domingo, 19 de março de 2017

MÚLTIPLAS COSTELAS QUEBRADAS

     Antes de falar sobre as tais costelas, quero registrar aqui — pra não deixar passar batido o assunto da ordem do dia — que fiquei sabendo ainda na infância de que a mortadela era feita de carne de cavalo velho. Passava uns compradores de cavalo velho na região. Não demorou e o povo descobriu que tais compradores eram de Araguari (MG) e que lá havia um frigorífico...Por coincidência, havia uma marca de mortadela fabricada em...Araguari. Pronto! Tanto é verdade que, se você quiser ofender um cavaleiro lá na minha terra, basta chamar seu cavalo de Araguari. Ainda assim, continuei, vida afora, basicamente, um comedor de mortadela.

     Ainda que tarde, descubro que a fraqueza do homem é a costela. Falta de aviso não foi, pois desde sempre ouço a conversa de que o Criador tirou uma nossa costela para fazer a mulher. Há mais tempo eu deveria ter entendido a linguagem figurada. A perdição do homem nunca foi a mulher, mas suas costelas. Suas, as próprias, os doze pares de costelas que o homem leva em seu tórax. Quer dizer, nem sei se são pares, sei que formam uma gaiola muito mal ajambrada envolvendo o que temos de mais nobre e útil, que são os pulmões e o coração. Mal soldadas no osso que temos no peito, na frente, e na coluna vertebral, atrás. O Criador não estava num dia inspirado quando projetou nossas costelas. A prova é que considerou-as tão inúteis que arrancou uma delas para dar início à construção da mulher.

     A gente pensa que as pessoas só quebram o braço ou a perna, porque é isso que vemos engessado por aí. Até o dia que quebramos nossas próprias costelas. Então descobrimos que o pai, o sogro, o vizinho, o amigo, já quebraram costelas, e que elas não podem ser imobilizadas, têm de se consertar em pleno movimento. E que nunca se quebra apenas uma. Sempre quebramos mais de uma de cada vez. Mais uma evidência de que aquele conjunto de ossinhos tortos e finos realmente foi muito mal projetado. Mas o erro maior de projeto está no lugar em que tais ossinhos foram alojados: envolvendo os pulmões! Ora, os pulmões são a urgência do nosso viver. Cuja essência é encher e esvaziar, num vai-e-vem de poucos segundos, como duas grandes bexigas, levando junto, pra lá e pra cá, os tais ossinhos, as costelas. Quebra uma delas e o vivente não pode nem respirar direito, que dirá tossir, rir, soluçar, espirrar. Não pode nem dormir deitado, muito menos se virar na cama; ora, todo nosso equilíbrio passa pelo tórax, se sua gaiola está avariada, estamos inválidos.

     Pois foi. Numa barbeiragem tamanha, caí da bicicleta e bati meu ponto fraco no asfalto da mesma forma que uma abóbora se espatifa contra a superfície do planeta sob o efeito da gravidade. Tanto lugar pra bater — ombros, quadris, joelhos — mas não, fui bater logo a lateral esquerda das costelas. Resultado: múltiplas fraturas. A médica da tomografia nem quis me dizer quantas. Disse que era mais fácil dizer quantas não quebraram.  E vale registrar que, em plena região central da megalópole, vários anônimos passantes pararam e me guardaram enquanto eu me recuperava estendido na calçada. Só continuaram seu caminho quando me viram deixar o local ainda pedalando. Três quarteirões depois, quando a adrenalina baixou, tive de chamar um táxi e me entregar a três dias de internação hospitalar.

     Ah, sim! A bicicleta passa bem, nenhum arranhão.

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