terça-feira, 26 de setembro de 2017

UM DESGOSTO, UMA VONTADE DE CHORAR.

Hoje caminhei por três horas pelo centrão de São Paulo. Liberdade, centro velho, centro novo, região da 25 de março. A Rua Galvão Bueno, na Liberdade, é o centro do comércio oriental da cidade. Mas a irrelevância e a decadência também lá chegaram. Somente bugigangas e produtos banais.
Na Rua Quintino Bocaiuva, centro velho, havia loja de chapéus, de artigos esportivos, bons produtos. Lojas de calçados, bons calçados. Na Rua Direita havia as Lojas Americanas e as Lojas Brasileiras; enormes, transbordavam para o quarteirão de cima. A Americanas ainda persiste, mas irreconhecível, vagabunda. Na Praça do Patriarca, havia uma elegante agência bancária do Unibanco, hoje só tapumes.
Até os camelôs mudaram de nome, hoje são ambulantes. De fato, vivem pra lá e pra cá, exibindo poucas e ordinárias mercadorias, fugindo dos fiscais. Miseráveis por toda parte, às mancheias, muita gente segurando bíblias, falando pelos cotovelos, pelos ventos, para os fantasmas, e para poucos gatos pingados de carne e osso e pobreza.
Pobres por todo lado, alguns deles loucos. Não há sanidade que suporte tanto descaso. Corpos jogados ante nossos olhos familiarizados, em meio ao corre-corre da batalha.
No Viaduto do Chá há um comércio religioso, que a prefeitura não pode reprimir, parece que está enquadrado em “manifestações religiosas”, que a lei protege. As Casas Bahia ocupam o espaço do antigo Mappin, em frente ao Teatro Municipal, praça Ramos de Azevedo; as casas bahia, loja-símbolo da avacalhação comercial que nos assola. Rua Barão de Itapetininga, parece que até os caçadores de mão de obra barata desapareceram. E tome irrelevância comercial. Não se trata de lojas simples, produtos baratos. Trata-se de lojas ordinárias, apressadas, e mercadorias vagabundas, descartáveis: irrelevantes. Mais que as mercadorias, as lojas são baratas.
Irrelevância. Eis a palavra mais adequada ao centrão da cidade de São Paulo. Um comércio mesquinho para uma população invisível, que não conta.
O comércio digno desse nome e o dinheiro para sustentá-lo há muito que se refugiaram nos shoppings ou fugiram para alguns bairros ainda não invadidos pelos pobres. Mas tudo é questão de tempo e muita porrada. São 42 anos de cidade em movimento ante meus olhos estrangeiros, por isso observadores. Na 25 de março consigo ver a massificação e a impessoalidade das redes e vidas virtuais na multidão de carne e osso e suor e olhos vidrados nas vitrinas, consigo ver os tentáculos da irrelevância se estendendo pelos interiores e sertões em enormes sacolões e sacoleiras e ônibus fretados de comerciantes cansados.
Me invadem um desgosto e uma vontade de chorar, um choro de tristeza e raiva. A elite econômica brasileira despreza os pobres. Considera-os irrelevantes. Mais: ignora-os. Em 1975 éramos 100 milhões e ainda vivíamos resquícios do milagre econômico promovido pela ditadura militar. Em 2017, dobramos a população e dizimamos o centrão da maior cidade do Brasil. Pelo que acontece aqui no centro do país, dá pra imaginar a barbárie que grassa pelos cantos e recantos desse imenso território . Até quando a elite econômica brasileira vai fugir da miséria? Sim, trinco os dentes: o verbo exato é fugir. Porque não tem escapatória, um dia a rataiada acua o gato.


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