quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

CAUSO DE AMOR DO TEMPO DA ZAGAIA.

Cheguei em casa, meu cônjuge me deu um esporro verbal porque não fui ao supermercado comprar as coisas elementares que estavam faltando em casa já há dois dias. Verbal, porque meu cônjuge é do sexo feminino. Ouvi quieto e calado, não por submissão, mas por sangue frio. A expressão “sangue frio” só tem sentido num sujeito de sangue quente… Fundamental em meu autocontrole foi minha consciência do meu valor nas lides do lar. Se eu não soubesse nem fritar um ovo, talvez tivesse retrucado grosso. Mas diante da veemência dela, perguntei-lhe — não, só pensei, que minha ousadia tem limite — que se ela estava tão descontente assim com meu desempenho doméstico nas artes de cozinha e mesa, por que ela não me devolvia à minha mãe? Então foi aí que lembrei do causo de amor do tempo da zagaia.
Primeiro, causo é a mesma coisa que conto, em caipirês. E zagaia é uma arma branca de madeira com uma ponta afiada, usada para alvejar ou aparar a caça ou o agressor. A zagaia, além de antiga, era muito ineficiente, por isso ficou velha. Talvez venha daí o costume que muita gente tem de confundir antigo com velho e de achar que todo velho é ineficiente. Mas a expressão tempo da zagaia, em caipirês, quer dizer, apenas, tempo em que viveram nossos bisavós, mais ou menos.
É que, no tempo da zagaia, os homens eram machistas e as mulheres… também. Normal, porque, afinal, as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. E, assim sendo, o homem podia devolver a mulher ao pai dela, e pedir a anulação do casamento, caso constatasse que ela não estava apta a satisfazer as necessidades dele e do lar. Nos tempos atuais, os homens continuam machistas, mas algumas mulheres deixaram de ser. E essas poucas já são suficientes para me pôr em apuros e suscitar em mim pensamentos tão extravagantes quanto aquele lá do primeiro parágrafo.
Aconteceu assim: João foi devolver a Maria ao pai dela, após uns dois meses de casados. Parêntese para informar que naquele tempo o homem considerava a mulher tão inapta para as coisas mundanas, que uma mulher não podia permanecer sem um tutor masculino em nenhum momento de sua vida. Quando pequena, era tutelada por seu pai. Uma vez casada, o pai passava a tutela ao marido. Na velhice, se viúva, era tutelada pelo próprio filho mais velho. Daí porque essa cerimônia de devolução da filha ao pai era, não só importante, como necessária, e feita pessoalmente.
João chegou pro sogro e comunicou-lhe que estava devolvendo sua filha, apontando para a moça, ao lado.
O sogro se assustou por três motivos. Primeiro, porque, apesar de ser uma cerimônia prevista, era rara. Poucos homens devolviam as mulheres assim. Segundo, porque, além de saudável, tinha certeza que sua filha era pura, crescera sob severa vigilância, física e moral… E, terceiro, já passava de dois meses! Essas devoluções, raras, costumavam acontecer com uma semana de casamento, no máximo. Mas, como todo bom caipira, começou pelas bordas, ou pelas metáforas. Perguntou ao João se sua filha não sabia lavar, passar, cozinhar, bordar, tricotar, crochetar, costurar. João ficou assim meio enrolado, sem dizer nem sim nem não, ao que o sogro aproveitou para enfatizar que sua filha era excelente cozinheira e engomadeira, ensinada pela própria mãe e que, além de realizar impecáveis trabalhos de bordado, tricô e crochê, não somente costurava, como havia tirado diploma de corte e costura. Diante do silêncio e do titubeio do João, o pai da moça continuou, perguntando se era algo de natureza moral… acrescentando imediatamente que sua filha fora educada dentro dos severos preceitos de uma família de respeito, mas que, se fosse, seria estranho, pois já se passara dois meses…
Não, não tinha a ver com lavar, passar, cozinhar, costurar, bordar, nem era nada de natureza moral, ao contrário:
Sabe o que é, seu Antônio (era esse o nome do sogro). É algo mais prático. Sua filha não sabe amar.

(Embora fiel aos fatos, o causo é fictício, inclusive os acontecimentos do primeiro parágrafo — até porque sou impecável dono-de-casa).

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