sábado, 2 de dezembro de 2017

QUATRO NUMA MESA DE BAR.

(Crônicas de Guardanapo).
Era um barzinho simpático, onde entrei pra comer qualquer coisa e não dormir com fome, já que arroz com feijão não havia, à noite, em Nova Independência, SP. Acho que nem nas casas, nos lares, havia arroz com feijão naquela noite de sábado. Noto que muitas pessoas têm preconceito contra arroz com feijão. Uns consideram comida de pobre, outros consideram comida pobre. Tanto é verdade que “arroz com feijão” virou sinônimo de coisa banal. Coisa banal deveria ser pão com salsicha. Salgadinho em pacote com cocacoca. Pizza por telefone. Pacote de bolacha. Balde de pipoca.
Na mesa em minha frente sentaram quatro jovens. Pouco mais que adolescentes. Logo percebi que eram de pouca conversa. Duas palavras daqui, uma resposta monossilábica de lá, um sorriso amarelo da esquerda, um olhar compreensivo da direita. Até que um deles acendeu o smartphone. Presenciei todo o processo, desde a falta de assunto inicial até o primeiro celular aceso. Restaram três, mas não demorou para o segundo também acender seu aparelho. Restaram dois. Continuaram tentando, duas palavras daqui, outra de lá, e olhares de soslaio em direção às telas retangulares e brilhantes dos outros dois. E, enfim, esses dois remanescentes acenderam suas próprias telas retangulares quase ao mesmo tempo, tão logo perceberam a pobreza do assunto ao vivo.

E eu em frente, não sabia se ria ou se chorava. E comiam e bebiam e chupavam e navegavam. E, de vez em quando, grunhiam, um para o outro. E eu comia, e assuntava. Deixara meu celular no quarto alugado. Num lance mental ousado, me incorporei a um dos quatro. Acabei de comer e beber e chupar, limpei os beiços, apaguei o retângulo, olhei na direção dos rostos dos outros três sem receber nada em troca, me levantei e saí em silêncio, sem ser notado e sem fazer falta. 

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