quinta-feira, 6 de agosto de 2015

VIZINHO.

VIZINHO

Seja Joaquim o meu vizinho, um senhor idoso, 86 anos. Roncolho, coluna torta, diz que teve nove mulheres e nenhum filho. Vive com uma secretária, que lhe faz a comida, lava a roupa e o acompanha ao médico e à vida. Tem o corpo torto e imprestável mas a cabeça boa. Bem-humorado. Ganha mais do que precisa, nasceu no interior. Me diz que estou acabado, quando me encontra no térreo, a área comum do prédio.

Me convida para entrar em seu apartamento, me mostra uma porta com defeito, me pergunta o que acho, se precisa trocar. Não gosta de nada errado, estragado, por ele, troca. Gosta de tudo funcionando perfeitamente, me serve um café. A secretária me serve um café... Está morrendo, não tem filhos, mas zela da casa em seus detalhes, cuida do futuro da casa, preocupa-se com a qualidade dos materiais. Gosta do bom e do melhor.

Faz questão de se igualar a mim, me pergunta o que estou fazendo, se ainda estou correndo no parque. E, a essa pergunta, sempre adiciona que parou com a academia por causa da coluna, usa um aparelho estruturador, reclama. Diz que vai se submeter a uma cirurgia, não vê a hora, sugiro-lhe uma funilaria. Me mostra o retrato de quando era moço sobre a estante sem nenhum livro, digo-lhe que parece um galã de roliúde.

Me pergunta sobre o condomínio, o que acho do preço. Digo que está caro, ele diz que está bom, é puxa-saco do síndico. Digo-lhe que o síndico é cheio de nove-horas, gosta de inventar moda, ele dá de ombros. Tenho certeza que não vai me dedurar. Diz que tem apartamento pequeno com seis moradores, isso é que mata, aumenta as despesas de água e luz. Ele tem apartamento grande e mora só, a secretária não conta...


Como bons mineiros, nossa conversa é densa de estocadas e recuos, e recheada de floreios de humor e espírito. Não deixamos vazio nem quina em nossa obra coloquial. E sabemos onde lixar e onde deixar áspero. E não pintamos, gostamos de tudo cru natural. Não gostamos de verniz nem de objetos almofadados. Vamos, reciprocamente e de modo lento e discreto, desvendando os mistérios. De quê teria vivido aquele homem, meu Deus?

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