Havia
umas 50 mesas, quase todas ocupadas. Boa parte delas com apenas uma
pessoa e outras tantas com duas. Nenhuma mulher. Na hora não pude
deixar de dizer a mim mesmo que estava lascado. Pudera! Tinha
invadido o território sagrado dos caminhoneiros. Isso, caminhonar, a
ação do caminhoneiro.
Ser
caminhoneiro foi a minha primeira frustração profissional. Eu tinha
uns 5 anos e achava o máximo manobrar aqueles monstros. Ao mesmo
tempo que desejava muito, sabia que era impossível, porque eu não
suportava o barulho do escapamento do fenemê e do mercedão de cara
chata, recém-lançados. Isso era início dos anos 1960. Não que eu
tivesse bronca, eu tinha era medo daquele barulhão.
O
caso é que era hora do almoço e eu escolhi aquele lugar pra comer.
Eu, um sujeito tão refinado, em meio àqueles homens brutos. Brutos,
no bom sentido. Refinado, no mau sentido. Certamente, eu era o menos
pançudo deles. E o mais sujo e o mais suado e o mais fedido do
salão. E a minha barba não era de 3 dias, era de 3 anos e pouco
cultivo. E, afinal, eu não estava de bermuda nem de chinelo de dedo
nem com a camisa aberta no peito. De resto, a fome e a vontade de
comer eram as mesmas.
Mas
eu não caí de gaiato lá não. Antes de parar, de entrar, eu sabia
o clima e o microclima que ia encontrar. Porque era uma churrascaria
e, como se não bastasse, se chamava O Gaúcho. Como se gaúcho e
churrascaria não fossem sinônimos, na beira da estrada. A placa
dizia que a gente podia comer à vontade no fogão a lenha por 12
reais. Todo cidadão minimamente viajado sabe que fogão a lenha é a
senha para frituras e feijão gordo e banha de porco, porque a lenha
e o respectivo fogão só servem para enfeitar. Tudo é feito lá no
fundo, em fogões a gás. E em termos de alimentação, caminhoneiro
gosta de carne, sabor e sustança. E preço baixo. E nenhum limite na
quantidade.
E
havia outro detalhe fundamental para espantar os turistas e atrair os
caminhoneiros: o acesso de 150 metros não era pavimentado. O turista
convencional não gosta de colocar seu carrão pra rodar nem 10
metros fora do asfalto. E caminhoneiro não gosta de turista. E
vice-versa. Vai ver se caminhoneiro para nesses graaaals e frangos
torrados da vida. Prefere passar fome, mas não para. Ciclista sujo
para, porque não tem vergonha na cara.
O
fato é que, antes de estacionar a Bici ao lado de uma jamanta de 34
pneus, eu vi bem as outras tantas jamantas estacionadas, de modo que,
ao empurrar a porta vai e vem e adentrar ao salão, eu já estava com
os coldres desabotoados. Mas encontrei paz e acolhimento. E este
ciclista almoçou bem e sossegado em Presidente Venceslau, bêra da
Raposo Tavares, essa terra que gosta de homenagear os presidentes da
república velha: Prudente, Bernardes, Venceslau, Epitácio. Porque,
se tem alguém que caminhoneiro respeita é ciclista. No meu caso,
isso é fato. Acho que eles entendem que, como eles, a alma que vai
sobre uma bicicleta é de uma pessoa destemida. Que, da mesma forma
que é preciso vigor e valentia para conduzir um bólido com 20
toneladas por mais de 500 quilômetros, igualmente, é preciso
coração e coragem para viajar sobre 15 quilos de alumínio, ferro e
borracha e nenhum para-choque. (Crônicas de Guardanapo).
Nenhum comentário:
Postar um comentário