Era
ali pelos anos 1970 e a voz do Aeroporto de Congonhas chegou a ficar
famosa. O povo ia lá, nos feriados, pra ver os aviões no chão, um
tempo em que viajar de avião era impensável. A voz de mulher soava
no saguão, como se do além, uma deusa a tornar nossos dias menos
inglórios, suave, lembrando um amarelo azulado que ia se arroxeando,
ficando sensual e o povão ali, bem-comportado, misturado aos bacanas
que tinham o direito de ir e vir de norte a sul e alhures. Quem sabe
a mulher locutora fosse uma simples assalariada, mas, soava naquele
ambiente com a elegância da elite endinheirada. E o povão, pacato,
a consumir a tarde de domingo e a treinar para entrar no mundo do
consumo que as gentes superiores já estavam experimentando. O povão
embasbacado com a voz feminina do saguão do Aeroporto de Congonhas.
Porque
esse povão enfrentava, com regularidade, a voz da rodoviária da
Duque de Caxias, ali em frente a Estação Júlio Prestes. Era uma
voz masculina, apressada, rude e confusa. Era uma voz que lembrava um
marrom mal rabiscado, de alguém que estava falando sem vontade, com
raiva, sempre no mesmo tom, como se fosse uma metralha. Naquele
labirinto de lojas rasteiras e escadas estreitas e sujas e mal
iluminadas e teto multicolorido, quem não estava apressado, se punha a correr. Todos
ficavam atônitos, a voz espalhava insegurança. Locução de
palavras mal articuladas e um equipamento de som de qualidade
sofrível, essencialmente, a voz traduzia e transmitia todo o
desprezo dos citadinos para com os que chegavam. Se não ficou
famosa, ficou conhecida, a voz da rodoviária de São Paulo dos anos
1970. Pela deselegância.
Esse
povão ouvia rádio. A TV ainda era artigo de luxo. Mas a voz do
rádio, apesar de cair do céu, não vinha do além. A voz do rádio
tinha nome e personalidade. Era diferente dessas vozes que ribombavam
num amplo ambiente público a transmitir mensagens impessoais. O
locutor de rádio, sem corpo, estabelecia familiaridade com o
ouvinte. Nas pequenas cidades, de onde afluía o povão pra São
Paulo, não havia necessidade de voz ambiente para orientar os
pequenos espaços públicos. Na megalópole, conhecemos a voz dos
ricos e a voz dos pobres: a moça de congonhas e o homem da
rodoviária. O dono da bola e da narrativa estabeleceu que rico era
fino e pobre era bronco. E vamos enroscados nessa tramoia até hoje…
Tudo
isso pra falar da voz masculina da linha amarela do metrô de São
Paulo, aquela que faz os avisos no idioma inglês. Pego aquela linha
de vez em quando. Creio que, se tivesse de ouvir aquela voz todo dia,
acabaria tendo um piripaque. De raiva. Porque ela é melosa demais,
ondulada demais. Não é possível que aquele jeito de falar seja
representativo do modo de falar dos estadunidenses ou dos ingleses.
Pelo pouco que ouço nos filmes, aquilo é uma caricatura. Então,
viajando hoje na tal linha e ouvindo aquela voz, elaborei a seguinte
teoria da conspiração: a pessoa que escolheu aquela voz – um
funcionário ou funcionária da linha amarela — odeia a civilização
anglo-saxã, a começar pela língua inglesa. Aquela voz de homem
dando os avisos em inglês é um verdadeiro boicote ao idioma do
império.
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