Tomava
não. Toma. Porque ele continua lá, atrás do balcão da sua
estalagem. E esse causo aconteceu agora no feriadão. Íamos eu e uma
peregrina bichareda de boa, num trecho do Caminho da Fé (Não, eu
não sou devoto da Madona Aparecida não, aquela lá do Vale do
Paraíba, ícone midiático dos católicos brasileiros. Sou devoto,
sim, da Mãe Aparecida, aquela que me pariu. Faço o tal caminho
porque gosto do povo e da paisagem). Ao chegarmos na pousada em Tocos
do Moji (MG), uma moça sem jeito atendia dois policiais. Eles faziam
perguntas que deixavam a mulher embaraçada; nada de mais, é porque
ela era sem jeito mesmo. Queriam afixar um cartaz num local visível
do estabelecimento. Acabei entrando na conversa quando o policial
mostrou o tal, segurando-o entre o polegar e o indicador. Curioso,
queria vê-lo antes que fosse fixado. Continha várias fotografias
tipo 3x4 de perigosos terroristas a explodir caixas eletrônicos
pelas cidadezinhas do interior, terrivelmente procurados pela
polícia. Informei ao policial que a última vez que havia visto um
cartaz semelhante fora na década de 70 do século passado…
Desculpa
aí, gente, “estalajadeiro”, s.m., dono de estalagem que, por sua
vez, é pousada, hospedaria. E “semancol” é um remédio. Só que
é um remédio difícil de achar, não é vendido nas farmácias nem
fabricado por qualquer laboratório.
Pra
falar a verdade, nunca vi esse remédio pra vender em lugar nenhum.
Mas sei que ele existe, porque muita gente toma. Também nunca vi
ninguém tomando semancol, mas vi muita gente manifestando os
sintomas de que o haviam tomado. Deduzo que é um remédio difícil
de ser encontrado, pela quantidade de gente que não toma semancol.
Por exemplo, cafetão com ciúmes; preto que vira branco após
enricar; mulher que vira homem após ascender à chefia; dono de
quitanda chamando o Abílio Diniz de colega; adoradores do pato;
pobres de direita… (mas propaganda do semancol existe; encontrei no
google: é remédio para gente sem noção).
Enfim,
subimos para o quarto, deixando o tal cartaz a balançar entre os
dedos do policial, doido pra ser fixado e olhado. Ao final do dia,
descemos pra jantar. Enquanto aguardávamos, chegou o estalajadeiro.
Havia ido ao banco. Notou algo estranho no visual da sua pousada, um
átimo antes de ver o cartaz propriamente dito. Viu, chegou mais
perto, cheirou. E perguntou pra moça sem jeito, que era sua esposa e
servia nosso jantar, que diabo era aquilo. Eu, muito inconveniente,
já ia respondendo pela mulher, não com uma explicação, mas com
uma sugestão. Ia sugerir que ele arrancasse e rasgasse aquela
porcaria, mas ele fez isso muito rápido, sem dar tempo para que eu
ou a mulher pronunciássemos qualquer palavra.
E
eu, muito esperto, e achando que aquele povo todo era abestado,
pensando que jamais iriam sequer aventar a hipótese de pensar num
segundo significado para aquele instrumento policial, aquela peça de
propaganda dos homens do crime, e eis que o dono da estalagem me
surpreende com uma clarividência instantânea e um pragmatismo
absoluto(e coragem). Não, no átrio da sua hospedaria não iriam
semear o pânico, como fazem na TV. Aquilo era coisa de quem não
tinha o que fazer, querendo justificar a própria existência e tirar
o sossego da pacata cidadezinha. Admirei-me do semancol tomado, da
exata noção que o homem tinha do seu mundo e do seu negócio; e de
quem podia sabotá-lo. Pense num mundo em que se espalha que quase
ninguém peca. Então, quase ninguém vai pecar mesmo. E vai
inviabilizar a existência dos partidários da bala. E da bíblia.
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