Levei um susto quando abri a porta para o moço que ia instalar a pia. Era a cara do Adoniran Barbosa. Ele começou seu trabalho e eu, por ali, conversa vai, conversa vem, perguntei se ele era parente do Adoniran Barbosa. A pergunta cabia, porque, além da semelhança física, o moço tinha seu domicílio laboral ali na Manoel Dutra, coração do Bixiga. Como se sabe, o Bixiga era o pedaço preferido do Adoniran.
— Quem é esse Donirão? — perguntou o moço.
— A-d-o-n-i-r-a-n. Adoniran Barbosa... — esclareci.
— Não. Não conheço — disse o sósia do Adoniran.
— Não conhece Adoniran BarBOSA? perguntei, estupefato.
— Não. Nunca ouvi falar.
— Você conhece aquela música que fala assim: "moro em Jaçanã/ se eu perder esse trem..." ou aquela assim: "O Arnesto nos convidou/ prum samba, ele mora no Brás"?
— Ah, sim. Conheço. Demônios da Garoa.
— Isso. Essas músicas foram compostas pelo Adoniran — e continuei, indignado, desancando o cara, onde já se viu um senhor de 50 anos nunca ter ouvido falar em Adoniran Barbosa.
— Se você me perguntar o nome de qualquer sanfoneiro de forró, eu sei, mas esse aí, nunca tinha ouvido falar não — confirmou ele mais uma vez.
O moço tinha uns 50 anos; nasceu nas Alagoas, mas mora em São Paulo há 30 anos. Trabalha no Bixiga, bairro onde Adoniran vivia batucando Trem das Onze, música-símbolo de São Paulo. Na hora me lembrei de crônica publicada aqui mesmo, (http://cronicas-cronicas-sujeito-predicado.blogspot.com.br/2015/06/mundos-paralelos.htmlem), comentando a morte do famoso cantor Cristiano Araújo, com o título "Mundos Paralelos". Eu estava, então, estupefato com a minha ignorância, pois nunca havia suspeitado da existência daquele cantor tão famoso. Quer dizer, eu vivia em outro mundo, como o moço com quem eu conversava agora.
Não se trata de ignorância. Nós, cheios de bancos escolares, somos muito arrogantes, tachamos logo de ignorante alguém que desconhece algo óbvio para nós. Nesse mundo massificado de gentes e fatos e notícias e interesses, composto por distintas camadas sociais, culturais, econômicas, algo notório para um, pode ser desconhecido para outro. Isso vale inclusive para as opiniões... Mais que viver em bolhas, vivemos em mundos paralelos. Há que se exercitar a empatia, minha gente.
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