Estava
comprando abobrinhas no Extra quando o locutor me chamou pra comprar
ismartifonis. Notei na hora que o tal aportuguesou “smartphone” e
que ele nunca chamaria quem estava comprando ismartifonis pra comprar
abobrinhas. Que era um pobre coitado fazendo bico ganhando uns
trocados com a voz que Deus lhe deu e que devia ser muito mais
lucrativo vender o objeto do desejo criado do que vender o arroz com
feijão nosso de cada dia. Que a vontade deste nunca passava da
medida e a daquele era sempre desmedida. E que sua entonação
manjada me desagradava, mas eu era minoria, entre surdos e cegos.
Entrei
na Caixa pra pagar uma conta de luz e o guarda me cercava na porta,
não me deixando entrar na agência propriamente dita. Quer dizer,
isso foi o que eu logo deduzi, dado os meus quarenta anos de janela.
O pobre só estava plantado na frente da porta giratória, sem saber
que assustava a freguesia ignota. Não, a mim ele não assustava mas,
intimamente não deixei de pensar que, com guarda ou sem guarda, eu
nem queria entrar mesmo, preferia pagar minha conta pra uma máquina
a pagar pra uma pessoa que ia me oferecer seguro título de
capitalização plano de previdência cartão e o diabo e sorrir, se
eu comprasse, e fechar a cara, se eu negasse, como se eu fosse
culpado do seu salário e da sua saliva.
Ia
pela Paulista quando, lá na frente, vi um bando de jovens dinâmicos.
Pronto!, mais uma barreira de coleta de grana para salvar o clima do
planeta ou salvar as crianças do planeta. Então já fui me
preparando para a abordagem, porque ela é realmente insistente do
tipo assim poxa, você não vê como sou justa e urgente e
humanitária, como você tem coragem de negar?, seu sovina. Mas os
jovens sorridentes e serelepes me ignoraram e isso muito me
preocupou. Será que meu velho ceticismo finalmente vazou e está
estampado em minha cara? Ou será que minha cara de pastor luterano
os afugentou? e ambas as alternativas me são desanimadoras, com
tantos sibilinos na via pública.
Sexagenário
é o que sou. E atônito. O problema dos velhos é ver segundas e
outras intenções em toda obra. Inquietarem-se com sintomas e
sintagmas. Uns dizem que isso é sabedoria. Eu desconfio que é
saturação. Do bombardeio de símbolos, signos e sinais. De sonhos
que não sonhamos mais.
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