CRÔNICA DE
BICICLETA Nº UM.
Pego a
ciclovia da Avenida Liberdade em direção ao centro velho. Passo ao lado da praça
onde há uma feirinha com temas orientais. Na Praça da Sé ouço um som mavioso
que escapa pela porta lateral da catedral. No largo em frente à igreja o mundo
se enche de sons retalhados de pregações diversas. Fora isso, o centro velho
está morto no sábado pós-almoço. Mas na Praça Ramos, em frente ao antigo
Mappin, um senhor com uma parafernália eletrônica e um violão canta músicas
norte-americanas dos anos oitenta.
A Ipiranga
com a São João já não é mais aqui. Vou passar lá no final da viagem, aguardem.
Praça da República. Arouche. Avenida São João, sob o elevado. Ciclovia nova. Nada.
Nenhuma cidade. Parque Fernando Costa. Muita música ao vivo, em pequenas rodas.
Uma roda de violeiros, música caipira. Pavões e guarnizés. Atravesso
empurrando, não pode andar de bicicleta no parque. Não fale bike perto de mim.
Não despreze uma das mais bonitas palavras da nossa língua.
Avenida
Sumaré. Estádio do Palmeiras. Paro na banca. Leio na revista que Lula ganhou
R$27 milhões. De 2011 a 2014, 48 meses. Ladrão? Nem tanto. Faço a conta, dá
R$560 mil por mês. Cerca de ¼ do salário do Neymar. Sendo que Lula é muito mais
craque do que Neymar, em suas respectivas searas. Bem menos do que ganha o
ex-presidente Clinton, mas mais do que ganha FHC. FHC é perna-de-pau... É
imoral? É imoral. Mas também é imoral um gerentinho de banco ganhar dez vezes
mais que um funcionário comum. O capitalismo é imoral. Sigo. Subidona. Amoras e
pitangas. É tempo de amoras. Logo mais teremos pitangas também.
Avenida
Paulista. Avenida Ipiranga com a São João: Augusta. Em frente ao Banco do
Brasil, um homem, um violão e uma caixa-de-som cantam desafinado. Do João
Gilberto. No canteiro central eu paro pra ouvir. Do outro lado, em frente ao
Banco Safra, há uma epidemia de artistas e artesãos. E alguém faz estripulias
numa guitarra. Ao vivo. Sob a marquise do Conjunto Nacional, um casal dança.
Bicicletas esvoaçam por toda parte, muitas bicicletas agarradas a postes,
portões e grades.
No vão livre
do MASP muitas bandeiras verde-amarelas. Vejo de longe. Mas não é amanhã? São
muitas bandeiras, deve ter muita gente. Aproximo. Sete manifestantes e quinze
bandeiras. Bandeiras enormes. Bandeiras da pátria. Seguram quatro cartazes,
três em inglês e um em português. “Não queremos o comunismo no Brasil”. De
fato, porque como será pra viajar de avião quando o comunismo for implantado no
Brasil? se já está um inferno com um arremedo de governo popular?
Enquanto isso, na periferia, a guerra local come solta, sem nenhum charme.
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