sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A SENHA DA MINHA FELICIDADE.

Fui reclamar do valor do IPTU na prefeitura. Vi que a moça da recepção, lá de dentro, me examinava ainda antes de ultrapassar a porta de entrada, não havia ninguém a atender. Cheguei, perguntei se ali atendia sobre IPTU. Ela só moveu a cabeça para baixo e, sem dizer qualquer palavra, já foi digitando no seu terminal. Quase ao mesmo tempo, uma maquininha ao lado do monitor apontou uma língua amarela, que a moça arrancou e me entregou, continuando muda. Senha número 132. De onde eu e ela estávamos via-se um espaço num nível mais baixo, disposto com muitas cadeiras e várias pessoas sentadas. Perguntei se era lá que eu devia esperar, apontando para o tal espaço e olhando para a escada de acesso do lado oposto à sua escrivaninha. Ela mais uma vez meneou a cabeça pra cima e pra baixo e o fato é que até agora estou sem saber como é a voz da moça, se tem um timbre de taquara rachada ou se parece com a da locutora do aeroporto de Congonhas.
Cheguei na sala de espera, o painel mostrava 124. Havia oito pessoas na minha frente e seis atendentes. Merreca, eu já seria chamado na segunda rodada de atendimentos. Passados uns bons minutos, o 124 permanecia lá, impassível. Até que pintou o 125 e, quase por cima, o 126. Relaxei. Nisso vi um velho descendo a escada. Chegou na sala e nem sentou. O painel escancarou o 446 e o velho continuou andando, em direção ao guichê, ignorando, por falta de tempo, a sala e as cadeiras e a juventude. Tudo bem, um a mais, um a menos… Nem havia passado trinta segundos e outro velho. E quando o painel se mexeu, foi em direção ao 447. Eu não sabia se ria ou se chorava. O certo, cara leitora, é que eu tinha motivos para isto e aquilo.
Aí foi uma saraivada de velhos descendo a escada, de tal forma que, lá pelas tantas, após vários quatrocentos, chamaram o 127. Nisso veio descendo um sujeito de traços orientais que, calculei, devia ter a minha idade e aparentava boas condições físicas. Pensei: se esse japonês passar na minha frente, eu subo essa escada pra falar de novo com a moça da senha. Mas então me acometeu uma dúvida. Para esculhambá-la ou para agradecê-la?
Foi batata! O japonês estava no time das senhas quatrocentonas e, sim, foi atendido primeiro que eu. Cêis querem saber? Esse negócio de velho furar fila, ser atendido primeiro, concordo. Velho não aguenta ficar muito tempo de pé. Se for ao relento, debaixo de sol… Velho não enxerga direito, não ouve direito, os mais novos podem lhe passar a perna… Melhor despachar o velho primeiro, antes que tenha um piripaque e atrase todo mundo. Mas, sentado numa cadeira macia?, numa sala com ar-condicionado?, com uma senha na mão? E ainda com uma TV ligada! Aí não concordo. É até uma sacanagem com o velho, que gostaria de ficar um pouco mais a matar o tempo, no meio do povo. Porque algo que velho tem bem mais que jovem é tempo.

Enfim, lá pelo meio da tarde, acabei sendo atendido. Ô felicidade!

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