terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

CONCEDE-ME UM BEIJO DE LÍNGUA?

Vou beijar-te agora/ não me leve a mal/ hoje é carnaval”
(in Máscara Negra, Zé Keti e Pereira Matos, carnaval de 51 anos atrás).

Por favor, senhorita, concede-me um beijo de língua?
A moça olhou pra mim e, antes que se assustasse, exibi o meu melhor sorriso. E, através do olhar, emiti uma humilde súplica. Sorriso daqueles de abrir a boca. Não exatamente a boca, mas os lábios. Os dentes, à mostra, imperceptivelmente abertos. O sorriso era realmente encantador e o objetivo era exibir o bom estado dos dentes e a ausência de aftas nos lábios, para compensar o incontornável semblante sexagenário.
E, sim, era um sorriso contido, para demonstrar autocontrole. Uma das virtudes mais apreciadas nos homens, pelas mulheres, é o autocontrole. Tem lógica. Em geral, um homem é muito mais forte que uma mulher. Entre quatro paredes, um homem descontrolado é muito indesejado por uma mulher (é por isso que os machões não dão ibope). Porém, uma coisa é ser violento e outra, bem diferente, é ter iniciativa. E um homem precisa ter iniciativa.
Uma vida inteira vivida e continuo confuso a respeito da passividade das mulheres. Desconfio que elas gostam de ser passivas. Tenho a impressão de que aquelas que não o são, estão forçando a barra. Claro que estou me referindo aos beijos de língua no asfalto… Outra coisa: as mulheres gostam de homens gentis (no tempo do Zé Keti se dizia “cavalheiros”). E, segundo fontes fidedignas, as mulheres gostam de homens mais velhos. Ora, e não é que eu estava bem encaminhado!?
Porque eu estava sendo atrevido (iniciativa), eu estava sendo gentil e eu era, apesar do samba, um homem velho (velho, mas funcional, eis que me preparo para correr uma maratona em abril. E as mulheres, muito mais perspicazes que os homens, sabem avaliar e valorizar as condições objetivas…).
Porém, toda minha ousadia e eficácia derivavam do pedaço de mulher em minha frente. A moça era jovem de corpo e alma e exibia um sorriso lindo. Ou seja, bonitos e saudáveis lábios e brancos e limpos dentes. Tudo que a terra há de comer, se a senhorita fizer cu doce e frustrar esta minha tão elevada intenção…
Sendo que, enquanto trocávamos esse gentil diálogo, nos lambíamos com os olhos e nos embriagávamos com os respectivos perfumes. A moça estava acompanhada de uma outra, sua amiga, que ficava assim, de lado, discreta, olhar furtivo, ora pro chão, ora pra mim, ora pra amiga, exibindo um sorriso cúmplice.
Falava e olhava e cheirava, enquanto minha comportada mão tocava as costas dela de modo contido e delicado e pouco insistente. Eu atacava com artimanhas de craque e ela defendia, com desejos de perder o jogo. E os contatos corporais foram se amiudando e eu entendi que, afinal, eu estava de frente pro gol com a bola dominada. E dentro da pequena área, desde o começo.

O que tenho a declarar é que a ficção é uma desgraça. Tudo por conta de que, agora, tenho carnaval aqui ao lado de casa. E, é claro que vou lá ver e observar e me inspirar. Quanto a balançar a carcaça, não. Primeiro, pra não passar vexame. Segundo, que não preciso, eis que joguei futebol de manhã.

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