quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PUBLICAR UM LIVRO.

Quem lê tanto livro? Fui na Feira do Livro. Entrei na Saraiva. Na Cultura. Na Martins Fontes. Na Biblioteca Florestan Fernandes. Quem lê tanto livro? Na biblioteca, tudo bem, ficam lá guardados, registrados para o futuro, dando lastro aos pesquisadores, tem uma estudantada adoidada lendo tudo aquilo, lendo, copiando, anotando, citando… Mas nas feiras, nas livrarias, nas editoras? Como se pacotes de biscoito, à venda? Quem consegue digerir tanto biscoito, ou melhor, tanto livro? A grande maioria, sem a menor importância literária? Estão ali nas prateleiras, nos catálogos (físicos e eletrônicos), nas pechinchas, se colar colou. Ao comerciante, tudo bem, a lógica dele é montar um estoque rico e variado e colorido e atrair os compradores e, ao final do dia, somar o faturamento e descartar o encalhe. Mas ao autor, aquele que tem seu único livrinho perdido no meio daquela imensidão de volumes, é desesperador.
Vários motivos levam alguém a publicar um livro: enriquecimento do currículo de acadêmicos e intelectuais em geral; vaidade; registro ou perpetuação do texto; comercial(lucro); artístico; militância literária; instrumentos de pressão (política, judicial, etc.); apoio a campanhas publicitárias diversas; muitos outros… Muito pouco se salva, de tudo que é publicado. Quase tudo volta pra picotadora. Uma pequena parte nunca vai ser lida, mas vai ficar juntando poeira e criando ácaros nas estantes residenciais por décadas. Destino justo, porque quase tudo que é publicado não tem qualquer relevância.
Escrever um texto passível de publicação não é tão difícil. Há milhares de pessoas capazes de tal feito. Difícil é transformar esse texto em livro. Não, com menos de 10 mil reais você se autopublica. Contrata uma editora ou você mesmo prepara o texto em programas de computador próprio e o encaminha a uma gráfica. Escolhe a capa, o papel, o livro fica bonito. Recebe em casa os 500 exemplares contratados, bem embalados em pacotes de 20. Manda o entregador depositá-los no chão, num canto morto da sala, porque aquilo é um volume enorme, não cabe em nenhum outro lugar da casa. Se cada livro pesar 300 gramas, a coisa toda dá 150 quilos! São 25 pacotes do tamanho dessa sua impressora aí ao lado cada pacote! Aí você vai ver o que é bom pra tosse, o desespero de fazer cada um desses 500 tesouros (na sua concepção) chegar às mãos de outros tantos e condescendentes leitores. E o seu desgosto está só começando, porque, à medida que o tempo passa e o trambolho não diminui e seu cônjuge começa a cobrar uma solução para “aquilo”…
Um livro não é só aquele charmoso e cheiroso voluminho de 300 gramas. Um livro é o voluminho e sua repercussão. E, na maioria dos casos, o livro para no voluminho. Não tem repercussão alguma. Isso explica muito autor deprimido. Mas é bem feito. Quem mandou ele bancar a publicação? Por que ele não foi mais paciente, perseverante, militante, humilde? Por que ele não se submeteu aos filtros de reconhecimento, como os concursos, os programas de incentivo, as editoras de verdade? Quem mandou ele não se contentar com seus 10 leitores no feicibuque? Ou quem mandou ele se iludir com os comentários desses seus 10 leitores de feicibuque?
E quanto às editoras: há as sérias e as de araque. De araque não é bem o termo, são empresas comerciais capacitadas a preparar seu texto e mandá-lo a uma gráfica, mediante pagamento, e depois enviar os 150 Kg a sua casa. E as editoras de verdade são aquelas que recebem seu texto e ficam entusiasmadas com ele e resolvem correr o risco de publicá-lo por conta própria. Mas para despertar esse entusiasmo, não basta um texto genial. Porque se você, anônimo e pacato autor, enviar seu texto genial para uma dessas editoras, desacompanhado de qualquer indicação, ele fatalmente não será considerado. Pelo simples fato de que não será lido. Afinal, quem aguenta ler o original de um autor desconhecido? Até porque, salvo raríssimas exceções, o destino final de um ótimo livro de um autor desconhecido é a picotadora. Principalmente se os amigos e parentes do autor comprarem livros suficientes para cobrir os custos da editora e lhe darem algum lucro. Porque uma campanha de distribuição custa muito, muito mais que os 10 mil reais da edição/publicação. E é arriscada e carece de muito, muito mais entusiasmo do editor-empresário.

Mas se você teimar em bancar seu próprio livro, em querer brincar de Deus, em tentar a imortalidade, prepare-se para receber o castigo por tal ousadia. Para atenuar, ao menos não cometa a besteira de deixar os 150 quilos, produto desse desatino, adentrarem ao sossego do seu lar. 

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