Esbarrei num cara pobre, preto, nordestino e de direita. Não sei se era gay. Aliás, em nossa câmara municipal paulistana há um vereador pobre, preto, gay e de direita. Garoto novo, deve ter nascido aqui, mas é plausível que sua família tenha vindo do nordeste. Nós, supostos pobres de esquerda, tendemos a pensar raso e achar que as vítimas da direita reagem a ela com lógica e são todas de esquerda. Mas a gente não devia pensar assim. Não foi nosso guru, o Karl, que disse que os pensamentos dominantes são os pensamentos da classe dominante?
A classe dominante é de direita. E não faz mais que a obrigação. Não, o pobre de direita em quem esbarrei não pertence à classe dominante. Tudo bem, ele tem casa, carro e consegue até pagar um plano de saúde. É quase um privilegiado, diante da nossa miséria escandalosa, mas não pertence à classe dominante. Não sei se o cara é assalariado ou tem um pequeno negócio, talvez tenha um carguinho numa firma por aí, talvez seja funcionário público. Enfim, é um cara sujeito às vicissitudes da economia e das reformas. Ou seja, ele não tem cabedal, ops, capital. Pode até escapar, mas seus descendentes não escapam...
Porque a classe dominante é menos de 1% da população. Bem menos: 1% seria 2 milhões e nossa classe dominante tem menos que isso. Ela tem esse nome porque domina, é claro. Controla a feitura e execução das leis (legislativo e judiciário). Por aí, direciona os sistemas educacional e de comunicação social, entre outros: põe os ovos, choca, faz nascer e encaminha... Sabe aquele "dinheirão" que o pobre de direita ajuntou e está aplicado rendendo bem? Aquilo é nada, para os padrões da classe dominante. Quer saber: nem ganhando sozinho na loteria o tal se credencia à classe dominante, por parâmetros econômicos.
Nós, supostos pobres de esquerda, somos minoria, por definição, à luz da máxima do Karl. Se as ideias dominantes são de direita, é lógico que a maioria seja de direita, mesmo os espezinhados. Poucos vão além do que se aprende na escola básica e do que se vê na tevê. Essa minoria, se tem o azar de esbarrar em sistemas alternativos ou situações críticas e específicas, passa a questionar o Sistema: são os esquerdistas. Quase por acaso. Por isso, deviam ser mais humildes. Não deviam se comparar aos profetas, aos santos, aos visionários, portadores da verdade. 99% dos pobres de esquerda são arrogantes. Se consideram conscientes: "consciência de classe". É essa arrogância que faz com que despertem tanto ódio do povão de direita. Um ódio que permanece latente a maior parte do tempo e, de vez em quando, explode. É o que acontece agora no Brasil.
Lembra-me o dia 20 de junho de 2013. Nesse dia, nós, supostos esquerdistas, descobrimos, pasmos, que o chão da Avenida Paulista em suas manifestações políticas não era monopólio nosso. Pior, éramos minoria. Um companheiro sindicalista reagia estupefato, com ódio. Reação típica dos desinformados. Odiar é coisa de imaturo ou místico. 0diar ou adorar é coisa de pobre de direita. Não acredita que sempre fomos minoria? Faça um retrospecto de sua militância: sempre tendo de convencer - quase enganar - a maioria, os medrosos, os baba-ovo. A prova de que sempre fomos minoria são as "comissões de esclarecimento": sem piquete não tem greve.
Mas tenho um amigo que diz que não existe pobre de direita. O que existe é pobre desinformado, quer dizer, mal-informado, manipulado, ludibriado. Ele acha que, por definição, todo pobre é de esquerda. Se o pobre ou seus amigos ou seus vizinhos ou seus descendentes pertence aos deserdados da terra, ele só pode ser contrário às ideias de quem está usufruindo da terra. Só que, para isso, o pobre precisa tomar pé da realidade um pouco mais além do seu quintal. E isso parece simples, mas não é. Ao contrário, quase todos morrem dentro da bolha ideológica. Enquanto isso, a História avança a passos lentos. E lógicos, como diria o nosso guru Karl. E de vez em quando dá um cochilo... Enfim, meu amigo acha que não é lógico pobre de direita. Pero que los hay, los hay. E mucho. Azar da lógica.
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