sexta-feira, 10 de março de 2017

A GARÇONETE

     Ela trabalha quantas horas por dia num dos botecos que ocupam três esquinas da Consolação com a Antônia de Queiroz, centro da megalópole? A quarta esquina restante é ocupada por uma escola estadual de ensino fundamental. Esses bares tão abundantes em SP nunca se dão mal nas crises econômicas porque seus donos são gente do povo, que se contentam com pouco, diferentes dessas birosquinhas da moda que abrem e fecham conforme o sobe-e-desce da Bolsa, abertas por gente graúda sazonalmente desempregada.

     Está sempre com um sorriso contido pregado no rosto, não sei se de bom humor ou de disfarce. Em frente, cinco faixas que descem, cinco faixas que sobem, ela assiste com olhos transparentes à fauna que ronca: menos as bicicletas, nas duas faixas vermelhas. Os ônibus fazem a base, correspondente ao contra-baixo. Os floreios e os ponteios e os solos de clarineta e outros metais todos estridentes são feitos pelas motocicletas de intermitentes businices e motores destemperados de fumaça e guinchos ansiosos. Os carros de motoristas solitários preenchem o meio do campo nas três faixas que descem e nas outras tantas que sobem, na pandomina sinfônica, ali onde a ladeira ensaia uma trégua.

     O bar tem apenas sete mesas. Ela trabalha sozinha, servindo passantes solitários e ocasionais. O lugar não fica lotado, poucas vezes os quatro lugares de cada mesa são ocupados. Quase todos são homens, vêm sozinhos, pedem uma cerveja para acompanhar o prato do dia, treze reais. A garçonete, apesar de bonita, não suscita gracejos. Acho que os fregueses se intimidam diante do sorriso a meio mastro e das rugas na testa de pele saudável.

     A moça se diverte enquanto trabalha. Não com os clientes, todos sem sabor, homens gordos ou esquálidos, suados e assustados da vida sibilina. Se diverte com os dois palhaços que vê pela janela a distrair os motoristas que aguardam ansiosos na demorada transversal. Um é atleta de roupas justas e se equilibra numa monocicleta enquanto manipula três peças no ar;  o outro assopra uma gaita dessas de teclas sustentada por uma mão, enquanto a outra segura as calças largas de propósito.

     No espaço exíguo, a garçonete se movimenta segura de gestos opacos, com  imperceptíveis sobressaltos que se seguem às rangentes freadas e correspondentes gritos e imprecações oriundas da paisagem lindeira. Sua testa mais se franze e consegue se deixar parecer tensa no horário da saída da escola em frente, com a algazarra e as imprudências da molecada que se derrama pela calçada em meio aos carros que sobem e descem e transpassam e não raro atropelam.

     Mas não tem nada não, o final do expediente há de chegar e ela vai virar pedestre e vai pegar o metrô  e depois o trem e depois o ônibus e depois o lotação e depois a garupa da moto do irmão, que já será noite e ela mora numa quebrada muito pra lá de Santo Amaro. No domingo o bar não abre, ela vai à igreja e, de longe, vê o João e a felicidade ainda se sufoca num discreto arrepio das partes, enquanto ouve o pastor a sugerir-lhe perseverança e subserviência  junto ao seu futuro homem.

     Meu comercial chega. Num gesto único, derramo todo o feijão no prato e devolvo a travessinha de aço inoxidável vazia à garçonete,  para desentupir a mesa. Tenho a esperança de que meu deselegante proceder a diverte. Felicidade é arroz e feijão e apetite. Na escola, os portões já se fecharam, agora ali reina a paz. Torna a algazarra difusa de escapamentos e buzinas e freadas e respiros dos zumbis afoitos na calçada. Para os lados do cemitério, uma fumaça mais densa desenha uma espiral no ar, em meio à algaravia de fios e postes e uma quaresmeira ressequida no canteiro central, sob o fundo de perfis desbotados de prédios impessoais. Cismo que essa mulher enviará essa vida besta à merda.

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