Na
Praça Oswaldo Cruz, ali no começo da Paulista, a moça bonita e
simpática queria conversar comigo. Perguntei qual era o assunto.
Unicef. Eu não queria. Ainda assim, ela agradeceu sorrindo.
Sobre
outros assuntos eu poderia sim conversar com ela, mas sobre dar
esmolas via Unicef não. Não, eu não queria dar nem entrar nem
falar de um sistema quarterizado de arrecadação e entrega de
donativos e outras ajudas. Que a fome no mundo não dependia de migalhas esparsas, mas de 2 ou 3 bombas H a menos testadas por ano, a ONU bem sabia.
No
Viaduto Pedroso o rapaz de calça e camisa pretas vinha pela calçada
em minha direção. Roupas bem-arrumadas, cabelos curtos e penteados,
uns 30 anos de idade, veio chegando e, sem parar, me perguntou se
podia falar comigo sobre Jesus Cristo. Eu disse que não podia. Ele
então me desejou que Deus me mandasse pro Inferno. Eu respondi Amém
nóis tudo.
Menos
pior, porque ele poderia ter me mandado diretamente, ele mesmo, em seu próprio nome, e
isto seria pior, porque sem intermediários. No caso, eu ao menos
estou nas mãos de Deus… Tudo bem, sei que Deus é cruel até com
os crentes, imagina com os increntes. Mas, enfim, vai saber quando
Ele terá tempo de se ocupar de mim, tão longe das Suas vistas, e
ainda via desejo de outrem tão minúsculo e insignificante.
Menos
pior também porque ele poderia ter me mandado (ou pedido para me
mandarem) para os quintos do Inferno. Ou para as profundezas do
Inferno. Mas não, apenas desejou que eu fosse mandado para o Inferno,
assim, genericamente. E isso é bem menos pior, porque, de repente,
eu posso ficar ali logo no começo, num bairro chamado Limbo. Porque
lá pelos quintos do Inferno me parece que é um gelo só e mais lá
no fundo, é quente demais, além de ser muito próximo do chefe. Um
friozão de vez em quando, como esses 7º negativos que peguei na montanha, feriadão passado, ou um calorzão
daqueles de janeiro ali na Praia, até que são bons, de vez em
quando. Mas eternamente, não tem tatu que aguente.
E,
pensando bem, se Deus quiser atender ao desejo lá do seu crente
maleducado do Vd.Pedroso, é bem provável que Ele, na ausência de
exata especificação, me mande para o Limbo, porque é um lugar
destinado aos não-pecadores incréus, uma categoria de gente que,
modestamente, acho que me pode ser atribuída. É um lugar razoável,
porque longe dos dois Chefes: o do Mal e o do Bem. Os gramados são
sempre verdes e bem-aparados, as ruas são limpas, não tem
algazarra, o problema é que você nunca deixará de ser você pra
toda vida. É um lugar sem esperança. Mas a contrapartida positiva é
que não tem hierarquia (não tem Chefe, é um lugar onde você é
esquecido), ao contrário do Paraíso, onde os gramados também são
verdes e bem-cuidados, mas é difícil chegar perto do Chefe, por
causa da legião de puxa-sacos e de cargos disputáveis. E ainda, todos santos e,
hipocritamente, desejando que você se dê bem na vida eterna. Acho
que não vale a pena trocar a desesperança não supervisionada pela
quimera de virar arcebispo e conseguir ao máximo um posto de vigário
numa paróquia de terceira.
Minha
paciência para ouvir e retrucar pode ser infinita. Ou ínfima.
Depende. É ínfima quando o sujeito vem com uma conversa desesperada
de salvação. Esses jovens do Greenpeace, aqueles outros Hare
krishna, essas mórmons todas bem-arrumadinhas, aqueles
neopentecostais, essas ONG’s em geral, instituições de caridade, contra o câncer... Fico muito impaciente quando
alguém vem todo preocupado querendo salvar o planeta ou minha alma.
Querendo me converter ou me guiar. Quando alguém que não conheço
se mostra tão interessado em meu equilíbrio interior, insistindo em
seus livros e soluções milagrosas. Alguém bem-nutrido vem me
convocar para matar a fome dos famintos. Não tenho a consciência
pesada, não estou desesperado para salvar nada nem ninguém. Nem a
mim. Porque a Salvação vem sempre acompanhada do Desespero. Então
não gosto nem da uma, nem da outra, e vice-versa. Não suporto esse papo interessado. Gosto mesmo é de uma conversa mole.
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