quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CAMINHONAR, COMER, CAMINHONAR.

Havia umas 50 mesas, quase todas ocupadas. Boa parte delas com apenas uma pessoa e outras tantas com duas. Nenhuma mulher. Na hora não pude deixar de dizer a mim mesmo que estava lascado. Pudera! Tinha invadido o território sagrado dos caminhoneiros. Isso, caminhonar, a ação do caminhoneiro.
Ser caminhoneiro foi a minha primeira frustração profissional. Eu tinha uns 5 anos e achava o máximo manobrar aqueles monstros. Ao mesmo tempo que desejava muito, sabia que era impossível, porque eu não suportava o barulho do escapamento do fenemê e do mercedão de cara chata, recém-lançados. Isso era início dos anos 1960. Não que eu tivesse bronca, eu tinha era medo daquele barulhão.
O caso é que era hora do almoço e eu escolhi aquele lugar pra comer. Eu, um sujeito tão refinado, em meio àqueles homens brutos. Brutos, no bom sentido. Refinado, no mau sentido. Certamente, eu era o menos pançudo deles. E o mais sujo e o mais suado e o mais fedido do salão. E a minha barba não era de 3 dias, era de 3 anos e pouco cultivo. E, afinal, eu não estava de bermuda nem de chinelo de dedo nem com a camisa aberta no peito. De resto, a fome e a vontade de comer eram as mesmas.
Mas eu não caí de gaiato lá não. Antes de parar, de entrar, eu sabia o clima e o microclima que ia encontrar. Porque era uma churrascaria e, como se não bastasse, se chamava O Gaúcho. Como se gaúcho e churrascaria não fossem sinônimos, na beira da estrada. A placa dizia que a gente podia comer à vontade no fogão a lenha por 12 reais. Todo cidadão minimamente viajado sabe que fogão a lenha é a senha para frituras e feijão gordo e banha de porco, porque a lenha e o respectivo fogão só servem para enfeitar. Tudo é feito lá no fundo, em fogões a gás. E em termos de alimentação, caminhoneiro gosta de carne, sabor e sustança. E preço baixo. E nenhum limite na quantidade.
E havia outro detalhe fundamental para espantar os turistas e atrair os caminhoneiros: o acesso de 150 metros não era pavimentado. O turista convencional não gosta de colocar seu carrão pra rodar nem 10 metros fora do asfalto. E caminhoneiro não gosta de turista. E vice-versa. Vai ver se caminhoneiro para nesses graaaals e frangos torrados da vida. Prefere passar fome, mas não para. Ciclista sujo para, porque não tem vergonha na cara.

O fato é que, antes de estacionar a Bici ao lado de uma jamanta de 34 pneus, eu vi bem as outras tantas jamantas estacionadas, de modo que, ao empurrar a porta vai e vem e adentrar ao salão, eu já estava com os coldres desabotoados. Mas encontrei paz e acolhimento. E este ciclista almoçou bem e sossegado em Presidente Venceslau, bêra da Raposo Tavares, essa terra que gosta de homenagear os presidentes da república velha: Prudente, Bernardes, Venceslau, Epitácio. Porque, se tem alguém que caminhoneiro respeita é ciclista. No meu caso, isso é fato. Acho que eles entendem que, como eles, a alma que vai sobre uma bicicleta é de uma pessoa destemida. Que, da mesma forma que é preciso vigor e valentia para conduzir um bólido com 20 toneladas por mais de 500 quilômetros, igualmente, é preciso coração e coragem para viajar sobre 15 quilos de alumínio, ferro e borracha e nenhum para-choque. (Crônicas de Guardanapo).

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