terça-feira, 12 de dezembro de 2017

VOZES DO ALÉM.

Era ali pelos anos 1970 e a voz do Aeroporto de Congonhas chegou a ficar famosa. O povo ia lá, nos feriados, pra ver os aviões no chão, um tempo em que viajar de avião era impensável. A voz de mulher soava no saguão, como se do além, uma deusa a tornar nossos dias menos inglórios, suave, lembrando um amarelo azulado que ia se arroxeando, ficando sensual e o povão ali, bem-comportado, misturado aos bacanas que tinham o direito de ir e vir de norte a sul e alhures. Quem sabe a mulher locutora fosse uma simples assalariada, mas, soava naquele ambiente com a elegância da elite endinheirada. E o povão, pacato, a consumir a tarde de domingo e a treinar para entrar no mundo do consumo que as gentes superiores já estavam experimentando. O povão embasbacado com a voz feminina do saguão do Aeroporto de Congonhas.
Porque esse povão enfrentava, com regularidade, a voz da rodoviária da Duque de Caxias, ali em frente a Estação Júlio Prestes. Era uma voz masculina, apressada, rude e confusa. Era uma voz que lembrava um marrom mal rabiscado, de alguém que estava falando sem vontade, com raiva, sempre no mesmo tom, como se fosse uma metralha. Naquele labirinto de lojas rasteiras e escadas estreitas e sujas e mal iluminadas e teto multicolorido, quem não estava apressado, se punha a correr. Todos ficavam atônitos, a voz espalhava insegurança. Locução de palavras mal articuladas e um equipamento de som de qualidade sofrível, essencialmente, a voz traduzia e transmitia todo o desprezo dos citadinos para com os que chegavam. Se não ficou famosa, ficou conhecida, a voz da rodoviária de São Paulo dos anos 1970. Pela deselegância.
Esse povão ouvia rádio. A TV ainda era artigo de luxo. Mas a voz do rádio, apesar de cair do céu, não vinha do além. A voz do rádio tinha nome e personalidade. Era diferente dessas vozes que ribombavam num amplo ambiente público a transmitir mensagens impessoais. O locutor de rádio, sem corpo, estabelecia familiaridade com o ouvinte. Nas pequenas cidades, de onde afluía o povão pra São Paulo, não havia necessidade de voz ambiente para orientar os pequenos espaços públicos. Na megalópole, conhecemos a voz dos ricos e a voz dos pobres: a moça de congonhas e o homem da rodoviária. O dono da bola e da narrativa estabeleceu que rico era fino e pobre era bronco. E vamos enroscados nessa tramoia até hoje…

Tudo isso pra falar da voz masculina da linha amarela do metrô de São Paulo, aquela que faz os avisos no idioma inglês. Pego aquela linha de vez em quando. Creio que, se tivesse de ouvir aquela voz todo dia, acabaria tendo um piripaque. De raiva. Porque ela é melosa demais, ondulada demais. Não é possível que aquele jeito de falar seja representativo do modo de falar dos estadunidenses ou dos ingleses. Pelo pouco que ouço nos filmes, aquilo é uma caricatura. Então, viajando hoje na tal linha e ouvindo aquela voz, elaborei a seguinte teoria da conspiração: a pessoa que escolheu aquela voz – um funcionário ou funcionária da linha amarela — odeia a civilização anglo-saxã, a começar pela língua inglesa. Aquela voz de homem dando os avisos em inglês é um verdadeiro boicote ao idioma do império.

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