sexta-feira, 22 de setembro de 2017

CONVERSA MOLE.

Na Praça Oswaldo Cruz, ali no começo da Paulista, a moça bonita e simpática queria conversar comigo. Perguntei qual era o assunto. Unicef. Eu não queria. Ainda assim, ela agradeceu sorrindo.
Sobre outros assuntos eu poderia sim conversar com ela, mas sobre dar esmolas via Unicef não. Não, eu não queria dar nem entrar nem falar de um sistema quarterizado de arrecadação e entrega de donativos e outras ajudas. Que a fome no mundo não dependia de migalhas esparsas, mas de 2 ou 3 bombas H a menos testadas por ano, a ONU bem sabia.
No Viaduto Pedroso o rapaz de calça e camisa pretas vinha pela calçada em minha direção. Roupas bem-arrumadas, cabelos curtos e penteados, uns 30 anos de idade, veio chegando e, sem parar, me perguntou se podia falar comigo sobre Jesus Cristo. Eu disse que não podia. Ele então me desejou que Deus me mandasse pro Inferno. Eu respondi Amém nóis tudo.
Menos pior, porque ele poderia ter me mandado diretamente, ele mesmo, em seu próprio nome, e isto seria pior, porque sem intermediários. No caso, eu ao menos estou nas mãos de Deus… Tudo bem, sei que Deus é cruel até com os crentes, imagina com os increntes. Mas, enfim, vai saber quando Ele terá tempo de se ocupar de mim, tão longe das Suas vistas, e ainda via desejo de outrem tão minúsculo e insignificante.
Menos pior também porque ele poderia ter me mandado (ou pedido para me mandarem) para os quintos do Inferno. Ou para as profundezas do Inferno. Mas não, apenas desejou que eu fosse mandado para o Inferno, assim, genericamente. E isso é bem menos pior, porque, de repente, eu posso ficar ali logo no começo, num bairro chamado Limbo. Porque lá pelos quintos do Inferno me parece que é um gelo só e mais lá no fundo, é quente demais, além de ser muito próximo do chefe. Um friozão de vez em quando, como esses 7º negativos que peguei na montanha, feriadão passado, ou um calorzão daqueles de janeiro ali na Praia, até que são bons, de vez em quando. Mas eternamente, não tem tatu que aguente.
E, pensando bem, se Deus quiser atender ao desejo lá do seu crente maleducado do Vd.Pedroso, é bem provável que Ele, na ausência de exata especificação, me mande para o Limbo, porque é um lugar destinado aos não-pecadores incréus, uma categoria de gente que, modestamente, acho que me pode ser atribuída. É um lugar razoável, porque longe dos dois Chefes: o do Mal e o do Bem. Os gramados são sempre verdes e bem-aparados, as ruas são limpas, não tem algazarra, o problema é que você nunca deixará de ser você pra toda vida. É um lugar sem esperança. Mas a contrapartida positiva é que não tem hierarquia (não tem Chefe, é um lugar onde você é esquecido), ao contrário do Paraíso, onde os gramados também são verdes e bem-cuidados, mas é difícil chegar perto do Chefe, por causa da legião de puxa-sacos e de cargos disputáveis. E ainda, todos santos e, hipocritamente, desejando que você se dê bem na vida eterna. Acho que não vale a pena trocar a desesperança não supervisionada pela quimera de virar arcebispo e conseguir ao máximo um posto de vigário numa paróquia de terceira.
Minha paciência para ouvir e retrucar pode ser infinita. Ou ínfima. Depende. É ínfima quando o sujeito vem com uma conversa desesperada de salvação. Esses jovens do Greenpeace, aqueles outros Hare krishna, essas mórmons todas bem-arrumadinhas, aqueles neopentecostais, essas ONG’s em geral, instituições de caridade, contra o câncer... Fico muito impaciente quando alguém vem todo preocupado querendo salvar o planeta ou minha alma. Querendo me converter ou me guiar. Quando alguém que não conheço se mostra tão interessado em meu equilíbrio interior, insistindo em seus livros e soluções milagrosas. Alguém bem-nutrido vem me convocar para matar a fome dos famintos. Não tenho a consciência pesada, não estou desesperado para salvar nada nem ninguém. Nem a mim. Porque a Salvação vem sempre acompanhada do Desespero. Então não gosto nem da uma, nem da outra, e vice-versa. Não suporto esse papo interessado. Gosto mesmo é de uma conversa mole.


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