Pronto!
agora tô começando a pegar bronca da voz da moça do Futurama.
Coitada, como sou arreliento, ô tristeza! Mas, também, ela exagera.
É um produto depois do outro, cada um melhor que o outro, todos são
muito bons, fazem bem pra saúde, são deliciosos, bons, todos, pra
mim e pra toda minha família, ela me aconselha a comprar, ela
insiste que eu compre, a casa fica limpa e, como se não bastasse,
cheirosa, a família fica saudável e, ótimo, feliz, ela carrega nas
vogais, em tom melífluo-viperino-suave-protetor, forçando um
entusiasmo impossível, uma voz impossivelmente alegre, parece fogos
de artifício numa noite estrelada, ela deve ser branca-transparente,
cabelos soltos pendentes ao vento, servindo o filhinho e a filhinha e
o marido no café-da-manhã, melhor seria breakfast, deve ser
parecida com a moça da margarina, coitada, voz boa, serve pra ganhar
uns trocados no serviço de som do supermercado, servindo margarina
com pão pulman para os filhos e o marido, muita preguiça! muita
pobreza! nenhuma fibra! Cuidado, menina, isso não é nada bom não
pra saúde da sua família, uma moça tão nova — deve ser — e
tão convencional, quer dizer, atrasada, isso! ela é machista, senão
vejamos, se dirige à dona-de-casa, delicada, voz delicada, voz doce,
excessivamente doce, melada, enjoada, mansa, carregada nas
tonalidades neutras, voz bege, querendo convencer a dona-de-casa, as
donas-de-casas que estão zanzando pelos corredores, perscrutando as
prateleiras, empurrando seus carrinhos com moleques enormes e
manhosos dentro, sentados na cadeirinha do carrinho, deixa-me ver
quantas donas-de-casa há aqui na loja neste momento, poucas, no
mínimo estamos empatados, eu, diligente dono-de-casa e ela, nada,
nenhumazinha palavra a mim e aos meus similares, ou é machista ou
considera que só as mulheres são susceptíveis dessa manjada forma
de convencimento, sim, maquiavélica, com essa voz aveludada cheia de
ondas e ênfases a enaltecer pacotes cujas embalagens são mais caras
que o conteúdo, e eu fico pensando que é uma praga que se alastra,
essa das vozes que vendem e por que será que nunca sinto
sensualidade nessas vozes charmosas demais, excessivamente charmosas,
comedidamente manhosas, que nos empanturram nos supermercados de
ofertas imperdíveis que nunca levo a sério e perco todas? Por que
será que nunca obedeço às suas urgentes demandas e sugestões? por
que será que todo mundo quer vender no grito? por que será que todo
mundo morre pela boca ou pelo nariz ou pelos olhos ou pelos ouvidos?
por que será que não aprendemos a domesticar nossos sentidos? e me
conformo que, enquanto cuidarem de manter nossos sentidos broncos,
seremos bombardeados por imagens, cheiros, sabores e sons e teletelas
e enquanto nossa paciência e nossa juventude permitir que nos
coloquemos na via pública a consumir e babar.
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