Hoje
caminhei por três horas pelo centrão de São Paulo. Liberdade,
centro velho, centro novo, região da 25 de março. A Rua Galvão
Bueno, na Liberdade, é o centro do comércio oriental da cidade. Mas
a irrelevância e a decadência também lá chegaram. Somente
bugigangas e produtos banais.
Na
Rua Quintino Bocaiuva, centro velho, havia loja de chapéus, de
artigos esportivos, bons produtos. Lojas de calçados, bons calçados.
Na Rua Direita havia as Lojas Americanas e as Lojas Brasileiras;
enormes, transbordavam para o quarteirão de cima. A Americanas ainda
persiste, mas irreconhecível, vagabunda. Na Praça do Patriarca,
havia uma elegante agência bancária do Unibanco, hoje só tapumes.
Até
os camelôs mudaram de nome, hoje são ambulantes. De fato, vivem pra
lá e pra cá, exibindo poucas e ordinárias mercadorias, fugindo dos
fiscais. Miseráveis por toda parte, às mancheias, muita gente
segurando bíblias, falando pelos cotovelos, pelos ventos, para os
fantasmas, e para poucos gatos pingados de carne e osso e pobreza.
Pobres
por todo lado, alguns deles loucos. Não há sanidade que suporte
tanto descaso. Corpos jogados ante nossos olhos familiarizados, em
meio ao corre-corre da batalha.
No
Viaduto do Chá há um comércio religioso, que a prefeitura não
pode reprimir, parece que está enquadrado em “manifestações
religiosas”, que a lei protege. As Casas Bahia ocupam o espaço do
antigo Mappin, em frente ao Teatro Municipal, praça Ramos de
Azevedo; as casas bahia, loja-símbolo da avacalhação comercial que
nos assola. Rua Barão de Itapetininga, parece que até os caçadores
de mão de obra barata desapareceram. E tome irrelevância comercial.
Não se trata de lojas simples, produtos baratos. Trata-se de lojas
ordinárias, apressadas, e mercadorias vagabundas, descartáveis:
irrelevantes. Mais que as mercadorias, as lojas são baratas.
Irrelevância.
Eis a palavra mais adequada ao centrão da cidade de São Paulo. Um
comércio mesquinho para uma população invisível, que não conta.
O
comércio digno desse nome e o dinheiro para sustentá-lo há muito
que se refugiaram nos shoppings ou fugiram para alguns bairros ainda
não invadidos pelos pobres. Mas tudo é questão de tempo e muita
porrada. São 42 anos de cidade em movimento ante meus olhos
estrangeiros, por isso observadores. Na 25 de março consigo ver a
massificação e a impessoalidade das redes e vidas virtuais na
multidão de carne e osso e suor e olhos vidrados nas vitrinas,
consigo ver os tentáculos da irrelevância se estendendo pelos
interiores e sertões em enormes sacolões e sacoleiras e ônibus
fretados de comerciantes cansados.
Me
invadem um desgosto e uma vontade de chorar, um choro de tristeza e
raiva. A elite econômica brasileira despreza os pobres. Considera-os
irrelevantes. Mais: ignora-os. Em 1975 éramos 100 milhões e ainda
vivíamos resquícios do milagre econômico promovido pela ditadura
militar. Em 2017, dobramos a população e dizimamos o centrão da
maior cidade do Brasil. Pelo que acontece aqui no centro do país, dá
pra imaginar a barbárie que grassa pelos cantos e recantos desse
imenso território . Até quando a elite econômica brasileira vai
fugir da miséria? Sim, trinco os dentes: o verbo exato é fugir.
Porque não tem escapatória, um dia a rataiada acua o gato.
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