sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A VOZ DA MOÇA DO FUTURAMA.

Pronto! agora tô começando a pegar bronca da voz da moça do Futurama. Coitada, como sou arreliento, ô tristeza! Mas, também, ela exagera. É um produto depois do outro, cada um melhor que o outro, todos são muito bons, fazem bem pra saúde, são deliciosos, bons, todos, pra mim e pra toda minha família, ela me aconselha a comprar, ela insiste que eu compre, a casa fica limpa e, como se não bastasse, cheirosa, a família fica saudável e, ótimo, feliz, ela carrega nas vogais, em tom melífluo-viperino-suave-protetor, forçando um entusiasmo impossível, uma voz impossivelmente alegre, parece fogos de artifício numa noite estrelada, ela deve ser branca-transparente, cabelos soltos pendentes ao vento, servindo o filhinho e a filhinha e o marido no café-da-manhã, melhor seria breakfast, deve ser parecida com a moça da margarina, coitada, voz boa, serve pra ganhar uns trocados no serviço de som do supermercado, servindo margarina com pão pulman para os filhos e o marido, muita preguiça! muita pobreza! nenhuma fibra! Cuidado, menina, isso não é nada bom não pra saúde da sua família, uma moça tão nova — deve ser — e tão convencional, quer dizer, atrasada, isso! ela é machista, senão vejamos, se dirige à dona-de-casa, delicada, voz delicada, voz doce, excessivamente doce, melada, enjoada, mansa, carregada nas tonalidades neutras, voz bege, querendo convencer a dona-de-casa, as donas-de-casas que estão zanzando pelos corredores, perscrutando as prateleiras, empurrando seus carrinhos com moleques enormes e manhosos dentro, sentados na cadeirinha do carrinho, deixa-me ver quantas donas-de-casa há aqui na loja neste momento, poucas, no mínimo estamos empatados, eu, diligente dono-de-casa e ela, nada, nenhumazinha palavra a mim e aos meus similares, ou é machista ou considera que só as mulheres são susceptíveis dessa manjada forma de convencimento, sim, maquiavélica, com essa voz aveludada cheia de ondas e ênfases a enaltecer pacotes cujas embalagens são mais caras que o conteúdo, e eu fico pensando que é uma praga que se alastra, essa das vozes que vendem e por que será que nunca sinto sensualidade nessas vozes charmosas demais, excessivamente charmosas, comedidamente manhosas, que nos empanturram nos supermercados de ofertas imperdíveis que nunca levo a sério e perco todas? Por que será que nunca obedeço às suas urgentes demandas e sugestões? por que será que todo mundo quer vender no grito? por que será que todo mundo morre pela boca ou pelo nariz ou pelos olhos ou pelos ouvidos? por que será que não aprendemos a domesticar nossos sentidos? e me conformo que, enquanto cuidarem de manter nossos sentidos broncos, seremos bombardeados por imagens, cheiros, sabores e sons e teletelas e enquanto nossa paciência e nossa juventude permitir que nos coloquemos na via pública a consumir e babar.



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