quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

IR E VIR

QUE POSSAMOS IR E VIR SEM MUITO ESFORÇO.
Passeávamos, eu e Bici III, pelo centrão, São Luís com Consolação, da República em direção à João Mendes. Há uma ciclovia pintada na calçada, que passa em frente a entrada da biblioteca circulante da Mário de Andrade. Quer dizer, um dia pintaram uma faixa vermelha ali, mas só minha memória vê. O prefeito não vai ser besta de reavivar e conservar uma das marcas do adversário. Uma minha concorrente pedestre esperava para atravessar. Dois milhões de motores deixaram a cidade, mas restaram seis milhões. Isto quer dizer que ainda precisamos esperar o farol fechar para os carros para atravessar a rua. Quando a senhora viu que eu também queria atravessar, me alertou que o farol estava apagado. E sabemos que farol apagado significa verde eterno para os motores. Porque farol apagado significa regras em pane, ausentes. E quando as regras deixam de funcionar, os direitos são todos apropriados pelos mais fortes. Então eu fui embicando a Bici e metendo a mão espalmada na cara dos motoristas dos motores e já fui entrando e a cambada de motores foi parando e a senhora foi junto comigo e atravessamos, sob sons nada amistosos de cilindros e bielas a rosnar. Sãos e salvos na calçada oposta, ela se mostrava visivelmente agradecida a mim e me agradeceu em palavras e, inclusive, me desejou boa tarde e boas festas e feliz ano novo. Só então me dei conta do meu ato de extraordinária ousadia. Porque na cidade grande capitalista competitiva de oito milhões de motores e respectiva tonelada e outras tantas casas espalhadas ou amontoadas umas sobre as outras e arranha-céus e subsolos e asfalto e faróis e fios e almas suficientes para ocupar tudo isso, a simples necessidade de atravessar a rua carece de atrevimento.  

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