domingo, 26 de março de 2017

ARMAS E MÉDICOS

     Vamos supor que a Rede Globo lançasse uma campanha contra os médicos. Mandasse repórteres aos hospitais para garimpar erros médicos, desvendasse acordos comerciais entre médicos e laboratórios, fotografasse as luxuosas residências de alguns, contasse em quais restaurantes comem, onde passam as férias. Divulgasse os casos de assédios moral/sexual que acontecem em consultórios, os valores cobrados por algumas intervenções cirúrgicas, etc., noticiasse as condenações judiciais de médicos que acontecem normalmente por aí todo dia, tudo com um viés generalizante e em rede nacional, todo dia, de manhã, ao meio dia, antes da novela,  no jornal da madrugada, no canal aberto, no canal pago, no rádio, no site, no jornal, na revista, no escambau, por dias, semanas, meses, anos a fio, ininterruptamente, diuturnamente.

     Acho que, após uns 10 anos, o povão iria pra Av.Paulista num domingo ensolarado, gritar atrás de um enorme trio elétrico em que uma enorme faixa pregaria: ABAIXO OS MÉDICOS!

     E quem ocuparia os postos dos médicos nos hospitais e consultórios, para cuidar da nossa saúde?

     No caminhão da Paulista, hoje, estava escrito ABAIXO OS POLÍTICOS! E então? Quem colocamos no lugar deles para cuidar da Política? Porque a Política existe, independente da nossa vontade. A Política é a gestão dos bens comuns, dos interesses coletivos. A Política é uma realidade social objetiva, está aí, gostemos ou não, assim como os acasalamentos ou os funerais. Colocar militar no governo é como colocar açougueiro na funilaria, padeiro no hospital...

     Fui andar na Paulista agora de manhã, devagar, recomendação médica, dez costelas quebradas... A agência de publicidade contratada pelo Vem pra Rua estava dispondo os enormes caminhões ao longo da avenida, para a manifestação de logo mais à tarde. Ia andando e ouvindo diálogos entrecortados dos operários e seus contramestres na corrida contra o tempo para organizar os trios elétricos, fixar faixas, instalar caixas de som, "esse era pra ser o carro nº 7 mas vai ser o 5", ouvi de algum coordenador enquanto passava. É um trabalho insano, esse, porque, além de ser desgastante fisicamente, tem hora improrrogável para terminar. Só que, diferente das manifestações Vermelhas, essas são milimétrica e unificadamente organizadas.

     No pós 1964 e até 2013 só havia manifestações Vermelhas. Era impensável manifestações verde-amarelas como essa que acontece hoje na Paulista. "Mais polícia, menos bandido", "Pela intervenção militar", "abaixo os políticos", "menos estado, mais mercado", "mais consumidores, menos cidadãos", "não ao comunismo". "ARMAS PARA A VIDA". Éééhhhh! Armas para Vida, pregava uma enorme faixa das mais adiantadas, já fixada na lateral do trio elétrico. Fundo verde, bordas amarelas, exibia uma enorme fotografia do Sérgio Moro à direita e o ARMAS PARA A VIDA ocupava todo o resto, acho que alguém em campanha para a legalização do porte de armas.

     O aspecto impensável dessas manifestações não é o fato de ocorrerem nem suas palavras de ordem. É a quantidade de gente que vai lá apoiar. Mas vejo nisso um aspecto positivo. Elas conseguem mobilizar uma parte da população que jamais se levantaria do sofá para atender a um chamado dos vermelhos. Todos nascem desmobilizados e a maioria assim permanece até morrer. E gente desmobilizada defende sempre o status quo, aqui ou na China. Muitos desses que irão à Paulista hoje descobrirão logo mais sua verdadeira tribo.

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