sábado, 30 de dezembro de 2017

SEXAGENÁRIOS.

Estava comprando abobrinhas no Extra quando o locutor me chamou pra comprar ismartifonis. Notei na hora que o tal aportuguesou “smartphone” e que ele nunca chamaria quem estava comprando ismartifonis pra comprar abobrinhas. Que era um pobre coitado fazendo bico ganhando uns trocados com a voz que Deus lhe deu e que devia ser muito mais lucrativo vender o objeto do desejo criado do que vender o arroz com feijão nosso de cada dia. Que a vontade deste nunca passava da medida e a daquele era sempre desmedida. E que sua entonação manjada me desagradava, mas eu era minoria, entre surdos e cegos.
Entrei na Caixa pra pagar uma conta de luz e o guarda me cercava na porta, não me deixando entrar na agência propriamente dita. Quer dizer, isso foi o que eu logo deduzi, dado os meus quarenta anos de janela. O pobre só estava plantado na frente da porta giratória, sem saber que assustava a freguesia ignota. Não, a mim ele não assustava mas, intimamente não deixei de pensar que, com guarda ou sem guarda, eu nem queria entrar mesmo, preferia pagar minha conta pra uma máquina a pagar pra uma pessoa que ia me oferecer seguro título de capitalização plano de previdência cartão e o diabo e sorrir, se eu comprasse, e fechar a cara, se eu negasse, como se eu fosse culpado do seu salário e da sua saliva.
Ia pela Paulista quando, lá na frente, vi um bando de jovens dinâmicos. Pronto!, mais uma barreira de coleta de grana para salvar o clima do planeta ou salvar as crianças do planeta. Então já fui me preparando para a abordagem, porque ela é realmente insistente do tipo assim poxa, você não vê como sou justa e urgente e humanitária, como você tem coragem de negar?, seu sovina. Mas os jovens sorridentes e serelepes me ignoraram e isso muito me preocupou. Será que meu velho ceticismo finalmente vazou e está estampado em minha cara? Ou será que minha cara de pastor luterano os afugentou? e ambas as alternativas me são desanimadoras, com tantos sibilinos na via pública.

Sexagenário é o que sou. E atônito. O problema dos velhos é ver segundas e outras intenções em toda obra. Inquietarem-se com sintomas e sintagmas. Uns dizem que isso é sabedoria. Eu desconfio que é saturação. Do bombardeio de símbolos, signos e sinais. De sonhos que não sonhamos mais. 

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