitora, é uma pergunta retórica. Porque eu mesmo estou em condições de respondê-la. Não, não, claro que nunca fumei maconha (mas garanto que foi por incompetência minha). Explico: meu pai fumava vários baseados por dia. Começou ali pelos 10 anos de idade e só parou quando morreu, aos 76. E tentou me iniciar no vício, ali pelos 6 anos de idade. Enrolava a palha sem nada dentro, colocava em minha boca e acendia. É ou não é muita incompetência da minha parte nunca jamais ter engolido sequer por engano uma fumacinha de qualquer tipo de cigarro?
Tudo bem que meu pai enrolava o baseado com palha de espiga de milho, ao invés de papel (no final da vida, ele finalmente aderiu ao papel, por falta de milho). Tudo bem também que ele usava Nicotiana Tabacum no enchimento, ao invés da cannabis sativa, mas tudo por questão de oportunidade. A nicotiana era vendida na venda do bairro, enquanto a cannabis não se encontrava em lugar algum num raio de 150 Km. Meu pai já andava com um canivete, especialmente para cortar a nicotiana. É que a nicotiana vinha sob a forma de uma grossa corda de sisal, só que preta. Inclusive vinha enrolada, como as cordas. Mas, como as cordas, se comprava por quilo, não era por metro não.
O fato da polícia encrencar com a cannabis e não encrencar com a nicotiana não era problema não para meu pai. Porque no mundo que meu pai vivia, não havia polícia. Quando ele precisava, raramente, ir ao mundo em que havia polícia, ele não levava não seus apetrechos de baseado. Comprava um maço de Mistura Fina® e ia enganando a si próprio enquanto durava o sacrifício. Porque seu baseado de nicotiana não era bem-visto fora de seu mundo e meu pai dava um boi pra não entrar em confusão e uma boiada pra continuar fora dela.
De maneira que cresci vendo meu pai preparar baseado. Da integral corda preta à faísca da binga, passando pelo corte a canivete, o esfarelamento na palma da mão, a moldagem na palha e a enrolação. Antes, assistia à colheita e ao preparo da palha. Sou um especialista, enfim. Cerca de 15 gramas de nicotiana dá um baseado. Mas só agora me dou conta de que não conheço a cannabis industrializada, pronta para consumo. Só conheço a planta. Aliás, eu tinha mais de 50 anos quando senti o cheiro da liamba. Foi nas ladeiras da Vila Madalena, quando vinha correndo da USP até em casa. Então, agora, serei obrigado a chutar. Vou considerar que a maconha tem a mesma densidade do fumo de corda: 90 gramas dá seis baseados. Agora, em termos de pureza e potência, tenho certeza que o baseado do meu pai derrubava muito mais…
Tudo isso pra dizer que água morro abaixo e fogo morro acima não tem quem cerca. Vejo nego fumando por todo lado. É como o samba, o homossexualismo, o voto. As antas reprimem até a desmoralização. Mas, enquanto isso, deixam as cadeias saindo pelo ladrão, nos dois sentidos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário