Cheguei
em casa, meu cônjuge me deu um esporro verbal porque não fui ao
supermercado comprar as coisas elementares que estavam faltando em
casa já há dois dias. Verbal, porque meu cônjuge é do sexo
feminino. Ouvi quieto e calado, não por submissão, mas por sangue
frio. A expressão “sangue frio” só tem sentido num sujeito de
sangue quente… Fundamental em meu autocontrole foi minha
consciência do meu valor nas lides do lar. Se eu não soubesse nem
fritar um ovo, talvez tivesse retrucado grosso. Mas diante da
veemência dela, perguntei-lhe — não, só pensei, que minha
ousadia tem limite — que se ela estava tão descontente assim com
meu desempenho doméstico nas artes de cozinha e mesa, por que ela
não me devolvia à minha mãe? Então foi aí que lembrei do causo
de amor do tempo da zagaia.
Primeiro,
causo é a mesma coisa que conto, em caipirês. E zagaia é uma arma
branca de madeira com uma ponta afiada, usada para alvejar ou aparar
a caça ou o agressor. A zagaia, além de antiga, era muito
ineficiente, por isso ficou velha. Talvez venha daí o costume que
muita gente tem de confundir antigo com velho e de achar que todo
velho é ineficiente. Mas a expressão tempo da zagaia, em caipirês,
quer dizer, apenas, tempo em que viveram nossos bisavós, mais ou
menos.
É
que, no tempo da zagaia, os homens eram machistas e as mulheres…
também. Normal, porque, afinal, as ideias dominantes são as ideias
da classe dominante. E, assim sendo, o homem podia devolver a mulher
ao pai dela, e pedir a anulação do casamento, caso constatasse que
ela não estava apta a satisfazer as necessidades dele e do lar. Nos
tempos atuais, os homens continuam machistas, mas algumas mulheres
deixaram de ser. E essas poucas já são suficientes para me pôr em
apuros e suscitar em mim pensamentos tão extravagantes quanto aquele
lá do primeiro parágrafo.
Aconteceu
assim: João foi devolver a Maria ao pai dela, após uns dois meses
de casados. Parêntese para informar que naquele tempo o homem
considerava a mulher tão inapta para as coisas mundanas, que uma
mulher não podia permanecer sem um tutor masculino em nenhum momento
de sua vida. Quando pequena, era tutelada por seu pai. Uma vez
casada, o pai passava a tutela ao marido. Na velhice, se viúva, era
tutelada pelo próprio filho mais velho. Daí porque essa cerimônia
de devolução da filha ao pai era, não só importante, como
necessária, e feita pessoalmente.
João
chegou pro sogro e comunicou-lhe que estava devolvendo sua filha,
apontando para a moça, ao lado.
O
sogro se assustou por três motivos. Primeiro, porque, apesar de ser
uma cerimônia prevista, era rara. Poucos homens devolviam as
mulheres assim. Segundo, porque, além de saudável, tinha certeza
que sua filha era pura, crescera sob severa vigilância, física e
moral… E, terceiro, já passava de dois meses! Essas devoluções,
raras, costumavam acontecer com uma semana de casamento, no máximo.
Mas, como todo bom caipira, começou pelas bordas, ou pelas
metáforas. Perguntou ao João se sua filha não sabia lavar, passar,
cozinhar, bordar, tricotar, crochetar, costurar. João ficou assim
meio enrolado, sem dizer nem sim nem não, ao que o sogro aproveitou
para enfatizar que sua filha era excelente cozinheira e engomadeira,
ensinada pela própria mãe e que, além de realizar impecáveis
trabalhos de bordado, tricô e crochê, não somente costurava, como
havia tirado diploma de corte e costura. Diante do silêncio e do
titubeio do João, o pai da moça continuou, perguntando se era algo
de natureza moral… acrescentando imediatamente que sua filha fora
educada dentro dos severos preceitos de uma família de respeito, mas
que, se fosse, seria estranho, pois já se passara dois meses…
Não,
não tinha a ver com lavar, passar, cozinhar, costurar, bordar, nem
era nada de natureza moral, ao contrário:
— Sabe
o que é, seu Antônio (era esse o nome do sogro). É algo mais
prático. Sua filha não sabe amar.
(Embora fiel aos fatos, o
causo é fictício, inclusive os acontecimentos do primeiro parágrafo
— até porque sou impecável dono-de-casa).
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