“Vou
beijar-te agora/ não me leve a mal/ hoje é carnaval”
(in
Máscara Negra, Zé Keti e Pereira Matos, carnaval de 51 anos atrás).
— Por
favor, senhorita, concede-me um beijo de língua?
A
moça olhou pra mim e, antes que se assustasse, exibi o meu melhor
sorriso. E, através do olhar, emiti uma humilde súplica. Sorriso
daqueles de abrir a boca. Não exatamente a boca, mas os lábios. Os
dentes, à mostra, imperceptivelmente abertos. O sorriso era
realmente encantador e o objetivo era exibir o bom estado dos dentes
e a ausência de aftas nos lábios, para compensar o incontornável
semblante sexagenário.
E,
sim, era um sorriso contido, para demonstrar autocontrole. Uma das
virtudes mais apreciadas nos homens, pelas mulheres, é o
autocontrole. Tem lógica. Em geral, um homem é muito mais forte que
uma mulher. Entre quatro paredes, um homem descontrolado é muito
indesejado por uma mulher (é por isso que os machões não dão
ibope). Porém, uma coisa é ser violento e outra, bem diferente, é
ter iniciativa. E um homem precisa ter iniciativa.
Uma
vida inteira vivida e continuo confuso a respeito da passividade das
mulheres. Desconfio que elas gostam de ser passivas. Tenho a
impressão de que aquelas que não o são, estão forçando a barra.
Claro que estou me referindo aos beijos de língua no asfalto…
Outra coisa: as mulheres gostam de homens gentis (no tempo do Zé
Keti se dizia “cavalheiros”). E, segundo fontes fidedignas, as
mulheres gostam de homens mais velhos. Ora, e não é que eu estava
bem encaminhado!?
Porque
eu estava sendo atrevido (iniciativa), eu estava sendo gentil e eu
era, apesar do samba, um homem velho (velho, mas funcional, eis que
me preparo para correr uma maratona em abril. E as mulheres, muito
mais perspicazes que os homens, sabem avaliar e valorizar as
condições objetivas…).
Porém,
toda minha ousadia e eficácia derivavam do pedaço de mulher em
minha frente. A moça era jovem de corpo e alma e exibia um sorriso
lindo. Ou seja, bonitos e saudáveis lábios e brancos e limpos
dentes. Tudo que a terra há de comer, se a senhorita fizer cu doce e
frustrar esta minha tão elevada intenção…
Sendo
que, enquanto trocávamos esse gentil diálogo, nos lambíamos com os
olhos e nos embriagávamos com os respectivos perfumes. A moça
estava acompanhada de uma outra, sua amiga, que ficava assim, de
lado, discreta, olhar furtivo, ora pro chão, ora pra mim, ora pra
amiga, exibindo um sorriso cúmplice.
Falava
e olhava e cheirava, enquanto minha comportada mão tocava as costas
dela de modo contido e delicado e pouco insistente. Eu atacava com
artimanhas de craque e ela defendia, com desejos de perder o jogo. E
os contatos corporais foram se amiudando e eu entendi que, afinal, eu
estava de frente pro gol com a bola dominada. E dentro da pequena
área, desde o começo.
O
que tenho a declarar é que a ficção é uma desgraça. Tudo por
conta de que, agora, tenho carnaval aqui ao lado de casa. E, é claro
que vou lá ver e observar e me inspirar. Quanto a balançar a
carcaça, não. Primeiro, pra não passar vexame. Segundo, que não
preciso, eis que joguei futebol de manhã.
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