Quem
lê tanto livro? Fui na Feira do Livro. Entrei na Saraiva. Na
Cultura. Na Martins Fontes. Na Biblioteca Florestan Fernandes. Quem
lê tanto livro? Na biblioteca, tudo bem, ficam lá guardados,
registrados para o futuro, dando lastro aos pesquisadores, tem uma
estudantada adoidada lendo tudo aquilo, lendo, copiando, anotando,
citando… Mas nas feiras, nas livrarias, nas editoras? Como se
pacotes de biscoito, à venda? Quem consegue digerir tanto biscoito,
ou melhor, tanto livro? A grande maioria, sem a menor importância
literária? Estão ali nas prateleiras, nos catálogos (físicos e
eletrônicos), nas pechinchas, se colar colou. Ao comerciante, tudo
bem, a lógica dele é montar um estoque rico e variado e colorido e
atrair os compradores e, ao final do dia, somar o faturamento e
descartar o encalhe. Mas ao autor, aquele que tem seu único
livrinho perdido no meio daquela imensidão de volumes, é
desesperador.
Vários
motivos levam alguém a publicar um livro: enriquecimento do
currículo de acadêmicos e intelectuais em geral; vaidade;
registro ou perpetuação do texto; comercial(lucro); artístico;
militância literária; instrumentos de pressão (política,
judicial, etc.); apoio a campanhas publicitárias diversas; muitos
outros… Muito pouco se salva, de tudo que é publicado. Quase tudo
volta pra picotadora. Uma pequena parte nunca vai ser lida, mas vai
ficar juntando poeira e criando ácaros nas estantes residenciais por
décadas. Destino justo, porque quase tudo que é publicado não tem
qualquer relevância.
Escrever
um texto passível de publicação não é tão difícil. Há
milhares de pessoas capazes de tal feito. Difícil é transformar
esse texto em livro. Não, com menos de 10 mil reais você se
autopublica. Contrata uma editora ou você mesmo prepara o texto em
programas de computador próprio e o encaminha a uma gráfica.
Escolhe a capa, o papel, o livro fica bonito. Recebe em casa os 500
exemplares contratados, bem embalados em pacotes de 20. Manda o
entregador depositá-los no chão, num canto morto da sala, porque
aquilo é um volume enorme, não cabe em nenhum outro lugar da casa.
Se cada livro pesar 300 gramas, a coisa toda dá 150 quilos! São 25
pacotes do tamanho dessa sua impressora aí ao lado cada pacote! Aí
você vai ver o que é bom pra tosse, o desespero de fazer cada um
desses 500 tesouros (na sua concepção) chegar às mãos de outros
tantos e condescendentes leitores. E o seu desgosto está só
começando, porque, à medida que o tempo passa e o trambolho não
diminui e seu cônjuge começa a cobrar uma solução para “aquilo”…
Um
livro não é só aquele charmoso e cheiroso voluminho de 300 gramas.
Um livro é o voluminho e sua repercussão. E, na maioria dos casos,
o livro para no voluminho. Não tem repercussão alguma. Isso explica
muito autor deprimido. Mas é bem feito. Quem mandou ele bancar a
publicação? Por que ele não foi mais paciente, perseverante,
militante, humilde? Por que ele não se submeteu aos filtros de
reconhecimento, como os concursos, os programas de incentivo, as
editoras de verdade? Quem mandou ele não se contentar com seus 10
leitores no feicibuque? Ou quem mandou ele se iludir com os
comentários desses seus 10 leitores de feicibuque?
E
quanto às editoras: há as sérias e as de araque. De araque não é
bem o termo, são empresas comerciais capacitadas a preparar seu
texto e mandá-lo a uma gráfica, mediante pagamento, e depois
enviar os 150 Kg a sua casa. E as editoras de verdade são aquelas
que recebem seu texto e ficam entusiasmadas com ele e resolvem correr
o risco de publicá-lo por conta própria. Mas para despertar esse
entusiasmo, não basta um texto genial. Porque se você, anônimo e
pacato autor, enviar seu texto genial para uma dessas editoras,
desacompanhado de qualquer indicação, ele fatalmente não será
considerado. Pelo simples fato de que não será lido. Afinal, quem
aguenta ler o original de um autor desconhecido? Até porque, salvo
raríssimas exceções, o destino final de um ótimo livro de um
autor desconhecido é a picotadora. Principalmente se os amigos e parentes do autor comprarem livros suficientes para cobrir os custos da editora e lhe darem algum lucro. Porque uma campanha de distribuição custa muito, muito mais que os 10 mil reais da edição/publicação. E é arriscada e carece de muito, muito mais entusiasmo do editor-empresário.
Mas
se você teimar em bancar seu próprio livro, em querer brincar de Deus, em tentar a imortalidade, prepare-se para receber
o castigo por tal ousadia. Para atenuar, ao menos
não cometa a besteira de deixar os 150 quilos, produto desse
desatino, adentrarem ao sossego do seu lar.
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