sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Da minha janela, brinquedos.

PARQUE DE DIVERSÕES.

Tomei café e saí na janela para ver o mundo. Céu luminoso e mais ou menos limpo, por causa da chuva de ontem, friozinho gostoso, eu estava predisposto querendo ser feliz. De repente vi que o mundo havia se transformado num parque de diversões. Carrinhos pra todo lado, pra lá e pra cá, nas paralelas e transversais e no entremeio. Dentro de cada um, um homem brincando, feliz com seus badulaques.

Explico. Em frente ao meu prédio há um grande terreno vazio, que atravessa o quarteirão, resultado de múltiplas demolições de casarões antigos da Bela Vista. (Há placas anunciando que serão erguidas algumas torres nele). Minha janela fica a uns 15 metros de altura, de modo que vejo a minha rua e a rua de trás e também a transversal da esquerda. E é aí que vejo os carrinhos de brinquedo que vão e que vêm e que sobem e que descem. E adivinho o abrir e fechar dos faróis vendo os três trechos se entupirem e se esvaziarem com os brinquedos. E vejo centenas de brinquedos entupindo estáticos o terreno vazio em frente. E vejo também o posto de gasolina na esquina à esquerda e sinto o cheiro da oficina mecânica embaixo e ouço os esguichos do lava-rápido ao fundo e me divirto com a estridência do apito do marronzinho porque o farol embandeirou.

E ninguém buzina. Estão brincando, não carece de ter pressa. A buzina está fora de moda. Pior: a buzina denuncia amadorismo, ou seja, impaciência. E só os inexperientes são impacientes, os que vão trabalhar de ônibus todo dia e, eventualmente, tiram o brinquedo da garagem. Então sofrem, se desesperam, buzinam. Para escárnio dos experientes motoristas de todo dia, já devidamente adaptados ao parque.


Não, não é circo. É parque. Um parque pobre, porque só tem um brinquedo, mas grande. Um parque do tamanho do mundo que me envolve, que me aliena.  

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