terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O ESTALAJADEIRO QUE TOMAVA SEMANCOL.

Tomava não. Toma. Porque ele continua lá, atrás do balcão da sua estalagem. E esse causo aconteceu agora no feriadão. Íamos eu e uma peregrina bichareda de boa, num trecho do Caminho da Fé (Não, eu não sou devoto da Madona Aparecida não, aquela lá do Vale do Paraíba, ícone midiático dos católicos brasileiros. Sou devoto, sim, da Mãe Aparecida, aquela que me pariu. Faço o tal caminho porque gosto do povo e da paisagem). Ao chegarmos na pousada em Tocos do Moji (MG), uma moça sem jeito atendia dois policiais. Eles faziam perguntas que deixavam a mulher embaraçada; nada de mais, é porque ela era sem jeito mesmo. Queriam afixar um cartaz num local visível do estabelecimento. Acabei entrando na conversa quando o policial mostrou o tal, segurando-o entre o polegar e o indicador. Curioso, queria vê-lo antes que fosse fixado. Continha várias fotografias tipo 3x4 de perigosos terroristas a explodir caixas eletrônicos pelas cidadezinhas do interior, terrivelmente procurados pela polícia. Informei ao policial que a última vez que havia visto um cartaz semelhante fora na década de 70 do século passado…
Desculpa aí, gente, “estalajadeiro”, s.m., dono de estalagem que, por sua vez, é pousada, hospedaria. E “semancol” é um remédio. Só que é um remédio difícil de achar, não é vendido nas farmácias nem fabricado por qualquer laboratório.
Pra falar a verdade, nunca vi esse remédio pra vender em lugar nenhum. Mas sei que ele existe, porque muita gente toma. Também nunca vi ninguém tomando semancol, mas vi muita gente manifestando os sintomas de que o haviam tomado. Deduzo que é um remédio difícil de ser encontrado, pela quantidade de gente que não toma semancol. Por exemplo, cafetão com ciúmes; preto que vira branco após enricar; mulher que vira homem após ascender à chefia; dono de quitanda chamando o Abílio Diniz de colega; adoradores do pato; pobres de direita… (mas propaganda do semancol existe; encontrei no google: é remédio para gente sem noção).
Enfim, subimos para o quarto, deixando o tal cartaz a balançar entre os dedos do policial, doido pra ser fixado e olhado. Ao final do dia, descemos pra jantar. Enquanto aguardávamos, chegou o estalajadeiro. Havia ido ao banco. Notou algo estranho no visual da sua pousada, um átimo antes de ver o cartaz propriamente dito. Viu, chegou mais perto, cheirou. E perguntou pra moça sem jeito, que era sua esposa e servia nosso jantar, que diabo era aquilo. Eu, muito inconveniente, já ia respondendo pela mulher, não com uma explicação, mas com uma sugestão. Ia sugerir que ele arrancasse e rasgasse aquela porcaria, mas ele fez isso muito rápido, sem dar tempo para que eu ou a mulher pronunciássemos qualquer palavra.

E eu, muito esperto, e achando que aquele povo todo era abestado, pensando que jamais iriam sequer aventar a hipótese de pensar num segundo significado para aquele instrumento policial, aquela peça de propaganda dos homens do crime, e eis que o dono da estalagem me surpreende com uma clarividência instantânea e um pragmatismo absoluto(e coragem). Não, no átrio da sua hospedaria não iriam semear o pânico, como fazem na TV. Aquilo era coisa de quem não tinha o que fazer, querendo justificar a própria existência e tirar o sossego da pacata cidadezinha. Admirei-me do semancol tomado, da exata noção que o homem tinha do seu mundo e do seu negócio; e de quem podia sabotá-lo. Pense num mundo em que se espalha que quase ninguém peca. Então, quase ninguém vai pecar mesmo. E vai inviabilizar a existência dos partidários da bala. E da bíblia. 

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