sábado, 15 de agosto de 2015

Crônica de Bicicleta nº Um.

CRÔNICA DE BICICLETA Nº UM.

Pego a ciclovia da Avenida Liberdade em direção ao centro velho. Passo ao lado da praça onde há uma feirinha com temas orientais. Na Praça da Sé ouço um som mavioso que escapa pela porta lateral da catedral. No largo em frente à igreja o mundo se enche de sons retalhados de pregações diversas. Fora isso, o centro velho está morto no sábado pós-almoço. Mas na Praça Ramos, em frente ao antigo Mappin, um senhor com uma parafernália eletrônica e um violão canta músicas norte-americanas dos anos oitenta.

A Ipiranga com a São João já não é mais aqui. Vou passar lá no final da viagem, aguardem. Praça da República. Arouche. Avenida São João, sob o elevado. Ciclovia nova. Nada. Nenhuma cidade. Parque Fernando Costa. Muita música ao vivo, em pequenas rodas. Uma roda de violeiros, música caipira. Pavões e guarnizés. Atravesso empurrando, não pode andar de bicicleta no parque. Não fale bike perto de mim. Não despreze uma das mais bonitas palavras da nossa língua.

Avenida Sumaré. Estádio do Palmeiras. Paro na banca. Leio na revista que Lula ganhou R$27 milhões. De 2011 a 2014, 48 meses. Ladrão? Nem tanto. Faço a conta, dá R$560 mil por mês. Cerca de ¼ do salário do Neymar. Sendo que Lula é muito mais craque do que Neymar, em suas respectivas searas. Bem menos do que ganha o ex-presidente Clinton, mas mais do que ganha FHC. FHC é perna-de-pau... É imoral? É imoral. Mas também é imoral um gerentinho de banco ganhar dez vezes mais que um funcionário comum. O capitalismo é imoral. Sigo. Subidona. Amoras e pitangas. É tempo de amoras. Logo mais teremos pitangas também.

Avenida Paulista. Avenida Ipiranga com a São João: Augusta. Em frente ao Banco do Brasil, um homem, um violão e uma caixa-de-som cantam desafinado. Do João Gilberto. No canteiro central eu paro pra ouvir. Do outro lado, em frente ao Banco Safra, há uma epidemia de artistas e artesãos. E alguém faz estripulias numa guitarra. Ao vivo. Sob a marquise do Conjunto Nacional, um casal dança. Bicicletas esvoaçam por toda parte, muitas bicicletas agarradas a postes, portões e grades.

No vão livre do MASP muitas bandeiras verde-amarelas. Vejo de longe. Mas não é amanhã? São muitas bandeiras, deve ter muita gente. Aproximo. Sete manifestantes e quinze bandeiras. Bandeiras enormes. Bandeiras da pátria. Seguram quatro cartazes, três em inglês e um em português. “Não queremos o comunismo no Brasil”. De fato, porque como será pra viajar de avião quando o comunismo for implantado no Brasil? se já está um inferno com um arremedo de governo popular?

Embaixo da FIESP há uma mini-banda de metais. Sendo dois bombardões, dois pistons, um trombone, uma bateria. Os músicos tocam dançando. Há outros metais que não identifiquei, uns dez, jovens garotas e garotos. Pouco adiante, do outro lado, em frente à mansão dos matarazzos, mais músicos tocando ao vivo. A mais cosmopolita das avenidas da cidade é uma festa, neste sábado à tarde. O que será dela quando a prefeitura fechá-la aos domingos para os automóveis?

Enquanto isso, na periferia, a guerra local come solta, sem nenhum charme.

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