Como
você reagiria se fosse andando por uma estradinha de terra e
encontrasse uma cidade inesperada? E, como se não bastasse a
surpresa de encontrar uma cidade onde só prevíamos cana e pasto,
essa cidade estivesse deslocada no tempo e no espaço? E se, ao invés
de uma cidade, encontrasse duas, uma perto da outra?
Pois
foi o que aconteceu comigo. Só que eu não ia andando. Ia pedalando.
Eu
havia dormido em Artemis, uma cidadinha envolvida pelas curvas do Rio
Piracicaba, que nem município é ainda, é distrito de Piracicaba.
Precisava chegar em Brotas. Mas não queria passar por Águas de São
Pedro e São Pedro, muita muvuca e eu já havia passado lá a pé, em
2004. Esse trecho tem uma serra interessante a transpor. Então
resolvi ir por Charqueada. Para isso eu poderia ir pelo confortável
acostamento da SP-304 até a periferia de Piracicaba e depois pegar a
SP-308 e chegar até Charqueada, no pé da serra.
Mas
não. Preferi traçar uma linha reta entre os dois pontos, e
enfrentar a malha de estradas vicinais e essa é uma das principais
características da minha viagem. Ir sempre pela hipotenusa quando
vejo no mapa que há interligação entre as estradinhas. Ir pelo
atalho. Sendo que a palavra “malha”, aí em cima, é bem
apropriada, porque são muitos nós que temos que destrinchar. Com
nós quero dizer cruzamentos, bifurcações, derivadas, tangentes…
e nenhuma placa informativa. Não raro temos de escolher entre três
alternativas. E muitas e muitas vezes a alternativa menos óbvia é a
correta.
Ia
eu pela estradinha quando vi, lá na frente, uns caminhões parados
ao lado duma montanha escura, esquisita e fora de hora. Cheguei a uns
100 metros de distância e ainda assim tive de perguntar a um dos
caminhoneiros o que era aquele monte artificial. Era pedra. Pedra
britada, dessas de fazer pavimento em estrada e concreto para
construção. É que eu não estava esperando uma jazida de granito
daquela magnitude ali, em meio a amenas colinas de canaviais. Vi
algumas casas lá na frente e segui naquela direção. Fui chegando,
era uma cidadinha não detectada em minhas pesquisas no google maps.
Havia uma igreja grande, uma padaria que não servia pão com
manteiga nem café com leite e vários pontos de ônibus, onde muitos
idosos e idosas esperavam, chiachierando. Havia um enorme garrafão
de vinho feito com garrafas pet, fazendo a propaganda da festa do
vinho. Se chamava Santana. Ou Sant’Ana ou Santa Ana. E as velhas e
velhos se pareciam todos com meus pais e tios e avós.
Andei
mais um pouco, havia asfalto nas ruas, aquilo era uma cidade. Uma
cidade não prevista, inesperada. Aqueles velhos de características
familiares, comecei a achar estranho. As casas deram uma trégua,
andei mais uns dois quilômetros e elas voltaram. Outra igreja.
Grande, quase suntuosa, vendo de fora. Ladeiras, ruas íngremes,
tortuosas. Tudo muito bem arrumado no espaço público, fachadas bem
conservadas e um toque de lugar antigo nas construções. Algumas
lojinhas bem transadas, dessas de vender besteira cara pra turista
endinheirado, comuns nos pequenos burgos aos pés dos...Alpes
italianos! Essa outra cidadinha se chamava Santa Olímpia. Sim, era
isso! Aquilo parecia um pedaço da Itália, tive a impressão. Mas
meu estranhamento parou por aí, não conversei com ninguém, estava
com pressa de chegar em Charqueada e comer, já que a padaria do
lugar não servia pra nada.
Tudo
bem, segui viagem, levando comigo aquele estranhamento daquelas duas
cidadinhas agarradas às poucas pirambeiras da região
majoritariamente ondulada. Muitos dias depois, tive a ideia de
pesquisar “Santana, Piracicaba” e “Santa Olímpia, Piracicaba”.
E descobri que se trata de uma colônia de italianos que se juntaram
e compraram uma fazenda ali ainda no século XIX. E é incrível como
conseguiram reproduzir e manter as características da terra natal.
Nem é preciso dizer que se trata de um ponto turístico de
Piracicaba e não tem importância nenhuma que eu ignorasse tal fato
histórico e tal localidade.
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