… e
uma ridícula Ana. Ana, a promotora que pediu que Jéssica fosse pra
cadeia. Anta Ana. Anta e grávida! (é um caso típico de empatia
zero, aliás, como pode haver empatia entre seres de diferentes
mundos?). É claro que o filho que dela vai nascer não tem nada com
isso, pelamordedeus (embora se saiba que, provavelmente, quando
crescer, será tão anta gônico quanto sua mãe e o juiz). Jéssica
portava 90 gramas de maconha. Jéssica estava grávida. O filho
nasceu um ou dois dias depois que ela foi presa, e continua lá,
ambos presos. O juiz acatou o pedido da Ana e mandou a Jéssica para
a cadeia. Afinal, Jéssica portava 90 gramas de canábis.
Perigosíssima!
Então
me assola uma curiosidade: quantos baseados se pode fazer com 90
gramas de marijuana? Prezada leitora, é uma pergunta retórica.
Porque eu mesmo estou em condições de respondê-la. Não, não,
claro que nunca fumei maconha (mas garanto que foi por incompetência
minha). Explico: meu pai fumava vários baseados por dia. Começou
ali pelos 10 anos de idade e só parou quando morreu, aos 76. E
tentou me iniciar no vício, ali pelos 6 anos de idade. Enrolava a
palha sem nada dentro, colocava em minha boca e acendia. É ou não é
muita incompetência da minha parte nunca jamais ter engolido sequer
por engano uma fumacinha de qualquer tipo de cigarro?
Tudo
bem que meu pai enrolava o baseado com palha de espiga de milho, ao
invés de papel (no final da vida, ele finalmente aderiu ao papel,
por falta de milho). Tudo bem também que ele usava Nicotiana
Tabacum no enchimento, ao invés da cannabis sativa, mas
tudo por questão de oportunidade. A nicotiana era vendida na venda
do bairro, enquanto a cannabis não se encontrava em lugar algum num
raio de 150 Km. Meu pai já andava com um canivete, especialmente
para cortar a nicotiana. É que a nicotiana vinha sob a forma de uma
grossa corda de sisal, só que preta. Inclusive vinha enrolada, como
as cordas. Mas, como as cordas, se comprava por quilo, não era por
metro não.
O
fato da polícia encrencar com a cannabis e não encrencar com a
nicotiana não era problema não para meu pai. Porque no mundo que
meu pai vivia, não havia polícia. Quando ele precisava, raramente,
ir ao mundo em que havia polícia, ele não levava não seus
apetrechos de baseado. Comprava um maço de Mistura Fina®
e ia enganando a si próprio enquanto durava o sacrifício. Porque
seu baseado de nicotiana não era bem-visto fora de seu mundo e meu
pai dava um boi pra não entrar em confusão e uma boiada pra
continuar fora dela.
De
maneira que cresci vendo meu pai preparar baseado. Da integral corda
preta à faísca da binga, passando pelo corte a canivete, o
esfarelamento na palma da mão, a moldagem na palha e a enrolação.
Antes, assistia à colheita e ao preparo da palha. Sou um
especialista, enfim. Cerca de 15 gramas de nicotiana dá um baseado.
Mas só agora me dou conta de que não conheço a cannabis
industrializada, pronta para consumo. Só conheço a planta. Aliás,
eu tinha mais de 50 anos quando senti o cheiro da liamba. Foi nas
ladeiras da Vila Madalena, quando vinha correndo da USP até em casa.
Então, agora, serei obrigado a chutar. Vou considerar que a maconha
tem a mesma densidade do fumo de corda: 90 gramas dá seis baseados.
Agora, em termos de pureza e potência, tenho certeza que o baseado
do meu pai derrubava muito mais…
Tudo
isso pra dizer que água morro abaixo e fogo morro acima não tem
quem cerca. Vejo nego fumando por todo lado. É como o samba, o
homossexualismo, o voto. As antas reprimem até a desmoralização.
Mas, enquanto isso, deixam as cadeias saindo pelo ladrão, nos dois
sentidos.
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