Fui
reclamar do valor do IPTU na prefeitura. Vi que a moça da recepção,
lá de dentro, me examinava ainda antes de ultrapassar a porta de
entrada, não havia ninguém a atender. Cheguei, perguntei se ali
atendia sobre IPTU. Ela só moveu a cabeça para baixo e, sem dizer
qualquer palavra, já foi digitando no seu terminal. Quase ao mesmo
tempo, uma maquininha ao lado do monitor apontou uma língua amarela,
que a moça arrancou e me entregou, continuando muda. Senha número
132. De onde eu e ela estávamos via-se um espaço num nível mais
baixo, disposto com muitas cadeiras e várias pessoas sentadas.
Perguntei se era lá que eu devia esperar, apontando para o tal
espaço e olhando para a escada de acesso do lado oposto à sua
escrivaninha. Ela mais uma vez meneou a cabeça pra cima e pra baixo
e o fato é que até agora estou sem saber como é a voz da moça, se
tem um timbre de taquara rachada ou se parece com a da locutora do
aeroporto de Congonhas.
Cheguei
na sala de espera, o painel mostrava 124. Havia oito pessoas na minha
frente e seis atendentes. Merreca, eu já seria chamado na segunda
rodada de atendimentos. Passados uns bons minutos, o 124 permanecia
lá, impassível. Até que pintou o 125 e, quase por cima, o 126.
Relaxei. Nisso vi um velho descendo a escada. Chegou na sala e nem
sentou. O painel escancarou o 446 e o velho continuou andando, em
direção ao guichê, ignorando, por falta de tempo, a sala e as
cadeiras e a juventude. Tudo bem, um a mais, um a menos… Nem havia
passado trinta segundos e outro velho. E quando o painel se mexeu,
foi em direção ao 447. Eu não sabia se ria ou se chorava. O certo,
cara leitora, é que eu tinha motivos para isto e aquilo.
Aí
foi uma saraivada de velhos descendo a escada, de tal forma que, lá
pelas tantas, após vários quatrocentos, chamaram o 127. Nisso veio
descendo um sujeito de traços orientais que, calculei, devia ter a
minha idade e aparentava boas condições físicas. Pensei: se esse
japonês passar na minha frente, eu subo essa escada pra falar de
novo com a moça da senha. Mas então me acometeu uma dúvida. Para
esculhambá-la ou para agradecê-la?
Foi
batata! O japonês estava no time das senhas quatrocentonas e, sim,
foi atendido primeiro que eu. Cêis querem saber? Esse negócio de
velho furar fila, ser atendido primeiro, concordo. Velho não aguenta
ficar muito tempo de pé. Se for ao relento, debaixo de sol… Velho
não enxerga direito, não ouve direito, os mais novos podem lhe
passar a perna… Melhor despachar o velho primeiro, antes que tenha
um piripaque e atrase todo mundo. Mas, sentado numa cadeira macia?,
numa sala com ar-condicionado?, com uma senha na mão? E ainda com
uma TV ligada! Aí não concordo. É até uma sacanagem com o velho,
que gostaria de ficar um pouco mais a matar o tempo, no meio do povo.
Porque algo que velho tem bem mais que jovem é tempo.
Enfim,
lá pelo meio da tarde, acabei sendo atendido. Ô felicidade!
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