VIZINHO
Seja Joaquim
o meu vizinho, um senhor idoso, 86 anos. Roncolho, coluna torta, diz que teve
nove mulheres e nenhum filho. Vive com uma secretária, que lhe faz a comida,
lava a roupa e o acompanha ao médico e à vida. Tem o corpo torto e imprestável
mas a cabeça boa. Bem-humorado. Ganha mais do que precisa, nasceu no interior.
Me diz que estou acabado, quando me encontra no térreo, a área comum do prédio.
Me convida
para entrar em seu apartamento, me mostra uma porta com defeito, me pergunta o
que acho, se precisa trocar. Não gosta de nada errado, estragado, por ele,
troca. Gosta de tudo funcionando perfeitamente, me serve um café. A secretária
me serve um café... Está morrendo, não tem filhos, mas zela da casa em seus
detalhes, cuida do futuro da casa, preocupa-se com a qualidade dos materiais.
Gosta do bom e do melhor.
Faz questão
de se igualar a mim, me pergunta o que estou fazendo, se ainda estou correndo
no parque. E, a essa pergunta, sempre adiciona que parou com a academia por
causa da coluna, usa um aparelho estruturador, reclama. Diz que vai se submeter
a uma cirurgia, não vê a hora, sugiro-lhe uma funilaria. Me mostra o retrato de
quando era moço sobre a estante sem nenhum livro, digo-lhe que parece um galã
de roliúde.
Me pergunta
sobre o condomínio, o que acho do preço. Digo que está caro, ele diz que está
bom, é puxa-saco do síndico. Digo-lhe que o síndico é cheio de nove-horas,
gosta de inventar moda, ele dá de ombros. Tenho certeza que não vai me dedurar.
Diz que tem apartamento pequeno com seis moradores, isso é que mata, aumenta as
despesas de água e luz. Ele tem apartamento grande e mora só, a secretária não
conta...
Como bons
mineiros, nossa conversa é densa de estocadas e recuos, e recheada de floreios
de humor e espírito. Não deixamos vazio nem quina em nossa obra coloquial. E
sabemos onde lixar e onde deixar áspero. E não pintamos, gostamos de tudo cru
natural. Não gostamos de verniz nem de objetos almofadados. Vamos,
reciprocamente e de modo lento e discreto, desvendando os mistérios. De quê
teria vivido aquele homem, meu Deus?
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