sexta-feira, 20 de outubro de 2017

UMA GOTA DE PAZ.

UMA GOTA NO OCEANO DA NECESSIDADE DE SE CONSPIRAR PELA PAZ. Ia eu pela ciclovia da ponte rodoferroviária da Avenida Cruzeiro do Sul, ali ao lado do Terminal Rodoviário do Tietê, quando… Bom, tenho muitos amigos de fora de SP, então preciso explicar. É uma ponte sobre o Rio Tietê. No meio, passam os trens da linha norte-sul (azul) do metrô. Nas laterais, as pistas rodoviárias. Os trens trafegam num plano mais elevado que os carros, trilhos isolados por muros ou grades altos. As ciclovias unidirecionais, uma de cada lado, bem estreitas, ficam espremidas entre a parede alta da linha do metrô, à esquerda, e o degrau alto do meio-fio da pista dos automóveis, à direita, de tal maneira que foi necessário isolá-la com uma grade de ferro de uns 80 cm de altura, para que os ciclistas não caíssem na frente dos veículos, dada sua exígua largura. Tão estreita que só passa uma bicicleta de cada vez, não é possível ultrapassagem. Não é problema, porque são só cerca de 200 metros, nós ciclistas temos paciência. Mas se um pedestre estiver dividindo a ciclofaixa, temos de passar por ele com muito cuidado, sob pena de riscar o guidão em suas costelas.
Durante a construção, o complexo de vigas e colunas e pilares e pisos e lajes e beirais foi, nas partes superiores dos barrancos, cuidadosamente interligado por sólidos painéis de alvenaria, de maneira a blindar os espaços sob as pontes, contra esse povo que costuma morar debaixo de viadutos. Nos espaços inferiores, abertos, passam, transversalmente, as pistas das marginais e as águas do rio. São muito inóspitos, pelo barulho e velocidade dos carros e pelo fedor e ameaça de enchentes das águas, ninguém se aventura a acampar por ali. Mas as encostas altas embaixo dos pisos das pontes, isoladas pelas paredes, são excelentes espaços para se dormir, se levarmos em conta a alternativa das desprotegidas calçadas. E alguns homens, como animais, entram ali, abrindo buracos nas tais paredes isolantes. São acessos irregulares, muitos em formato circular, como se roídos por...ratos! Então ali virou uma regular habitação humana.
Ultrapassada a ponte, a linha do metrô segue elevada, pra lá e pra cá, sobre um espaçoso canteiro central, ora gramado, ora pavimentado. A ciclovia se unifica em bidirecional e ainda sobra muito espaço para o bem-estar do povo de rua. Muitas barracas — que as barracas hoje são muito simples e baratas, quase descartáveis — e muita gente fazendo da larga e saliente faixa uma espécie de longa habitação coletiva quarto-sala-cozinha. Pessoas em grupo, sentadas, conversando, ou caminhando; alguns deitados sobre o gramado, curtindo o sono ou a cachaça; outros improvisando um fogareiro e uma panela; há até viajantes, com suas bagagens, que ali perto está o terminal de ônibus de longa distância. O prefeito Haddad começou a construção de sanitários, mas não terminou. As bicicletas passam por ali, em meio aos pedestres, sem problemas, porque o espaço permite.
Ia eu pedalando pela ínfima faixa, sobre a ponte. Alcancei um pedestre, que não ouviu minha aproximação. Minha bicicleta até tem um sininho para essas ocasiões, que nunca uso. Acho impertinente. Emito um contido assobio, até o pedestre perceber. Ele finalmente percebe, se espreme todo na parede do metrô, me pede desculpas, eu respondo que não há de quê e digo-lhe muito obrigado, enquanto o ultrapasso empurrando a bicicleta. Mais adiante, vem um homem com um carrinho de mão — que na minha terra se chama carriola — carregado de raízes de mandioca. Desses que vendem mandioca na rua, em toletes, descascados na hora. Há, sobre as raízes, alguns ramos da planta, ainda verdes, uma maneira muda do homem dizer e garantir que a mercadoria é fresca. E a mercadoria é realmente fresca, de primeira, que mandioca é coisa precária, e conheço bem, só de ver, de longe, uma raiz em bom estado.

Quem projetou esse conjunto de elevados e canteiros centrais e ponte só previu o trânsito de trens e carros. Nem se lembrou das gentes e das bicicletas e das carriolas...Uma carriola é mais larga que um homem, é preciso mais cuidado ainda no cruzamento. O homem se esgueira pra lá, eu me esgueiro pra cá, e a gente se cruza sem problemas. Percebendo meu aspecto amistoso, o homem me diz que, há pouco, havia encontrado um ciclista que o havia destratado por estar trafegando em local indevido. Me disse que ficou muito puto — "gente ignorante!" —, que quase tirou a faca, e me mostrou a faca enfiada num baldinho anexo à carriola, com a qual ele trabalha a mandioca. Eu respondi-lhe, com sinceridade, que há muita gente insensível no mundo. Muita gente que interpreta os regulamentos e a vida com a habilidade de um elefante num depósito de cristais. Ele se despediu, me agradecendo pela boa educação. Eu só não comprei um pacote de mandioca fresca porque não tinha como levar, na bicicleta sem mochila e sem bagageiro. Mas deixei e levei uma gota de paz.

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