UMA
GOTA NO OCEANO DA NECESSIDADE DE SE CONSPIRAR PELA PAZ. Ia eu pela
ciclovia da ponte rodoferroviária da Avenida Cruzeiro do Sul, ali ao
lado do Terminal Rodoviário do Tietê, quando… Bom, tenho muitos
amigos de fora de SP, então preciso explicar. É uma ponte sobre o
Rio Tietê. No meio, passam os trens da linha norte-sul (azul) do
metrô. Nas laterais, as pistas rodoviárias. Os trens trafegam num
plano mais elevado que os carros, trilhos isolados por muros ou
grades altos. As ciclovias unidirecionais, uma de cada lado, bem
estreitas, ficam espremidas entre a parede alta da linha do metrô, à
esquerda, e o degrau alto do meio-fio da pista dos automóveis, à
direita, de tal maneira que foi necessário isolá-la com uma grade
de ferro de uns 80 cm de altura, para que os ciclistas não caíssem
na frente dos veículos, dada sua exígua largura. Tão estreita que
só passa uma bicicleta de cada vez, não é possível ultrapassagem.
Não é problema, porque são só cerca de 200 metros, nós ciclistas
temos paciência. Mas se um pedestre estiver dividindo a ciclofaixa,
temos de passar por ele com muito cuidado, sob pena de riscar o
guidão em suas costelas.
Durante
a construção, o complexo de vigas e colunas e pilares e pisos e
lajes e beirais foi, nas partes superiores dos barrancos,
cuidadosamente interligado por sólidos painéis de alvenaria, de
maneira a blindar os espaços sob as pontes, contra esse povo que
costuma morar debaixo de viadutos. Nos espaços inferiores, abertos,
passam, transversalmente, as pistas das marginais e as águas do rio.
São muito inóspitos, pelo barulho e velocidade dos carros e pelo
fedor e ameaça de enchentes das águas, ninguém se aventura a
acampar por ali. Mas as encostas altas embaixo dos pisos das pontes,
isoladas pelas paredes, são excelentes espaços para se dormir, se
levarmos em conta a alternativa das desprotegidas calçadas. E alguns
homens, como animais, entram ali, abrindo buracos nas tais paredes
isolantes. São acessos irregulares, muitos em formato circular, como
se roídos por...ratos! Então ali virou uma regular habitação
humana.
Ultrapassada
a ponte, a linha do metrô segue elevada, pra lá e pra cá, sobre um
espaçoso canteiro central, ora gramado, ora pavimentado. A ciclovia
se unifica em bidirecional e ainda sobra muito espaço para o
bem-estar do povo de rua. Muitas barracas — que as barracas hoje
são muito simples e baratas, quase descartáveis — e muita gente
fazendo da larga e saliente faixa uma espécie de longa habitação
coletiva quarto-sala-cozinha. Pessoas em grupo, sentadas,
conversando, ou caminhando; alguns deitados sobre o gramado, curtindo
o sono ou a cachaça; outros improvisando um fogareiro e uma panela;
há até viajantes, com suas bagagens, que ali perto está o terminal
de ônibus de longa distância. O prefeito Haddad começou a
construção de sanitários, mas não terminou. As bicicletas passam
por ali, em meio aos pedestres, sem problemas, porque o espaço
permite.
Ia
eu pedalando pela ínfima faixa, sobre a ponte. Alcancei um pedestre,
que não ouviu minha aproximação. Minha bicicleta até tem um
sininho para essas ocasiões, que nunca uso. Acho impertinente. Emito
um contido assobio, até o pedestre perceber. Ele finalmente percebe,
se espreme todo na parede do metrô, me pede desculpas, eu respondo
que não há de quê e digo-lhe muito obrigado, enquanto o ultrapasso
empurrando a bicicleta. Mais adiante, vem um homem com um carrinho de
mão — que na minha terra se chama carriola — carregado de raízes
de mandioca. Desses que vendem mandioca na rua, em toletes,
descascados na hora. Há, sobre as raízes, alguns ramos da planta,
ainda verdes, uma maneira muda do homem dizer e garantir que a
mercadoria é fresca. E a mercadoria é realmente fresca, de
primeira, que mandioca é coisa precária, e conheço bem, só de
ver, de longe, uma raiz em bom estado.
Quem projetou esse conjunto de elevados e canteiros centrais e ponte só previu o trânsito de trens e carros. Nem se lembrou das gentes e das bicicletas e das carriolas...Uma
carriola é mais larga que um homem, é preciso mais cuidado ainda no
cruzamento. O homem se esgueira pra lá, eu me esgueiro pra cá, e a
gente se cruza sem problemas. Percebendo meu aspecto amistoso, o
homem me diz que, há pouco, havia encontrado um ciclista que o havia
destratado por estar trafegando em local indevido. Me disse que ficou
muito puto — "gente ignorante!" —, que quase tirou a faca, e me mostrou a faca enfiada num
baldinho anexo à carriola, com a qual ele trabalha a mandioca. Eu
respondi-lhe, com sinceridade, que há muita gente insensível no
mundo. Muita gente que interpreta os regulamentos e a vida com a
habilidade de um elefante num depósito de cristais. Ele se despediu,
me agradecendo pela boa educação. Eu só não comprei um pacote de
mandioca fresca porque não tinha como levar, na bicicleta sem
mochila e sem bagageiro. Mas deixei e levei uma gota de paz.
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