segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

UMA CIDADE FANTASMA NO MEIO DA ESTRADA.

Como você reagiria se fosse andando por uma estradinha de terra e encontrasse uma cidade inesperada? E, como se não bastasse a surpresa de encontrar uma cidade onde só prevíamos cana e pasto, essa cidade estivesse deslocada no tempo e no espaço? E se, ao invés de uma cidade, encontrasse duas, uma perto da outra?
Pois foi o que aconteceu comigo. Só que eu não ia andando. Ia pedalando.
Eu havia dormido em Artemis, uma cidadinha envolvida pelas curvas do Rio Piracicaba, que nem município é ainda, é distrito de Piracicaba. Precisava chegar em Brotas. Mas não queria passar por Águas de São Pedro e São Pedro, muita muvuca e eu já havia passado lá a pé, em 2004. Esse trecho tem uma serra interessante a transpor. Então resolvi ir por Charqueada. Para isso eu poderia ir pelo confortável acostamento da SP-304 até a periferia de Piracicaba e depois pegar a SP-308 e chegar até Charqueada, no pé da serra.
Mas não. Preferi traçar uma linha reta entre os dois pontos, e enfrentar a malha de estradas vicinais e essa é uma das principais características da minha viagem. Ir sempre pela hipotenusa quando vejo no mapa que há interligação entre as estradinhas. Ir pelo atalho. Sendo que a palavra “malha”, aí em cima, é bem apropriada, porque são muitos nós que temos que destrinchar. Com nós quero dizer cruzamentos, bifurcações, derivadas, tangentes… e nenhuma placa informativa. Não raro temos de escolher entre três alternativas. E muitas e muitas vezes a alternativa menos óbvia é a correta.
Ia eu pela estradinha quando vi, lá na frente, uns caminhões parados ao lado duma montanha escura, esquisita e fora de hora. Cheguei a uns 100 metros de distância e ainda assim tive de perguntar a um dos caminhoneiros o que era aquele monte artificial. Era pedra. Pedra britada, dessas de fazer pavimento em estrada e concreto para construção. É que eu não estava esperando uma jazida de granito daquela magnitude ali, em meio a amenas colinas de canaviais. Vi algumas casas lá na frente e segui naquela direção. Fui chegando, era uma cidadinha não detectada em minhas pesquisas no google maps. Havia uma igreja grande, uma padaria que não servia pão com manteiga nem café com leite e vários pontos de ônibus, onde muitos idosos e idosas esperavam, chiachierando. Havia um enorme garrafão de vinho feito com garrafas pet, fazendo a propaganda da festa do vinho. Se chamava Santana. Ou Sant’Ana ou Santa Ana. E as velhas e velhos se pareciam todos com meus pais e tios e avós.
Andei mais um pouco, havia asfalto nas ruas, aquilo era uma cidade. Uma cidade não prevista, inesperada. Aqueles velhos de características familiares, comecei a achar estranho. As casas deram uma trégua, andei mais uns dois quilômetros e elas voltaram. Outra igreja. Grande, quase suntuosa, vendo de fora. Ladeiras, ruas íngremes, tortuosas. Tudo muito bem arrumado no espaço público, fachadas bem conservadas e um toque de lugar antigo nas construções. Algumas lojinhas bem transadas, dessas de vender besteira cara pra turista endinheirado, comuns nos pequenos burgos aos pés dos...Alpes italianos! Essa outra cidadinha se chamava Santa Olímpia. Sim, era isso! Aquilo parecia um pedaço da Itália, tive a impressão. Mas meu estranhamento parou por aí, não conversei com ninguém, estava com pressa de chegar em Charqueada e comer, já que a padaria do lugar não servia pra nada.

Tudo bem, segui viagem, levando comigo aquele estranhamento daquelas duas cidadinhas agarradas às poucas pirambeiras da região majoritariamente ondulada. Muitos dias depois, tive a ideia de pesquisar “Santana, Piracicaba” e “Santa Olímpia, Piracicaba”. E descobri que se trata de uma colônia de italianos que se juntaram e compraram uma fazenda ali ainda no século XIX. E é incrível como conseguiram reproduzir e manter as características da terra natal. Nem é preciso dizer que se trata de um ponto turístico de Piracicaba e não tem importância nenhuma que eu ignorasse tal fato histórico e tal localidade. 

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