QUE
POSSAMOS IR E VIR SEM MUITO ESFORÇO.
Passeávamos,
eu e Bici III, pelo centrão, São Luís com Consolação, da
República em direção à João Mendes. Há uma ciclovia pintada na
calçada, que passa em frente a entrada da biblioteca circulante da
Mário de Andrade. Quer dizer, um dia pintaram uma faixa vermelha
ali, mas só minha memória vê. O prefeito não vai ser besta de
reavivar e conservar uma das marcas do adversário. Uma minha
concorrente pedestre esperava para atravessar. Dois milhões de
motores deixaram a cidade, mas restaram seis milhões. Isto quer
dizer que ainda precisamos esperar o farol fechar para os carros para
atravessar a rua. Quando a senhora viu que eu também queria
atravessar, me alertou que o farol estava apagado. E sabemos que
farol apagado significa verde eterno para os motores. Porque farol
apagado significa regras em pane, ausentes. E quando as regras deixam
de funcionar, os direitos são todos apropriados pelos mais fortes.
Então eu fui embicando a Bici e metendo a mão espalmada na cara dos
motoristas dos motores e já fui entrando e a cambada de motores foi
parando e a senhora foi junto comigo e atravessamos, sob sons nada
amistosos de cilindros e bielas a rosnar. Sãos e salvos na calçada
oposta, ela se mostrava visivelmente agradecida a mim e me agradeceu
em palavras e, inclusive, me desejou boa tarde e boas festas e feliz
ano novo. Só então me dei conta do meu ato de extraordinária
ousadia. Porque na cidade grande capitalista competitiva de oito
milhões de motores e respectiva tonelada e outras tantas casas
espalhadas ou amontoadas umas sobre as outras e arranha-céus e
subsolos e asfalto e faróis e fios e almas suficientes para ocupar
tudo isso, a simples necessidade de atravessar a rua carece de
atrevimento.
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